{"id":1142,"date":"2009-12-17T17:12:31","date_gmt":"2009-12-17T19:12:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1142"},"modified":"2009-12-20T21:05:23","modified_gmt":"2009-12-20T23:05:23","slug":"a-arte-por-um-fio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-arte-por-um-fio","title":{"rendered":"A ARTE POR UM FIO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Tenho escutado horrores sobre o departamento de arte. Depois que o acesso ao l\u00e1pis virou lugar comum, todo mundo se transformou em desenhista. A tecnologia colocou \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o os mais completos programas de diagrama\u00e7\u00e3o e pagina\u00e7\u00e3o, mas esqueceu de avisar que existe um of\u00edcio por tr\u00e1s da ferramenta. Use o cepilho para aplainar uma t\u00e1bua e ver\u00e1s a coisa torta que voc\u00ea vai conseguir. Mas como bastam alguns clics para enquadrar o texto em algo soberbo e colorido, ent\u00e3o o costume \u00e9 desprezar aqueles que abriram m\u00e3o das galerias para descobrir nas letras, impressos, ilustra\u00e7\u00f5es, o equil\u00edbrio necess\u00e1rio para que a dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos fuzilasse no dia seguinte ao fechamento.<\/p>\n<p>O editor de arte \u00e9 o exerc\u00edcio pleno do poder. O t\u00edtulo \u00e9 de tr\u00eas linhas, me dizia um deles, na Abril. Ele nem sequer prestava aten\u00e7\u00e3o no redator. A primeira linha \u00e9 de sete toques, a segunda \u00e9 de onze e a terceira \u00e9 de oito. E te dava as costas. Tinha mais o que fazer. Essa mat\u00e9ria est\u00e1 estourando e n\u00e3o temos tempo para colocar no tamanho. Vou cortar pelo p\u00e9, diziam os diagramadores da Folha de S. Paulo. Por que meu texto entrou pela metade? A foto estava boa, reclame com teu editor. Desconfiado por natureza, o cara que senta atr\u00e1s da prancheta e agora na frente da tela com todos os recursos n\u00e3o faz amizade no primeiro instante. Ele sabe que em qualquer pepino ele ser\u00e1 o primeiro suspeito. A entrevista terminou com uma pergunta. O original do revisor est\u00e1 com visto e est\u00e1 certo. A que horas chega o artista?<\/p>\n<p>Ele sabe tamb\u00e9m que dificilmente ser\u00e1 lembrado pelos colegas que prestam aten\u00e7\u00e3o apenas nas letrinhas. Esses fingidos cercam a arte para conseguirem o m\u00e1ximo de resultados para reportagens toscas. Querem que a arte salve a falta de informa\u00e7\u00e3o ou de talento. Por isso o editor de arte \u00e9 uma est\u00e1tua de Rodin num circo de cavalinhos. Todos rodam pelo mundo afora, menos ele que sabe ser o guardi\u00e3o de um estu\u00e1rio, para onde confluem todas as palavras. O mutismo tamb\u00e9m tem a ver com a s\u00edndrome do palpite que assola as reda\u00e7\u00f5es. Todos t\u00eam uma id\u00e9ia genial sobre o aproveitamento do tro\u00e7o que eles produzem, mas nada entendem de identidade visual, de peso das imagens, de seq\u00fc\u00eancia. E ainda ficam horas para inventar algumas legendas e t\u00edtulos, como se isso fosse o parto da montanha m\u00e1gica.<\/p>\n<p>Quando os textos eram coisas impressas em papel sedoso e duro, e que precisavam ser colados com grude comum numa grande folha, o diagrama (ou algo que valha), aconteciam epis\u00f3dios impens\u00e1veis hoje. Os donos do jornal que, deslumbrados, faziam o past-up da primeira edi\u00e7\u00e3o. Era v\u00ea-los gordinhos e engravatados brincando de fazer jornal. Deixa eles, me dizia o diretor de reda\u00e7\u00e3o, descobriram a p\u00f3lvora, daqui a pouco cansam. O diagramador que colocava par\u00e1grafos de ponta cabe\u00e7a e descobriram que ele era analfabeto. O poderoso que arrancava as notas da Ilustrada xingando o autor do text\u00edculo, furioso com a falta de coniv\u00eancia com a necess\u00e1ria auto-censura. O recado que foi posto sem querer na ma\u00e7aroca que o pobre diagramador formatava como coluna social e que provocou um esc\u00e2ndalo sem limites. O respons\u00e1vel pela arte n\u00e3o lia as notas, claro. O que estava no bolo, publicava.<\/p>\n<p>Pelo sil\u00eancio, todo editor de arte \u00e9 um pensador. Mas alguns s\u00e3o fundadores de uma escola filos\u00f3fica, como foi o caso de Reginaldo Fortuna, com quem fiz uma news-letter por dois anos. Fortuna era conferencista, pois j\u00e1 estava na idade memorial\u00edstica quando me aproximei dele. Mas escutava como ningu\u00e9m. Quando falei o que esperava do pequeno jornal ele me cravava aqueles olhos pequenos de quem enxerga o mil\u00edmetro torto de um fio e dava uma piscada. Era o sinal de que tinha captado e que faria o certo, ou seja, como bem entendesse, e isso iria me agradar, como realmente n\u00e3o s\u00f3 agradou, como deslumbrou. Fortuna inventou a diagrama\u00e7\u00e3o enxuta que mais tarde os softwares providenciaram. Fazia isso no olho e na m\u00e3o, conceituando o tempo todo.<\/p>\n<p>Eu fazia uma diagrama\u00e7\u00e3o su\u00ed\u00e7a, na linha reta, no Pasquim, me contava ele em intermin\u00e1veis papos depois de nossas reuni\u00f5es de trabalho. A\u00ed vinha o Jaguar e dava uma esculhambada em cima, colocava o Sig, essas coisas. Dava certo. O importante \u00e9 que a arte obede\u00e7a aos fundamentos. A partir disso voc\u00ea cria o que quiser. Sen\u00e3o vira carnaval, n\u00e3o funciona. Ficava esperando minha rea\u00e7\u00e3o. Eu s\u00f3 ouvia, im\u00f3vel. Ele continuava: Por que um livro tem margens ao lado dos textos? me perguntava. Para colocar o ded\u00e3o, o polegar, para que a pessoa possa segurar o livro sem atrapalhar a leitura, dizia Fortuna, leitor ass\u00edduo de Gutemberg, o pai de todos. Fortuna era admirador dos argentinos que vieram para o Rio mudar as artes gr\u00e1ficas no Brasil. Admirava seus mestres e os citava sempre.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca em que trabalhamos juntos fortalecemos uma amizade que tinha apenas sido ensaiada na \u00e9poca da Ilustrada (quando ele era o editor de arte do Folhetim). Fortuna estava praticamente fora do mercado. Ningu\u00e9m importante (com a chave do cofre) telefonava para ele. Era o tempo das barbaridades inspiradas pelo USA Today. E nas revistas, era costuma entortar as fotos. Ningu\u00e9m vira a cabe\u00e7a de lado para ver ou ler, dizia ele, que implicava com essa mania confundida com criatividade. A arte n\u00e3o podia provocar torcicolo no leitor. E o olho humano \u00e9 trai\u00e7oeiro, dizia. Lemos da esquerda para a direita e n\u00e3o de cima para baixo, ent\u00e3o por que colocar t\u00edtulo na vertical? Era moda.<\/p>\n<p>A moda agora \u00e9 o flash, a por\u00e7\u00e3o cineasta da editoria de arte. Voc\u00ea visita o site e fica esperando o artista fazer suas demonstra\u00e7\u00f5es. Prefiro o fundo creme, a imagem fixa e limpa, o texto preto no branco, a eleg\u00e2ncia do maranhense Fortuna, que se foi prematuramente, no auge dos seus projetos. Fui avisado com algumas horas de atraso, pois os acontecimentos se atropelaram. Peguei o metr\u00f4 (trabalhava na avenida Paulista) e desci no cemit\u00e9rio da Consola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Custei a descobrir o local. Todos j\u00e1 tinham ido embora. O sol forte batia nas flores, nos recados, nas saudades, nas ora\u00e7\u00f5es rec\u00e9m feitas. Eu estava l\u00e1, no meio de um mar de sepulturas, diante de um jazigo oculto, desconfort\u00e1vel com a presen\u00e7a do sol quase a pino. O choro veio descontrolado, porque eu sabia que sentiria falta daquela voz ao telefone, me dizendo tudo o que eu precisava saber sobre imprensa, arte, diagrama\u00e7\u00e3o, reda\u00e7\u00e3o, sacanagens do mercado e tudo o mais. Fortuna era o conferencista de uma amizade preciosa, a pessoa que sabia tudo e que representa n\u00e3o s\u00f3 seus pares (todos seus disc\u00edpulos de uma forma ou outra), mas principalmente os veteranos que fizeram Hist\u00f3ria e para os quais temos uma d\u00edvida impag\u00e1vel.<\/p>\n<p>Jamais saberemos retribuir o tesouro que ele nos colocou nas m\u00e3os e que se espalha por muitos of\u00edcios, entre os quais o de magn\u00edfico cartunista e desenhista, texto admir\u00e1vel de humor ultra-sofisticado. No Correio da Manh\u00e3 dos anos 50, criou duas p\u00e1ginas de humor para onde acorreram os grandes cartunistas que at\u00e9 hoje d\u00e3o as cartas (e debochava das se\u00e7\u00f5es que publicavam as piadas e colocavam em cima &#8220;Humor&#8221;; \u00e9 para avisar, dizia, ele, em riso convulso). Ao lado de Tarso de Castro, criou o Panfleto, o Pasquim, Folhetim, a nova Careta, entre muitos outros ve\u00edculos. Fez mis\u00e9rias com seu Diz, logotipo, quando colocava a publicidade no seu devido lugar, sem os salamaleques de hoje.<\/p>\n<p>Poucas pessoas compareceram ao lan\u00e7amento do seu livro Acho tudo muito estranho. Fortuna n\u00e3o era da moda. Tinha atingido a eternidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pelo sil\u00eancio, todo editor de arte \u00e9 um pensador. Mas alguns s\u00e3o fundadores de uma escola filos\u00f3fica, como foi o caso de Reginaldo Fortuna, com quem fiz uma news-letter por dois anos. Fortuna era conferencista, pois j\u00e1 estava na idade memorial\u00edstica quando me aproximei dele. Mas escutava como ningu\u00e9m. Quando falei o que esperava do pequeno jornal ele me cravava aqueles olhos pequenos de quem enxerga o mil\u00edmetro torto de um fio e dava uma piscada. Era o sinal de que tinha captado e que faria o certo, ou seja, como bem entendesse, e isso iria me agradar, como realmente n\u00e3o s\u00f3 agradou, como deslumbrou.(Texto publicado no espa\u00e7o Liter\u00e1rio do Comunique-se em 27\/04\/2006).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1142"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1142"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1142\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1419,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1142\/revisions\/1419"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1142"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1142"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1142"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}