{"id":1154,"date":"2009-12-17T17:18:12","date_gmt":"2009-12-17T19:18:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1154"},"modified":"2009-12-20T22:51:38","modified_gmt":"2009-12-21T00:51:38","slug":"quarto-de-despejo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/quarto-de-despejo","title":{"rendered":"QUARTO DE DESPEJO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>O t\u00edtulo acima, do di\u00e1rio de Carolina de Jesus , catadora de papel descoberta por Aud\u00e1lio Dantas, serve para definir a situa\u00e7\u00e3o reportada por Cidade de Deus, o impressionante e premiado filme de Fernando Meirelles. Com uma diferen\u00e7a: a pobreza se multiplicou junto com a barb\u00e1rie Os motivos para o quadro exposto veio logo a seguir, no notici\u00e1rio, que \u00e9 a perda de tempo de sempre: os pol\u00edticos envolvidos na disputa do butim. Eles n\u00e3o cuidam de suas obriga\u00e7\u00f5es pois est\u00e3o profundamente ocupados em arrancar todo o dinheiro p\u00fablico para colocar em cofres, s\u00f3t\u00e3os, cuecas, Su\u00ed\u00e7a e novas campanhas. Os bairros, batizados de populares, s\u00e3o as sobras sociais onde se acumula o horror.<\/p>\n<p>Ambientado nos anos 60 e 70, Cidade de Deus mostra um bairro que \u00e9 a t\u00edpica obra da ditadura, que construiu favel\u00f5es compostos de casas alinhadas como se fossem um pombal, e batizaram isso de pol\u00edtica p\u00fablica. L\u00e1 abandonaram os migrantes, os despossu\u00eddos, os desempregados, os mortos vivos. O resultado \u00e9 a f\u00e1bula de Meirelles, cineasta maior, que fez uma obra impec\u00e1vel, onde se destaca a linhagem implac\u00e1vel do crime, que migra cada vez mais para as crian\u00e7as, restos do massacre que empunham a morte cedo demais. O destaque \u00e9 a seq\u00fc\u00eancia dram\u00e1tica da festa de despedida de um traficante. O fim de uma longa amizade, destru\u00edda pela vontade de cair fora e pelo amor de uma mulher, \u00e9 a devasta\u00e7\u00e3o entrevista nas luzes de um del\u00edrio coletivo. O drama des\u00e1gua na ruptura: acaba o pacto, come\u00e7a a guerra total. \u00c9 o lugar onde hoje nos encontramos.<\/p>\n<p>Cidade de Deus \u00e9 filme de m\u00e3o cheia, perfeito. A tentativa de fuga \u00e9 sempre abortada pela impossibilidade de uma sa\u00edda. A popula\u00e7\u00e3o se perde no labirinto sangrento intensificando a viol\u00eancia, interagindo com o resto da sociedade de dois modos: pelo meio da troca de droga por dinheiro com os consumidores, e de dinheiro por arma com os policiais corruptos. A aus\u00eancia da pol\u00edcia \u00e9 a sua presen\u00e7a ostensiva errada: a persegui\u00e7\u00e3o que inutiliza a chance de mudar, a parceria que poupa inutilmente a vida do bandido para o faturamento continuar; o interrogat\u00f3rio brutal que expressa o \u00f3dio de classe. A chamada sociedade normal tamb\u00e9m aparece no banco assaltado ou no bordel onde acontece um massacre.<\/p>\n<p>Por ser sobre a guerra total, todos contra todos, Cidade de Deus \u00e9 sobre a irresponsabilidade do Estado. A degrada\u00e7\u00e3o humana \u00e9 o dique que se rompe no bairro condenado. A destrui\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia representa o fim daquilo que Marx e Engels notaram no Manifesto de 1948: como os la\u00e7os familiares s\u00e3o fruto das la\u00e7os econ\u00f4micos, se n\u00e3o h\u00e1 mais emprego nem inclus\u00e3o social n\u00e3o h\u00e1 mais fam\u00edlia. O pai n\u00e3o sustenta o filho, que se solta no crime. A m\u00e3e tenta fugir em v\u00e3o e toda a fam\u00edlia seguir\u00e1 pela mesma trilha. Ao mesmo tempo, a tenta\u00e7\u00e3o facinorosa dos bandidos em forma\u00e7\u00e3o reflete a falta de lei na sociedade normal.<\/p>\n<p>A imprensa \u00e9 apenas parte do mundo que exclui a favela. A exce\u00e7\u00e3o \u00e9 Buscap\u00e9, o inesquec\u00edvel personagem-fot\u00f3grafo, que protagoniza o impasse. Diante dos co-habitantes da favela, e de costas para a pol\u00edcia, Buscap\u00e9 conta apenas com a m\u00e1quina fotogr\u00e1fica. \u00c9 por ela que faz a op\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o pode compactuar com a viol\u00eancia dos dois lados. Ele foi atra\u00eddo para essa situa\u00e7\u00e3o quando tentou resgatar a galinha que tinha fugido do almo\u00e7o. No cinema, como formataram os americanos, a galinha representa o Terceiro Mundo. Diante de um ato corriqueiro, pegar o bicho para ser comido pela quadrilha, Buscap\u00e9 se v\u00ea entre dois fogos: a sociedade que exclui e mata, por tr\u00e1s, e seus parceiros de desgra\u00e7a, \u00e0 sua frente. Ele escolhe ser m\u00eddia e sobrevive para contar a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Filme de pa\u00eds s\u00e9rio, que decide se olhar de frente e falar tudo, com todas as letras e imagens.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ambientado nos anos 60 e 70, o filme Cidade de Deus mostra um bairro que \u00e9 a t\u00edpica obra da ditadura, que construiu favel\u00f5es compostos de casas alinhadas como se fossem um pombal, e batizaram isso de pol\u00edtica p\u00fablica. L\u00e1 abandonaram os migrantes, os despossu\u00eddos, os desempregados, os mortos vivos. O resultado \u00e9 a f\u00e1bula de Fernando Meirelles, cineasta maior, que fez uma obra impec\u00e1vel, onde se destaca a linhagem implac\u00e1vel do crime, que migra cada vez mais para as crian\u00e7as, restos do massacre que empunham a morte cedo demais.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1154"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1154"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1154\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1460,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1154\/revisions\/1460"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1154"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1154"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1154"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}