{"id":1150,"date":"2009-12-17T17:16:24","date_gmt":"2009-12-17T19:16:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1150"},"modified":"2009-12-21T11:06:47","modified_gmt":"2009-12-21T13:06:47","slug":"deve-ser-os-nervos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/deve-ser-os-nervos","title":{"rendered":"DEVE SER OS NERVOS"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Fui procurar emprego em S\u00e3o Paulo. Por meio de um amigo comum, me dirigi \u00e0 periferia da megal\u00f3pole, num conjunto de pr\u00e9dios sem janelas aparentes e com tetos corcundas de cor vermelho viva. Na min\u00fascula portaria, uma das poucas entradas que vislumbrei no edif\u00edcio principal, me identifiquei e pedi para chegar ao departamento de comunica\u00e7\u00e3o. A pessoa que ia me contratar, ou me testar, pediu para n\u00e3o dizer o nome dela, s\u00f3 o local onde eu deveria me dirigir. O guarda me encaminhou para a recepcionista, que aos bocejos preencheu uma ficha e me ordenou pegar o elevador secund\u00e1rio, o que ficava na dobra do cotovelo do corredor. O ambiente era escuro e tive de tatear at\u00e9 o bot\u00e3o luminoso, que acionou o mecanismo para abrir a porta. Subi at\u00e9 o lugar onde deveria come\u00e7ar imediatamente a trabalhar, segundo me disse o sujeito pelo telefone.<\/p>\n<p>O elevador abriu para um seriado de portas com pequenas placas onde se lia indecifr\u00e1veis enigmas. Eram letras e n\u00fameros separados por h\u00edfens que talvez indicassem a especialidade do que se fazia atr\u00e1s de cada uma das placas. Onde se lia XPTO-3, entrei. Era a comunica\u00e7\u00e3o, segundo tinham me informado. L\u00e1 dentro, na penumbra, estava o cara sentado atr\u00e1s de uma mesa, meio que debru\u00e7ado sobre ela, com as m\u00e3os enla\u00e7adas nos dedos, com os ombros para frente, um mais para frente do que o outro. Me olhava com seus olhos castanhos vivos e me falou para sentar. Combinamos rapidamente o trabalho e ele me pediu os documentos para registro. Estava satisfeito s\u00f3 com a indica\u00e7\u00e3o e o curr\u00edculo.<\/p>\n<p>Achei f\u00e1cil demais, mas me postei na saleta ao lado, que era tomado por enorme e tela de computador. Ali tomei conhecimento do projeto definido pelo chefe e passei a fazer o que me pedia. Era quest\u00e3o de arrumar os textos desconexos, meio t\u00e9cnicos, meio esdr\u00faxulos, que ele me passara. As palavras se referiam a uma mudan\u00e7a em toda a organiza\u00e7\u00e3o e l\u00e1 estava a palavra dos especialistas, da diretoria e, claro, do diretor de marketing, que deveria ser a fonte de tudo aquilo. Meu superior n\u00e3o era esse diretor, antes ocupava um cargo de respons\u00e1vel pelas informa\u00e7\u00f5es corporativas, ou algo assim. Passei o dia na faina, sem parada para o almo\u00e7o, pois o trabalho era urgente e precisava ser apresentado no dia seguinte. O que estranhei era a quantidade de informa\u00e7\u00f5es que deveriam ser sigilosas, como demiss\u00e3o de pessoas importantes, reestrutura\u00e7\u00e3o de departamentos inteiros, e at\u00e9 mesmo mudan\u00e7a do foco da empresa. Al\u00e9m de dados sobre faturamento, verbas que foram desviadas etc.<\/p>\n<p>Imaginei que aquilo jamais seria levado a p\u00fablico, mas fiquei impressionado com a tranq\u00fcilidade com que todas essas informa\u00e7\u00f5es foram colocadas para mim, um completo desconhecido. Falei para o sujeito das minhas preocupa\u00e7\u00f5es, num momento raro em que ele tinha parado de telefonar e estava olhando para o vazio. N\u00e3o se assuste, disse ele, confio em voc\u00ea e vamos publicar, sim. Isso tudo vai para a imprensa e amanh\u00e3 mesmo. Voltei para minha mesa ainda mais invocado. Onde estaria me metendo?<\/p>\n<p>Sa\u00ed j\u00e1 tarde da noite e peguei um \u00f4nibus na estrada vazia que ficava ao lado da empresa. Custou a aparecer a condu\u00e7\u00e3o e fui remoendo aquele dia absurdo pelo caminho. Teria que voltar cedo no dia seguinte. A remunera\u00e7\u00e3o estava acertada e s\u00f3 isso me deixava um pouco confort\u00e1vel com a situa\u00e7\u00e3o. Mas essa sensa\u00e7\u00e3o n\u00e3o durou no dia seguinte. Voltei preocupado, pois perdera tempo no tr\u00e2nsito e cheguei atrasado, lamentando minha falta de previs\u00e3o, pois poderia ter sa\u00eddo mais cedo. Mas o cansa\u00e7o me tomou conta e acordei num salto, com o sol j\u00e1 pleno de si na janela do quarto do hotel onde ficara hospedado. O que mais me angustiava era que precisa tirar uma adiantamento para poder continuar no hotel, j\u00e1 que n\u00e3o dispunha de um local para ficar.<\/p>\n<p>Mas foi chegar na porta e vi que nada estava como antes. O guarda era diferente, a recepcionista era outra e comandava uma equipe que n\u00e3o vira no dia anterior. Repeti meu nome e ela me pediu os documentos. Mas eu j\u00e1 n\u00e3o estava no banco de dados? Ela estranhou minha observa\u00e7\u00e3o e perguntou com quem iria falar. Disse o nome do departamento e ela n\u00e3o se satisfez.<br \/>\n&#8211; Esse conjunto de salas est\u00e1 fechado, disse ela.<br \/>\n&#8211; Como assim, ontem mesmo eu fui at\u00e9 l\u00e1.<br \/>\n&#8211; Ontem? Mas ontem foi folga coletiva, n\u00e3o tinha ningu\u00e9m. O que o senhor veio fazer aqui?<br \/>\n&#8211; Vim para ser contratado para um trabalho no departamento de comunica\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Esse departamento foi extinto. Aguarde um instante.<\/p>\n<p>Ela chamou o chefe da seguran\u00e7a, um sujeito quadrado, retaco, moreno, de olhos duros. &#8211; Com quem o senhor falou ontem? perguntou \u00e0 queima roupa.<br \/>\nDisse ent\u00e3o o nome do chefe. Foi um assombro. O seguran\u00e7a e a recepcionista se entreolharam e o cara me pegou pelo bra\u00e7o e me levou para uma sala na mesma dobra daquele corredor. No lugar onde havia o elevador, tinha uma porta comum, que se abriu. L\u00e1, um piso branco de m\u00e1rmore abrigava uma \u00fanica cadeira vazia, com holofote em cima.<br \/>\n&#8211; Agora repita o nome do cara e bem devagar, disse o guarda, j\u00e1 acompanhado por um grupo de asseclas.<br \/>\nRepeti e foi pior. Levei um estrondo na cara, uma cotovelada poderosa, que fez meu nariz sangrar.<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o pode ter falado com ele, seu merda.<br \/>\n&#8211; Como n\u00e3o? cheguei a gritar, o que provocou uma saraivada de socos.<br \/>\n&#8211; V\u00ea se fica quieto, jornalista. O que voc\u00ea veio fazer aqui? Bisbilhotar?<br \/>\n&#8211; Eu vim em busca de trabalho&#8230;<br \/>\n&#8211; Quem te indicou?<br \/>\nN\u00e3o quis colocar em arapuca o amigo que me arranjara aquela treta.<br \/>\n&#8211; Diz, seu bosta&#8230;<br \/>\nComo j\u00e1 n\u00e3o falava mais nada, o cara suspirou fundo e acendeu um cigarro. Me fez sentar no ch\u00e3o enquanto ele usava a \u00fanica cadeira. Me observava como se eu fosse um gafanhoto na hora da morte.<br \/>\n&#8211; P\u00e1ra de mentir, jornalista. O cara que voc\u00ea diz que falou ontem morreu a semana passada. Ali\u00e1s, ontem foi folga na empresa porque todos foram convidados a assistir a missa de s\u00e9timo dia.<br \/>\nUm gelo me desceu pela espinha. Estava branco, como aquela sala.<br \/>\n&#8211; Vamos at\u00e9 o departamento onde voc\u00ea diz que ficou.<br \/>\nE me levou aos trancos, pela escada acima, fazendo barulho. Depois de todos aqueles andares, eu sendo carregado pelos mastodontes, chegamos ao tal XPTO e l\u00e1 entramos todos. A sala estava cheia de flores e a minha saleta, fechada.<br \/>\n&#8211; O que voc\u00ea viu aqui, o que voc\u00ea fez aqui?<br \/>\nEntreguei tudo, ent\u00e3o. O jeito do cara, o trabalho que fiz, o que nele continha. Talvez a verdade me salvasse.<br \/>\nO guarda abriu a porta da minha saleta num pontap\u00e9 e me fez ligar o computador.<br \/>\n&#8211; Mostre os arquivos.<br \/>\nRezei para que n\u00e3o estivesse l\u00e1, mas estavam todos. Fui abrindo um a um e imprimindo, a mando do carrasco.<br \/>\nFoi passar os olhos pelo calhama\u00e7o para ele puxar o celular.<br \/>\n&#8211; Temos algo aqui, venha depressa.<br \/>\nChegou um sujeito mais mal encarado do que ele. Era o Supremo Diretor. Tinha um cabelo curto, ruivo, uns olhos azuis, uns vincos no rosto de ex-combatente. Musculoso, gigantesco. Pegou os pap\u00e9is e foi lendo. De vez em quando me olhava, furibundo.<br \/>\nEstou enrascado, pensei.<br \/>\n-Voc\u00ea passou esses pap\u00e9is para algu\u00e9m, seu desgra\u00e7ado. me perguntou o supremo.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o senhor.<br \/>\n&#8211; At\u00e9 que horas voc\u00ea ficou na empresa?<br \/>\n&#8211; At\u00e9 as onze da noite.<br \/>\n&#8211; \u00c9 proibido ficar at\u00e9 essa hora. E depois foi aonde?<br \/>\n&#8211; Para meu hotel.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o tem casa, puto?<br \/>\n&#8211; Estou chegando na cidade, precisava de um emprego.<\/p>\n<p>Eles se afastaram. Confabularam um pouco e depois me disseram:<br \/>\n&#8211; Pode ir embora. Vai.<br \/>\nDei um salto e me mandei. Voltei pelas escadas, limpando sangue. Sa\u00ed pela porta onde tinha entrada e voei para a estrada. Quando o \u00f4nibus se afastava olhei para tr\u00e1s. N\u00e3o havia condom\u00ednio de edif\u00edcio nenhum. Apenas um imenso terreno baldio, onde algumas vacas pastavam. Comecei a falar sozinho. De repente, duas mulheres do povo, sentadas no banco da frente, depois de me olharem longamente, viraram uma para outra.<br \/>\n&#8211; Coitado, disse uma, de len\u00e7o na cabe\u00e7a. Deve ser os nervos.<\/p>\n<p>Quando cheguei no hotel, minha mala estava na portaria. O encarregado me repassou um envelope.<br \/>\n&#8211; Sua conta j\u00e1 est\u00e1 paga. Pode ir.<br \/>\nAbri ali mesmo, diante da ansiedade do porteiro, que parecia assustado. Era um ma\u00e7o de d\u00f3lares e uma passagem de volta ao lugar de onde vim. Junto, os meus documentos pessoais que entregara para o falecido. J\u00e1 ia saindo quando o porteiro fez um psst. Atendi, voltando a cabe\u00e7a.<br \/>\n&#8211; Eles disseram que sabem onde voc\u00ea mora e com quem. Boa viagem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O elevador abriu para um seriado de portas com pequenas placas onde se lia indecifr\u00e1veis enigmas. Eram letras e n\u00fameros separados por h\u00edfens que talvez indicassem a especialidade do que se fazia atr\u00e1s de cada uma das placas. Onde se lia XPTO-3, entrei. Era a comunica\u00e7\u00e3o, segundo tinham me informado. L\u00e1 dentro, na penumbra, estava o cara sentado atr\u00e1s de uma mesa, meio que debru\u00e7ado sobre ela, com as m\u00e3os enla\u00e7adas nos dedos, com os ombros para frente, um mais para frente do que o outro. Me olhava com seus olhos castanhos vivos e me falou para sentar. Combinamos rapidamente o trabalho e ele me pediu os documentos para registro. 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