{"id":1148,"date":"2009-12-17T17:14:59","date_gmt":"2009-12-17T19:14:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1148"},"modified":"2009-12-21T11:08:06","modified_gmt":"2009-12-21T13:08:06","slug":"os-blocos-de-mestre-bazinho","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/os-blocos-de-mestre-bazinho","title":{"rendered":"OS BLOCOS DE MESTRE BAZINHO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>A cidade \u00e9 ch\u00e3o de terra que levanta poeira com as sand\u00e1lias do povo em desfile. Eles chegam das casas na linha do trem para tomar a avenida Presidente Vargas, sob o comando dos mestres da bateria, dos batutas que ensinam o som e a dan\u00e7a. A escola \u00e9 feita de lantejoulas e saias, de cal\u00e7as sedosas e cartolas de papel\u00e3o amarelo, de evolu\u00e7\u00f5es em curva, de carros puxados \u00e0 for\u00e7a pelos mais mo\u00e7os, que levam em seus ombros suados rainhas e princesas, enquanto as alas rodopiam diante da multid\u00e3o sentada em cadeiras de vime, mais tarde de alum\u00ednio e hoje arquibancadas de madeira crua, reomontadas a cada ano sob o imp\u00e9rio das doa\u00e7\u00f5es e incentivos. A escola era o ch\u00e3o dos maestros, mas n\u00e3o davam camisa. Era preciso migrar para os blocos, esses sim fontes de uma renda m\u00ednima, que garantisse a comida fora dos limites do carnaval. Isso era o territ\u00f3rio de Mestre Bazinho, convocado para equilibrar a concorr\u00eancia entre os foli\u00f5es, que imitavam as escolas s\u00f3 na apar\u00eancia, pois eram mais soltos, menos formais, mas n\u00e3o podiam descuidar da qualidade do refr\u00e3o.<\/p>\n<p>RIO &#8211; Os bra\u00e7os levantados das mo\u00e7as dos clubes, caprichadas em seus paet\u00eas e mi\u00e7angas, farfalhavam pernas e torsos sob o c\u00e9u pouco estrelado devido \u00e0s fortes luzes que jorravam dos postes. Era um passeio provis\u00f3rio, o das ruas. O momento decisivo era a entrada no sal\u00e3o, quando a plat\u00e9ia se levantava de uma vez s\u00f3 quando mestre Bazinho organizava o triunfo da can\u00e7\u00e3o-tema e dos acompanhamentos profissionais de pessoas sob sua guarda, gente de casas derrubadas sobre o rio. Havia sempre o sopro de instrumentos que davam o tom da cantoria, enquanto um surdo, um tarol, um tamborim, uma cu\u00edca e um ganz\u00e1 salpicavam o ch\u00e3o da elite com os passos do ritmo e da melodia. Entre os m\u00fasicos, muitos eram dos quart\u00e9is, soldados da Brigada, do Ex\u00e9rcito, dos fuzileiros navais. Concentrados no seu of\u00edcio, s\u00f3 tinham olhos e ouvidos para o maestro, que dominava a cena com sua sabedoria instant\u00e2nea que vinha de longe.<\/p>\n<p>ENTRUDO &#8211; N\u00e3o havia chance de arriscar diante do advers\u00e1rio. Por isso mestre Bazinho era convocado para todos os blocos importantes da cidade. Ele conseguiu essa fa\u00e7anha organizando a agenda como um mapa de guerra. Precisava do soldo que vinha daquelas vozes e corpos, e lhe dava prazer disputar o t\u00edtulo com ele mesmo. N\u00e3o que evitasse o confronto com seus pares, que existiam, mas com outras obriga\u00e7\u00f5es e objetivos. Eles n\u00e3o queriam se desvirtuar da religi\u00e3o das escolas, que demandava esfor\u00e7o o ano todo, incluindo a\u00ed a forma\u00e7\u00e3o de novos m\u00fasicos, escolhidos a dedo pelos olheiros dos mestres, que freq\u00fcentavam todas a s rodas em busca do trinado perfeito, do bater impec\u00e1vel sobre o couro de origens diversas. N\u00e3o se podia deixar de lado esse tipo de provid\u00eancia, pois o carnaval era um sugador de gente, que vinha inapelavelmente e chegava com o estrondo do entrudo, quando a popula\u00e7\u00e3o enlouquecia, armada de baldes de \u00e1gua de tocaia nas esquinas. Sobre os muros, atr\u00e1s das \u00e1rvores, quem viesse ofender a folia com seus ternos de linho branco, seus penteados para a missa, seus v\u00e9us de castidade, eram punidos com o jorro desmoralizador da bagaceira, que assim se vingava da situa\u00e7\u00e3o a que fora condenada naquela fronteira entre o pasto e a honra.<\/p>\n<p>NOTAS &#8211; Era chegar a bandalheira para que os m\u00fasicos lembrassem aos cidad\u00e3os travestidos de mulher, \u00e0s senhorinhas mergulhadas no lan\u00e7a perfume, de que existia uma civiliza\u00e7\u00e3o antes e depois do vendaval. Os m\u00fasicos participavam de bandas s\u00e9rias, envergavam fardas, tocavam nas comemora\u00e7\u00f5es da p\u00e1tria, insuflavam vento \u00e0 bandeira nacional que protegia o solo e acenava para o c\u00e9u. Os m\u00fasicos n\u00e3o poderiam faltar com suas notas, talento, for\u00e7a muscular e presen\u00e7a de pr\u00edncipes num reino deca\u00eddo. Eles herdavam a seriedade que antes pertenciam apenas \u00e0s autoridades, aos professores, \u00e0s mestras, \u00e0s visitas ilustres, como o presidente da Rep\u00fablica que um dia deu um tiro no cora\u00e7\u00e3o e que envergava roupa branca para refletir o sonho do povo em prociss\u00e3o pela Hist\u00f3ria. Os aprendizes de mestre Bazinho traziam com sua arte a soberania do pa\u00eds em festa e rompiam o limite que havia entre pobres e ricos, entre analfabetos e eruditos, entre sonhadores e pragm\u00e1ticos. Eles levavam tudo de rold\u00e3o, sob o olhar de mestre Bazinho, o dono do evento, que nos bastidores era tratado como rei e que para o p\u00fablico era a garantia de que todos caprichariam para vencer, porque tirar o primeiro lugar era a medalha mais cobi\u00e7ada. Ser destaque de evento s\u00e9rio \u00e9 uma coisa, ganhar no meio do buchincho era outra, motivo maior de celebra\u00e7\u00e3o pelo tempo afora.<\/p>\n<p>BA\u00da &#8211; Agora as fantasias est\u00e3o perdidas, talvez alguma sobreviva em algum ba\u00fa, se \u00e9 que existem ba\u00fas. Uma visita ao s\u00f3t\u00e3o, quando h\u00e1 s\u00f3t\u00e3o, e l\u00e1 est\u00e1 a caixa onde se guarda o passado. A tampa est\u00e1 sem chave e basta vontade para tirar l\u00e1 de dentro algo que faz barulho ao tocar. \u00c9 um vestido, uma gravata borboleta, uma m\u00e1scara, um frasco vazio de lan\u00e7a perfume. Quem quer saber de carnaval se j\u00e1 estamos no outono? Quem lembra o calor da festa no sal\u00e3o lotado, ao sabor das marchinhas eternas? Voltou o tempo de se aprumar, ir \u00e0 solenidade, ouvir atentamente os discursos, participar de mesas com flores artificiais e coques altos, que coroam pesco\u00e7os rodeados de p\u00e9rolas. O ministro, o presidente, o governador, o prefeito est\u00e3o presentes. De repente, no meio da banda oficial e vestida a car\u00e1ter, cai no ch\u00e3o um clarim. \u00c9 Argeu, da escola os Rouxin\u00f3is. Ele fica devastado pelo barulho que faz seu instrumento, e que atrai todos os olhares. Mestre Bazinho, sempre ele, olha o aprendiz com benevol\u00eancia. Argeu se abaixa, pega o clarim, passo um len\u00e7o rosa sobre ele e, constrangido pela situa\u00e7\u00e3o, faz de conta que vai dar um sopro. Ser\u00e1 que sair\u00e1 uma nota aguda, despropositada em meio ao sil\u00eancio majestoso de todos os presentes?<\/p>\n<p>PALMAS &#8211; Argeu n\u00e3o sabe o que est\u00e1 fazendo. Quer se desculpar pela gafe, quer ser inclu\u00eddo como m\u00fasico eficiente e s\u00e9rio. N\u00e3o \u00e9 um qualquer, desse que deixam cair as coisas, que n\u00e3o d\u00e3o bola para as liturgias. Ent\u00e3o ele d\u00e1 um soprinho para ver se o bicho ainda funciona. Como tem for\u00e7a de dez le\u00f5es no peito vasto, a nota sai l\u00edmpida e alta, e toma conta do ambiente batendo no teto. A plat\u00e9ia ent\u00e3o, automaticamente, esquecida da seriedade do outono, acompanha a nota como se estivesse ainda no in\u00edcio do desfile. Palmas ritmadas, acompanhadas pela voz un\u00edssona do refr\u00e3o daquela abertura dos bailes. Tar\u00e1, tar\u00e1, tar\u00e1, tar\u00e1, ta rarara r\u00e1\u00e1\u00e1\u00e1. A\u00ed ecoam as palmas de verdade. O carnaval tempor\u00e3o, como um raio tardio na tarde fria, cai nos rostos iluminados por aquela revela\u00e7\u00e3o: \u00e9ramos o carnaval de mestre Bazinho, na fronteira do Brasil Soberano, quando havia na\u00e7\u00e3o e t\u00ednhamos a miss\u00e3o de manter aceso o fogo da nossa identidade, inventada pelos m\u00fasicos e comandada pelo maestro que agora ria seu riso cheio de gra\u00e7a, que sempre fez a gl\u00f3ria do foli\u00e3o n\u00famero um daquela cidade, que era nossa pelo menos uma vez por ano &#8211; e quando Deus permitia, em qualquer esta\u00e7\u00e3o da nossa infinita esperan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era chegar a bandalheira para que os m\u00fasicos lembrassem aos cidad\u00e3os travestidos de mulher, \u00e0s senhorinhas mergulhadas no lan\u00e7a perfume, de que existia uma civiliza\u00e7\u00e3o antes e depois do vendaval. Os m\u00fasicos participavam de bandas s\u00e9rias, envergavam fardas, tocavam nas comemora\u00e7\u00f5es da p\u00e1tria, insuflavam vento \u00e0 bandeira nacional que protegia o solo e acenava para o c\u00e9u. Os m\u00fasicos n\u00e3o poderiam faltar com suas notas, talento, for\u00e7a muscular e presen\u00e7a de pr\u00edncipes num reino deca\u00eddo. Eles herdavam a seriedade que antes pertenciam apenas \u00e0s autoridades, aos professores, \u00e0s mestras, \u00e0s visitas ilustres, como o presidente da Rep\u00fablica que um dia deu um tiro no cora\u00e7\u00e3o e que envergava roupa branca para refletir o sonho do povo em prociss\u00e3o pela Hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1148"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1148"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1148\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1564,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1148\/revisions\/1564"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1148"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1148"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1148"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}