{"id":1152,"date":"2009-12-17T17:17:18","date_gmt":"2009-12-17T19:17:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1152"},"modified":"2009-12-20T21:01:54","modified_gmt":"2009-12-20T23:01:54","slug":"redacoes-que-cruzam-o-tempo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/redacoes-que-cruzam-o-tempo","title":{"rendered":"REDA\u00c7\u00d5ES QUE CRUZAM O TEMPO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>H\u00e9lio Campos Mello chega de uma viagem do Exterior para assumir seu posto na revista Senhor, coloca a cara para dentro da sala onde tensos jornalistas est\u00e3o em atividade e faz seu coment\u00e1rio inesquec\u00edvel:<br \/>\n&#8211; Conhe\u00e7o esta reda\u00e7\u00e3o de algum lugar.<\/p>\n<p>A imagem mais poderosa de pessoas reunidas em massa diante de m\u00e1quinas de escrever talvez seja a do filme O Processo, de Orson Welles, em que Anthony Perkins entra no seu ambiente de trabalho e atravessa um mar de pessoas sentadas atr\u00e1s de suas mesas, acompanhado pelo barulho da datilografia. \u00c9 a representa\u00e7\u00e3o de um pesadelo, o of\u00edcio burocr\u00e1tico de batucar nas teclas, pautado pela indiferen\u00e7a. N\u00e3o era assim nas reda\u00e7\u00f5es que o tempo engoliu.<\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista, o impacto era de extrema desordem. Mas se via em cada rosto a concentra\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para produzir sob o tac\u00e3o do deadline, reportando a principal armadilha humana: o conflito. Bastavam alguns dias para o iniciante se acostumar ao ritmo e \u00e0s press\u00f5es e fazer parte de uma comunidade que se estendia aos bares.<\/p>\n<p>Hoje vejo consultores definindo a pauta de ve\u00edculos em coma, dizendo que n\u00e3o se pode voltar atr\u00e1s, quando &#8220;loucos apaixonados&#8221; (esse \u00e9 o batismo do talento hoje) se reuniam em espa\u00e7os normalmente apertados e com pouco oxig\u00eanio, para fazer o que os leitores adoravam. \u00c9 preciso limpar essa mancha do jornalismo, dizem os RTs (Ruins de Texto), que no fim assumiram o poder. Um auto-ajuda desses jamais passaria pelo crivo de um chefe de reportagem, um secret\u00e1rio, um diretor, um editor.<\/p>\n<p>Lembro meu primeiro teste, em que fui reprovado. Ansioso com a perspectiva de me tornar profissional, rabisquei o lead \u00e0 m\u00e3o, achando que ningu\u00e9m estava vendo. Ainda n\u00e3o estava acostumado a pensar ao sabor das teclas e imaginava ser esse o expediente mais seguro para se chegar a uma boa abertura.<br \/>\n&#8211; Aquele l\u00e1, n\u00e3o, disse o chefe. Vai me atrapalhar o fechamento. Demora para desovar o texto.<\/p>\n<p>\u00c9 que eu tinha vindo de uma experi\u00eancia h\u00edbrida. Minha primeira m\u00e1quina, uma Smith Corona inglesa (presente do meu pai), era de tipos manuscritos. Eu passava para o papel datilografado o que tinha produzido a caneta. O resultado era parecido, como se um bamba em caligrafia caprichasse no resultado final. Aprendera por minha conta a usar os dedos, de forma errada, claro, na minha reda\u00e7\u00e3o pessoal. Herdara uma escrivaninha dos irm\u00e3os mais velhos, que precisava de livros empilhados no suporte, \u00e0 medida que eu espichava naquela dif\u00edcil adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Eu era o respons\u00e1vel pela ata das reuni\u00f5es do nosso Gr\u00eamio Liter\u00e1rio, na quarta s\u00e9rie ginasial. Fazia uma esp\u00e9cie de reportagem, puxando pela mem\u00f3ria, e provocava desconfian\u00e7a dos colegas, que n\u00e3o acreditavam no meu poder de narrar uma reuni\u00e3o mais ou menos bocejante, com uma descri\u00e7\u00e3o de detalhes que tinham escapado a todos na hora em que foram produzidos. Isso n\u00e3o foi tu quem fez, me diziam (na fronteira tu \u00e9 tu mesmo). Foi com esse v\u00edcio, o texto datilografado com jeit\u00e3o de manuscrito, que estreei no of\u00edcio, e paguei caro por isso. Tive que aprender na marra a bater direto o original sem passar pelo crivo do l\u00e1pis.<\/p>\n<p>No curso de jornalismo da Ufrgs, o veterano Ernesto Correia, nosso professor, nos apresentou ao que ele chamava de maquininha m\u00e1gica, o telex, que tinha a manha de, aparentemente, funcionar sem interfer\u00eancia humana. Pelo menos nenhum redator estava \u00e0 vista e isso criava o deslumbramento, motivo de ironia dos alunos, que j\u00e1 possu\u00edam aquela arrog\u00e2ncia up-to-date, como se a tecnologia tivesse chegado ao auge e estiv\u00e9ssemos acostumados com isso.<\/p>\n<p>Na universidade ainda passamos pelas visitas das oficinas movidas a chumbo, mas quando chegamos \u00e0 profiss\u00e3o o off-set j\u00e1 fazia estrago nos velhos m\u00e9todos. Foi quando as reda\u00e7\u00f5es, acompanhando o ritmo das gr\u00e1ficas, come\u00e7aram a assumir esse aspecto clean que \u00e9 hegem\u00f4nico hoje. Mas, veterano que teima em n\u00e3o se aposentar por enquanto, notei que muita coisa sobrevive, mesmo no sil\u00eancio dos teclados e a luminosidade insistente das telas. Nos corredores, no cafezinho, no happy hour, ainda saem as melhores pautas. O Google que nos perdoe.<\/p>\n<p>O ideal \u00e9 fazer como um rep\u00f3rter da revista onde trabalho. Belo texto, disse, como voc\u00ea conseguiu? Escrevi essa mat\u00e9ria em casa, me respondeu Wendel Martins, um dos talentos da nova gera\u00e7\u00e3o. Escrevi de bermuda e de vez em quando abrindo a geladeira. Foi a maneira de driblar a atual fantasmagoria do jornalismo, as falas corporativas, que assombram as p\u00e1ginas impressas com monstros terr\u00edveis como os verbos alavancar e disponibilizar. \u00c0 vontade, o esp\u00edrito do bom jornalismo desce no novo rep\u00f3rter como um anjo.<\/p>\n<p>Levamos aquelas reda\u00e7\u00f5es junto conosco, como um bra\u00e7o. O perigo \u00e9 se transformar num contador de hist\u00f3rias antigas, assustando os estagi\u00e1rios. ?Nos anos 50?, disse uma vez Granadeiro Guimar\u00e3es para uma pobre iniciante, numa de suas lembran\u00e7as, quando interrompi. Anos 50 \u00e9 uma impossibilidade, disse, n\u00e3o d\u00e1 para pessoas que estr\u00e9iam na idade adulta imaginarem um tempo que faz parte da Hist\u00f3ria no ensino fundamental.<\/p>\n<p>Descobrimos, nesses causos que servem para matar um pouco o tempo que nos aluga a vida toda, que as pessoas com quem um dia compartilhamos mesas s\u00e3o hoje objeto de estudo. Era normal que Hamilton Almeida Filho e o Pena Branca aportassem para colocar na roda uma de suas inesquec\u00edveis reportagens. Ou que Tarso de Castro viesse contar como distraiu sua nova conquista lendo os versinhos do poeta jornalista. Ou que Samuel Wainer olhasse debaixo de grandes sobrancelhas brancas e perguntasse:<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea \u00e9 editor?<br \/>\n&#8211; Sou, menti.<br \/>\n&#8211; Sim, porque eu preciso aqui de um editor. Voc\u00ea \u00e9 editor?<br \/>\n&#8211; Claro, insisti.<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o veja esta mat\u00e9ria sobre o General Infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Wainer era de um tempo de guerra, da \u00e9poca do General Inverno, t\u00e3o achincalhado mais tarde pelo Pasquim. Contava como desceu com Get\u00falio Vargas no Nordeste, com as pessoas que pareciam ter sa\u00eddo de um quadro de Portinari. Coisas que mais tarde Augusto Nunes imortalizou na autobiografia do Profeta, ?Minha raz\u00e3o de viver?. Mas eu precisava sair cedo e ele reclamava:<br \/>\n&#8211; O que \u00e9 isso, meu filho? N\u00e3o quer escutar Hist\u00f3ria do Brasil ao vivo?<\/p>\n<p>Queria, mas ficava para outro dia. Tudo aquilo iria durar mil anos. Durou pouco e ficamos diante da meninada com a cabe\u00e7a cheia de hist\u00f3rias. Nenhuma completa, pois passei rapidamente pelas reda\u00e7\u00f5es que se esfumavam, perdiam a batalha, se transformavam. Elas cruzam o tempo andando meio de lado, ou de banda, como dizia Drummond, com o peso dos que se foram.<\/p>\n<p>Por isso, diante de tanto jornalista novo, com os quais aprendo muito e tento repassar alguma coisa que aprendi, costumo desistir da heran\u00e7a.<br \/>\n&#8211; O senhor \u00e9 jornalista? me perguntaram um dia.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, respondi.<\/p>\n<p>Fui sincero. N\u00e3o sou mais o que hoje se espera de um jornalista (abaixo dos 35 anos, forma\u00e7\u00e3o em MBA, tril\u00edng\u00fce). E pensando bem nunca estive totalmente impregnado dessa luta, como aconteceu com tantos profissionais do primeiro time. Tive a sorte de conviver com eles.<\/p>\n<p>E se insistem que eu fa\u00e7a alguma coisa, e sempre acabo fazendo, inicio minha arenga indignada com um insistente bord\u00e3o:<br \/>\n&#8211; Voc\u00eas querem que eu tecle?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje vejo consultores definindo a pauta de ve\u00edculos em coma, dizendo que n\u00e3o se pode voltar atr\u00e1s, quando &#8220;loucos apaixonados&#8221; (esse \u00e9 o batismo do talento hoje) se reuniam em espa\u00e7os normalmente apertados e com pouco oxig\u00eanio, para fazer o que os leitores adoravam. \u00c9 preciso limpar essa mancha do jornalismo, dizem os RTs (Ruins de Texto), que no fim assumiram o poder. Um auto-ajuda desses jamais passaria pelo crivo de um chefe de reportagem, um secret\u00e1rio, um diretor, um editor. (Texto publicado no espa\u00e7o Liter\u00e1rio do Comunique-se, em 13\/04\/2006)<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1152"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1152"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1152\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1411,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1152\/revisions\/1411"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1152"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1152"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1152"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}