{"id":1140,"date":"2009-12-17T17:11:47","date_gmt":"2009-12-17T19:11:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1140"},"modified":"2009-12-20T20:57:48","modified_gmt":"2009-12-20T22:57:48","slug":"a-intencao-em-claudia-abreu","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-intencao-em-claudia-abreu","title":{"rendered":"A INTEN\u00c7\u00c3O EM CLAUDIA ABREU"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Claudia Abreu n\u00e3o precisa das m\u00e3os, nem de sotaques, nem de m\u00e1scaras. Ela n\u00e3o grita, n\u00e3o faz pose, n\u00e3o se agiganta. Precisa apenas do que tem e n\u00e3o \u00e9 muito: uma beleza discreta, uma presen\u00e7a pequena, uma voz comum. Atuar nem sempre significa encarnar personas, transmutar-se em personagens marcantes. Basta ficar de rosto inteiro na tela, como aconteceu num desses dias em Bel\u00edssima, em que Claudia Abreu enfrentou a ira da cunhada. Ela estava impotente diante do drama. Mas sua impot\u00eancia n\u00e3o foi anunciada em express\u00f5es de dor ou raiva ou desencanto. Sem mover uma linha do rosto, ela simplesmente vestiu em camadas os conflitos que a levaram para aquela situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sua cara se desmanchou, n\u00e3o em l\u00e1grimas, porque os olhos estavam secos. O queixo n\u00e3o tremeu, o nariz n\u00e3o fungou. Ela foi se transformando numa ru\u00edna humana. Conseguiu isso apenas trabalhando a inten\u00e7\u00e3o. Seu sofrimento era sua impossibilidade de a\u00e7\u00e3o, a d\u00favida de que estivesse fazendo o certo para proteger os filhos, o remorso frente \u00e0 evid\u00eancia. S\u00e3o como peles transparentes que v\u00e3o se superpondo no rosto desfigurado pelas emo\u00e7\u00f5es em transe.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o podia chorar, nem gritar, nem pedir perd\u00e3o. N\u00e3o podia dizer o verdadeiro motivo da sua decis\u00e3o. N\u00e3o podia prometer, nem jurar, nem implorar. Ela estava presa na armadilha da farsa que precisou assumir. Sua imobilidade \u00e9 a transpar\u00eancia total. Sem m\u00fasculos da face que a apoiassem, sem rugas significativas na testa, sem brilho nos olhos, ela ficou ali por incont\u00e1veis segundos, eternos enquanto v\u00edamos n\u00e3o a Vit\u00f3ria que se decompunha, mas a atriz que atingia o estado de arte.<\/p>\n<p>No minuto seguinte ela chorou e fez tudo a que tinha direito. Mas naquele momento em que ficou amarrada \u00e0 chantagem que a prendia, em que correntes opostas se jogavam no pared\u00e3o de uma aparente submiss\u00e3o e indiferen\u00e7a, sua humanidade chegou \u00e0 tona por meio desse desenho que Claudia comp\u00f4s como trag\u00e9dia, num folhetim que \u00e9 pura apela\u00e7\u00e3o e falsidade.<\/p>\n<p>Tem ator ruim demais ao redor de Claudia Abreu. Os caricatos, os an\u00f3dinos, as potrancas, as bibel\u00f4s, os abestalhados. Uma galeria pobre para o of\u00edcio da interpreta\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o \u00e9 isso que transforma Claudia num destaque. Com qualquer elenco, ele faria o mesmo. O que a faz intensa e maior \u00e9 essa capacidade de reduzir-se \u00e0 ess\u00eancia da profiss\u00e3o, que nada mais \u00e9 do que trabalhar o que existe de subterr\u00e2neo, para que a apar\u00eancia, o que \u00e9 visto, conven\u00e7a, pela for\u00e7a da sinceridade tomada emprestada por uma t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 para qualquer um. Pois existem divas, estrelas, damas, promessas, revela\u00e7\u00f5es. Mas poucas pessoas como Claudia Abreu, que interpreta confiando na intelig\u00eancia do espectador, que aposta no sucesso do seu recado. E que cruza o tempo mau como se ela fosse a boa not\u00edcia de uma cat\u00e1strofe chegando ao fim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atuar nem sempre significa encarnar personas, transmutar-se em personagens marcantes. 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