{"id":1144,"date":"2009-12-17T17:13:21","date_gmt":"2009-12-17T19:13:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1144"},"modified":"2009-12-21T00:57:51","modified_gmt":"2009-12-21T02:57:51","slug":"a-fazenda-azul","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-fazenda-azul","title":{"rendered":"A FAZENDA AZUL"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Visitei o Pampa num sonho. O horizonte como a linha estaqueada entre dois moir\u00f5es invis\u00edveis; o pasto coberto de flores azuis de um abril imaginado; alguns tufos de \u00e1rvores de escassa presen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 majestade da paisagem, mas generosas na sombra sobre dois viventes. Eles aparentavam aquela idade em que tudo foi posto de lado, menos a dignidade de continuar entre o que resiste. Conversavam dividindo um chimarr\u00e3o que, pelo gosto com que era sorvido, parecia feito de erva especial, das que n\u00e3o se fazem mais, fruto da colheita de \u00edndios migrantes, especialistas na escolha da ess\u00eancia do sabor e do aroma. Um deles me pareceu o anfitri\u00e3o: tinha o rosto coberto por grossos \u00f3culos de grau e sombra. Era acompanhado por chap\u00e9u de feltro, colocado no ch\u00e3o, ao lado do tronco do umbu onde se sentava. Era calvo e olhava seu interlocutor com a cabe\u00e7a levantada, como fazem os homens do pampa, em sinal de admira\u00e7\u00e3o e respeito quando ouvem algu\u00e9m importante, n\u00e3o pelo cargo que ocupa, mas pelo carisma que projeta entre os raios grossos que ca\u00edam da tarde luminosa.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o esta \u00e9 a famosa Fazenda Azul, doutor Chagas e Silva, disse o outro homem, de cabelo penteado para tr\u00e1s, duas entradas na fronte, e que usava uma camisa quadriculada de l\u00e3 e uma bombacha fina, com os bot\u00f5es abertos no tornozelo. Dizia isso enquanto descal\u00e7ava a sand\u00e1lia de marca Roda que fazia seu conforto naquela conversa prazerosa.<br \/>\n&#8211; Sempre \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, governador. A Fazenda Azul \u00e9 propriedade n\u00e3o minha ou de minha fam\u00edlia, mas como o sr. mesmo disse pelo r\u00e1dio naquele 1961 em p\u00e9 de guerra, ela \u00e9 patrim\u00f4nio da Legalidade.<br \/>\n&#8211; Foi o que falei agradecendo o seu gesto grandioso, Dr. Chagas e Silva. Mas parece que riram de mim e do senhor quando dei essa not\u00edcia no r\u00e1dio.<\/p>\n<p>Chagas e Silva era o mais not\u00f3rio milion\u00e1rio virtual da fronteira. Visto como um mendigo pela popula\u00e7\u00e3o inteira, visitava diariamente a ag\u00eancia do Banco do Rio Grande do Sul e reclamava de uma ordem de pagamento que esperava h\u00e1 tempos do Rio de Janeiro, fruto de venda de um lote de gado de primeira linha. Os banc\u00e1rios faziam parte da algazarra que se instalava no banco. Fingiam que procuravam, davam gritos de uma sala a outra, corriam falsamente pelos corredores, para ent\u00e3o dar a m\u00e1 not\u00edcia: n\u00e3o, doutor Chagas, ainda n\u00e3o tinha chegado. Ao que ent\u00e3o nosso her\u00f3i fazia uma de suas c\u00e9lebres invectivas, em que se vangloriava de suas posses, o que o colocava entre os grandes potentados da campanha. Dizia isso sofrendo o embate do riso alheio, abafado nuns, expl\u00edcito em outros.<\/p>\n<p>Discursar era com ele. Tinha voca\u00e7\u00e3o para a orat\u00f3ria, criado que foi naquele peda\u00e7o de ch\u00e3o e de Hist\u00f3ria, em que tudo era decidido no verbo, eventual emiss\u00e1rio de bala. Atra\u00eda a molecada que gostava de puxar sua bengala, tirar-lhe o chap\u00e9u da cabe\u00e7a e chutar pela cal\u00e7ada, o que o deixava furioso. Investia contra os b\u00e1rbaros que n\u00e3o reconheciam sua posi\u00e7\u00e3o e import\u00e2ncia. Por isso causou estrago quando convenceu o governador Leonel Brizola de que podia contar com a Fazenda Azul no esfor\u00e7o que estava fazendo para impedir o golpe da direita e garantir a posse de Jo\u00e3o Goulart.<br \/>\n&#8211; O doutor Chagas e Silva l\u00e1 de Uruguaiana, disse o comandante. Colocou \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o as suas terras e o gado da Fazenda Azul. Esse \u00e9 o gesto de um patriota, pois se a luta for longa, precisamos do apoio de todos, n\u00e3o s\u00f3 do povo, mas das classes produtivas, dos estancieiros, que tem no doutor Chagas uma de suas figuras mais proeminentes.<\/p>\n<p>&#8211; Pois te digo, dr. Chagas, continuou Brizola na conversa que eu presenciava sem ser visto, j\u00e1 que eu era dono do sonho, o narrador onipotente que tudo prov\u00ea e jamais \u00e9 notado. Acredito que sua oferta foi decisiva para a Legalidade.<br \/>\n&#8211; O senhor est\u00e1 sendo generoso, governador. A Fazenda Azul \u00e9 uma das maiores e melhores do mundo, mas jamais poderia decidir aquela parada.<br \/>\n&#8211; \u00c9 como estou lhe dizendo. Essa vida na eternidade nos faz pensar. Pois cheguei \u00e0 conclus\u00e3o (e nesse altura Brizola d\u00e1 aquele sorriso no olhar que encantava os compatriotas e contempor\u00e2neos) que sua ades\u00e3o foi fundamental. Raciocine comigo: como \u00e9 que os pelegos, os tubar\u00f5es, os gorilas iriam peitar uma revolu\u00e7\u00e3o que tinha como aliado um grande estancieiro? Eles contavam com as pessoas de posses para fazer a lamban\u00e7a. Quando ouviram eu anunciar que um homem como o senhor tinha aderido, simplesmente desistiram. Foi a\u00ed que come\u00e7amos a ganhar a guerra.<\/p>\n<p>Chagas e Silva nada respondeu, pois estava com os olhos cheios de \u00e1gua boa, daquelas que lavam o esp\u00edrito e o carregam para o os campos do bem querer. Ele chorava porque finalmente algu\u00e9m confirmava que tinha acreditado nele. Simplesmente o governador tinha lido suas palavras, emitidas por telegrama \u00e0 sede do movimento de resist\u00eancia, no Pal\u00e1cio Piratini. Confiara na palavra de um homem, coisa que as pessoas jamais faziam, apenas fingiam para melhor aproveitar a verve de um louco. Com o reconhecimento de Brizola, Chagas e Silva deixara de ser um mendigo e alcan\u00e7ara a cidadania.<\/p>\n<p>-Muito obrigado, governador. Sei que o senhor fala com o cora\u00e7\u00e3o, como \u00e9 do seu feitio. Mas suas palavras fazem descansar esta alma arriada, depois de tanto sofrimento.<br \/>\n&#8211; Viemos de longe, doutor Chagas, e nada nem ningu\u00e9m ir\u00e1 nos abater.<\/p>\n<p>Levantaram-se ent\u00e3o, e sa\u00edram os dois, a p\u00e9, pelo campo vasto. Eram seguidos pelos quero-queros, os cachorros, as ovelhas desgarradas e algum boi que berrava mais para fazer barulho do que por necessidade. Chagas e Silva era acompanhado por sua bengala, na qual se apoiava e de vez em quando ainda tinha o toque amigo da m\u00e3o do interlocutor no seu bra\u00e7o. Brizola contava causos de sua longa vida para aquele personagem t\u00e3o atirado no mundo e que eu tinha visto pela \u00faltima vez num entardecer perdido, num acidente de carro. Vi Chagas e Silva sendo socorrido, com todos ao redor, penalizados. Era n\u00e3o s\u00f3 uma pessoa conhecida e famosa na cidade. Era o propriet\u00e1rio da famosa Fazenda Azul, que agonizava depois de um choque no tr\u00e2nsito. Tentara atravessar a rua olhando para o alto, esperando que lhe dessem passagem. N\u00e3o deram.<\/p>\n<p>Mas agora, ao lado do seu amigo de luta, ele acompanhava o passo das nuvens, rasgando o pasto azulado de tanta flor, neste abril sem manchas, que nos abra\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 pela mem\u00f3ria, mas pela alegria de imaginar a vida que tivemos e que \u00e9 nossa \u00fanica posse, neste descampado que Deus criou para nos colocar \u00e0 prova.<\/p>\n<p>Passaremos no teste? N\u00e3o sei. Mas acredito que aqueles dois viventes continuam rasgando o pampa com seus passos, conversando a fala dos justos, guerreiros que foram do bom combate, semeadores da paz, que s\u00f3 se consegue com a luta honrada da verdadeira coragem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Visitei o Pampa num sonho. 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