{"id":1156,"date":"2009-12-17T17:19:15","date_gmt":"2009-12-17T19:19:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1156"},"modified":"2009-12-21T00:55:33","modified_gmt":"2009-12-21T02:55:33","slug":"fora-da-estrada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/fora-da-estrada","title":{"rendered":"FORA DA ESTRADA"},"content":{"rendered":"<p>Down on the corner, out in the street, Willy and the poorboys are playin&#8217;; Bring a nickel; tap your feet. (J.C. Fogerty, do Credence Clearwater Revival)<\/p>\n<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>J\u00e1 conhecia aquele trecho de neblina bem no meio da estrada que liga Florian\u00f3polis a Curitiba. Era o que me preocupava enquanto for\u00e7ava o golzinho al\u00e9m dos meus limites de velocidade, que variavam, para desespero dos outros motoristas e eventuais passageiros que se arriscvavam comigo, ente os 70 e 90 quil\u00f4metros por hora. Mas desta vez, chamado \u00e0s pressas para resolver um assunto em Curitiba, eu era o pr\u00f3prio mestre de cerim\u00f4nias da velocidade, ringindo pneu novo em cada curva, como se a montanha de caminh\u00f5es que se despejavam na estrada n\u00e3o existissem.<\/p>\n<p>R\u00c9 &#8211; Sabia que na neblina espessa do trecho em quest\u00e3o eu iria me atrasar. Foi o que aconteceu. Parei atr\u00e1s de uma t\u00eanue luz vermelha, que adivinhei ser a traseira de um tremendo Scania. Achava que n\u00e3o se fabricavam mais esses mastodontes da estrada e confiei no destino, que me colocara atr\u00e1s de um portento, que abriria qualquer caminho para um motorista espis\u00f3dico como eu. O problema \u00e9 que l\u00e1 pelo segundo quil\u00f4metro, equivalente a uns quinze minutos de sofrimento, a luzinha vermelha sumiu de repente e foi substitu\u00edda por um farol enorme, que espalhava raios azuis por todo o lado, acompanhado de um bufar de dinossauro mec\u00e2nico. Eu estava, sem mais aquela, no contrafluxo do tr\u00e2nsito!<\/p>\n<p>Iria bater de qualquer forma, quando decidi, no \u00faltimo segundo, dar uma r\u00e9 suicida, que cruzou a neblina de tr\u00e1s de maneira c\u00e9lere, \u00e0s cegas, como se eu tivesse surtado de repente. Aproveitei o empuxe para dar um cavalo de pau, que me ensinaram no cinema e que eu jurara um dia colocar em pr\u00e1tica. Fui seguindo em frente com aquelas luzes atr\u00e1s de mim, como se fossem de uma nave espacial, enquanto o ru\u00eddo aumentava. O estranho \u00e9 que n\u00e3o havia ningu\u00e9m mais na minha frente, o que significava que eu tinha sido o \u00faltimo de uma fila e agora ia em frente de volta a Florian\u00f3polis. Pelo menos era o que eu imaginava.<\/p>\n<p>CANGOTE &#8211; O carro parou novamente, desta vez numa curva acentuada. O animal de lava continuava no meu cangote, impaciente, mas eu estava prestando aten\u00e7\u00e3o mesmo era na dissipa\u00e7\u00e3o da n\u00e9voa, que mostrava um c\u00e9u azul pontilhado de nuvens branqu\u00edssimas. Quando cheguei ao fim da curva, o dia estava transl\u00facido e eu me deparava com enorme placa na minha frente. Sou um p\u00e9ssimo leitor de placas ou avisos. J\u00e1 cheguei a confundir &#8220;temos tempero para ling\u00fci\u00e7a&#8221; para &#8220;tempos de desespero para a ling\u00fci\u00e7a&#8221;. Tudo \u00e9 poss\u00edvel numa \u00e9poca de mau jornalismo. Mas aquela placa dizia outra coisa. Estava escrito: Ciudad Del Mexico, 30 km. Achei que era o nome de um restaurante, apesar de a placa ser daquelas enormes, oficiais, de letras brancas sobre o fundo verde, como mandava o figurino formatado em Los Angeles ou Nova York. O problema \u00e9 que entrei num rio de tr\u00e2nsito de carr\u00f5es, com placas de v\u00e1rios pa\u00edses, inclusive do M\u00e9xico. J\u00e1 tinha ouvido falar na hist\u00f3ria de abdu\u00e7\u00e3o de um casal que dormiu dentro do carro na estrada e acordou exatamente num lugar como esse onde me encontrava. N\u00e3o imaginava ser poss\u00edvel, ainda mais comigo, e n\u00e3o naquela ocasi\u00e3o, em que eu me dirigia para resolver um assunto urgente e inadi\u00e1vel. Pois tive que obedecer \u00e0s sinaliza\u00e7\u00f5es e penetrar na cidade monstruosa, coberto por fuligem, que era pior do que a n\u00e9voa anterior. Para onde tinha ido a transpar\u00eancia que vira na estrada?<\/p>\n<p>Tinha sumido, junto com meu bom senso. Eu estava com os olhos esbugalhados, debru\u00e7ado sobre o volante para melhor ver os edif\u00edcios, as ruas, os sinais, as pessoas, o com\u00e9rcio e as pra\u00e7as. Era tudo monstruosamene real e eu, com meu golzinho, destoava do cen\u00e1rio. Isso acabou chamando a aten\u00e7\u00e3o de dois guardinhas, que eu sabia tem\u00edveis, pois por qualquer coisa dariam a c\u00e9lebre mordida, a propina para continuar trafegando. Um deles bateu com o n\u00f3 dos dedos no vidro e fez sinal para abrir. Pediu documentos. Eu dei. Ele devolveu. Disse que n\u00e3o valia no M\u00e9xico. Onde estavam los papeles, e esfregava os dedos para sugerir dinheiro. Nem lembro da conversa, pois, se tentar reproduzir, vou cair no meu velho portunhol, j\u00e1 que sempre me recusei a falar como os castelhanos, t\u00e3o deslumbrados com sua l\u00eangua, tanto que se enredam nela a toda hora.<\/p>\n<p>ALAMEDA &#8211; Mas depois de alguns minutos de p\u00e2nico, com a conversa aumentando de tom, decidi dar outra r\u00e9 e outro cavalo de pau. Sa\u00ed por um beco lateral que tinha visto minutos antes e ca\u00ed numa enorme alameda cheia de carros e \u00f4nibus. Desviei do tr\u00e2nsito como um piloto veterano e acabei subindo a rampa proibida de um parque. Enveredei por uns trechos de flores, arbustos e pedrinhas coloridas e sa\u00ed num circulo cal\u00e7ado que abrigava, bem no centro, uma est\u00e1tua eq\u00fcestre. Contornei a estatua e comecei a dar voltas, completamente alucinado. Precisava voltar para a neblina, voltar para a neblina. Quem sabe acharia o caminho de volta?<\/p>\n<p>Foi quando um mendigo se interp\u00f4s fisicamente diante do carro e me obrigou a parar. Sacudindo as m\u00e3os, desesperado, pedia ajuda, precisava ir para o hospital, pois estava tendo um ataque. For\u00e7ou o vidro e entrou de maneira abrupta, se jogando no banco ao meu lado. Fiquei olhando para ele com minha cara de louco quando ele puxou um trabuco 45 e me colocou dentro de uma das ventas. O mais gentil que ouvi foi hijo de puta. Tive que obedecer a suas ordens e me mandei por uma rua mais ou menos calma at\u00e9 chegar perto de uns sujeitos mal encarados. Era um grupo da pesada. Estavam sentados em cima de uns lat\u00f5es de lixo e ficaram me olhando de maneira cavernosa. Meu seq\u00fcestrador explicou que eu era um motorista de m\u00e3o cheia e poderia muito bem dar conta do recado. Todos ent\u00e3o entraram e se aboletaram no carrinho que naquela altura deixara de ser novo para virar um traste. Eu tinha batido a porta num coqueiro no parque, de rasp\u00e3o, quando quis desviar de um esquilo mutante, pois s\u00f3 animais mutantes poderiam viver naquela droga.<\/p>\n<p>PALITO &#8211; Ao meu lado estava o ex-mendigo, que j\u00e1 tirara seu disfarce (um saco de aniagem e um chap\u00e9u rasgado) e envergava um terno azul, com camisa ocre e gravata preta. Era magro, alto, de rosto encovado e tremia ao segurar o rev\u00f3lver, que agora estava depositado no colo. Atr\u00e1s estava El Gordo, que ocupava metade do banco. Tinha a cara de \u00edndio, um bigode espigado e uma barba rala. Equilibrava um palito nos dentes e falava com voz fina, que era subsitu\u00edda \u00e0s vezes por um ronco. Usava um chapeuzinho de aba curta, com uma pena pequena, colorida , atr\u00e1s, tipo filhote de chap\u00e9u de Robin Hood. E ao seu lado, espremido, estava um fuinha baixinho, com tiques nervosos, todo coberto de jeans, uma ruga na testa, cabelo de milho, ralinho. Era chamado de El,Pibe. El Gordo era o pr\u00f3prio. E o seq\u00fcestrador era o Coiote.<\/p>\n<p>A tarde j\u00e1 vinha caindo e me levaram para outro beco, onde se destacava na parede de tijolos \u00e0 mostra enorme anel de a\u00e7o com os dizeres de um banco. Parece que era bank de alguma coisa, era deposito de d\u00f3lares, por supuesto. Eles pararam bem em frente ao tro\u00e7o e descarregaram as sacolas cheias de material. Coiote fazia a seguran\u00e7a, sem desgrudar o olho de mim, El Gordo cuidava dos detonadores, ma\u00e7aricos e bombas e El Pibe era o art\u00edfice, o cara que colocava fio de a\u00e7o dentro de fechaduras milim\u00e9tricas. Na hora que conseguiram algo, o gordalh\u00e3o deu uma for\u00e7ada na tampa daquele cofre e abriu de um safan\u00e3o. El Pibe mergulhou l\u00e1 dentro levando um bolo de sacos pl\u00e1sticos vazios e logo colocou a cara para fora. O cofre s\u00f3 continha papeles. Os putos vinham para o beco depositar a papelada das empresas, jamais dinheiro, pois o lugar era meio sinistro e levantava suspeitas. Talvez tivesse sido constru\u00eddo quando ali era uma rua apraz\u00edvel, l\u00e1 pelo meio do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>GOSMA &#8211; O gordo n\u00e3o quis nem saber. Se solo tiene papeles, ponh\u00e1lo papeles em la botija (j\u00e1 falei que meu castelhano \u00e9 execr\u00e1vel). Como Pibe n\u00e3o dava mais sinal de vida, o Gordo colocou a cara para dentro e descobriu o embrulho: os pap\u00e9is estavam atr\u00e1s de uma grade. Os pulhas do banco tinha encarcerado a papelada e ido hoder, assim com ag\u00e1 aspirado. O gordo ent\u00e3o passou para o companheiro um naco de gosma pl\u00e1stica para detonar a porra. Pibe saiu de um salto quando El Gordo disse que ia detonar tudo. Ouviu-se um estrondo seco e o pibe voltou par dentro, saindo de l\u00e1 com uns sacos chamuscados de pap\u00e9is. Idiota, queimaste tudo, dizia para o gordo. O seguran\u00e7a nem olhava para a cena. Colocava um olho no final do beco, que aquela hora parecia a luz no fim de um t\u00fanel, e outro ainda em mim.<\/p>\n<p>Entraram batendo porta e tive que sair na disparada. Duas fardas tinham adentrado o corredor bem l\u00e1 atr\u00e1s, no outro lado da ruela. Era a ronda habitual. Sumi derrubando lixo e voltei para a rua principal, enquanto ouvia as reclama\u00e7\u00f5es gerais, da bosta que tinha sido aquela id\u00e9ia, aquele roubo. E ainda mais, com este motorista brassilenho, que s\u00f3 sabe jugar fubol, carajo de mierda, me cago em la leche de tu madre (isso tirei de Hemingway, que tem uma literatura cubana onde as pessoas vivem cagando no leite materno, seja isso o que for; serve para eu descrever a cena, real). Ent\u00e3o me levaram para sub\u00farbio, para um casar\u00e3o mal assombrado, vazio de m\u00f3veis e cheio de teias de aranha. L\u00e1 reviraram de novo o butim, e descobriram umas a\u00e7\u00f5es ao portador que valiam no m\u00ednimo um mijone de d\u00f4l\u00e1res. Deram saltos de alegria, chegaram a me oferecer tequila e a me bater amistosamente nas costas, mas ficaram mudos de repente pois descobriram que teriam que se identificar no banco para pegar a bufunfa.<\/p>\n<p>FRITO &#8211; Naquele banco no y no, disse El Gordo. Bueno, bamos en otro, disse El Pibe. Em outro, pero no nosotros. Bamos a convocar Ronaldino Gautcho a\u00ed, el brassilenho cagado, que les parecen? Eles me olharam fundamente e despencaram de tanto rir. Eu estava frito. No dia seguinte me colocoram \u00e0 for\u00e7a um terno parecido com o do Coiote, e fui, vestido de mafioso cucaracho, num banco perto dali, poderoso pela altura, e horrendo pelas cores, guardas e clientes que estavam nele. O gerente verificou meus dados, pediu passapuerte, eu disse que n\u00e3o estava comigo nel momento, mas ele poderia pegar uma ventaja de diez por ciento de las aciones, o que deixou o infeliz esfregando as m\u00e3os de contente. Mas disse que eu teria que fazer um dep\u00f3sito na minha conta em outro banco com o valor das a\u00e7\u00f5es, pois ele n\u00e3o dispunha de cash no momento. Ouvindo isso, El Gordo despencou sobre a mesa, bateu nela e disse: d\u00e1-nos algo, cabr\u00f3n.<\/p>\n<p>O cara ent\u00e3o consentiu em nos passar 80 mil d\u00f3lares e o resto, uns 400 mil (era, claro, a metade do que t\u00ednhamos calculado) eu repassaria para outra conta, no caso, a do Coiote, que era o \u00fanico que dispunha de uma vida regular. Tudo combinado sa\u00edmos, eu com minha mala (para n\u00e3o dar na vista), eles com recibo do dep\u00f3sito. Em frente ao elevador modernoso que custou a aparecer, tinha outra porta, de um elevador daqueles antigos, com porta sanfonda. Os novos ricos estavam esperando o cadilaque quando tive a oportunidade de saltar para dentro do fusqueta que bruscamente abriu na minha frente e fechou nas minhas costas. Ainda ouvia os gritos de te voy a te matar, ronaldino gaudutcho, quando cheguei no t\u00e9rreo e disparei em dire\u00e7\u00e3o ao meu golzinho. Sa\u00ed na corrida com meus 80 mil d\u00f3lares gritando alucinado: voltar para a neblina, voltar para neblina.<\/p>\n<p>BARULHO &#8211; Parece mentira, mas consegui chegar na altura da estrada onde tinha se dado o evento. Peguei a m\u00e3o certa e me aprofundei na espessa nuvem que cobria o caminho, situa\u00e7\u00e3o agravada por ser j\u00e1 tarde e o sol de novo insistia em querer se por. Eu tinha ficado o dia inteiro naquela lida de novo. Quantas horas ficara naquele banco, sentado em meio a senhoritas nerviosas e cucarachos insanos, suados, dependurados numa d\u00edvida de num lugar que dava as perigosas mordidas? S\u00f3 sei que voltei para o lugar onde estava e descobri novamente que as luzes de um lat\u00e3o medonho fazia barulho para eu sair da frente. Desta vez eu desviei para a direita, cruzei uma ilha coberta de mato e entrei na m\u00e3o segura e correta. Consegui sair da neblina e ver a placa salvadora: Curitiba, 150 quil\u00f4metros. Decidi seguir em frente, pois me apavorava o fato de cruzar a neblina de novo.<\/p>\n<p>Fique at\u00e9 a manh\u00e3 seguinte na capital paranaense. Vendi o carro no primeiro p\u00e1tio que depositava segunda m\u00e3o e peguei um \u00f4nibus. N\u00e3o ia arriscar. Deixava tudo na m\u00e3o do motorista. De avi\u00e3o n\u00e3o daria certo, poderiam me revistar no aeroporto com meus valiosos d\u00f3lares. A viagem rolou pela estrada at\u00e9 chegar ao trecho fat\u00eddico. Foi s\u00f3 dar 15 minutos naquele sufoco e vi da janela a cara do Coiote vibrando o rev\u00f3lver em minha dire\u00e7\u00e3o. Abrite, ronaldino, dizia. N frente do \u00f4nibus, o pobre do motorista j\u00e1 era rendido e entraram ent\u00e3o El Pibe e El Gordo, que me carregaram par fora da lota\u00e7\u00e3o. Entrei num cadilacc azul prateado, no banco de tr\u00e1s, sendo espremido por gord\u00e3o. Na frente iam os dois outros meliantes, j\u00e1 contando o fruto do roubo. Quando viram que tudo estava certo, encostaram na estrada, pararam o carro e me olharam fixamente . Iam me matar, claro.<\/p>\n<p>CONVERSA &#8211; Bom trabalho, campe\u00e3o, me disse o Coiote, completamente sem sotaque.<br \/>\n&#8211; Te foste muito bem, disse El Pibe, com sotaque ga\u00facho.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o elogia muito o cara, seu plaquero, disse o gordo.<br \/>\nPlaquero? Sim, o pibe era o rei das placas, fazia qualquer uma. Tinha pesquisado na Internet e sabia imitar os dizeres do tr\u00e2nsito de qualquer lugar do mundo. Ganhamos, tch\u00ea loco, gritava El Pibe, ganhamos um mont\u00e3o de grana. N\u00e3o t falei que era moleza, dizia El Gordo, com sotaque de manezinho da ilha de Floripa.<br \/>\n&#8211; Mas voc\u00eas s\u00e3o brasileiros.<br \/>\n&#8211; Claro, idiota. E mexicano tem alguma id\u00e9ia de fazer alguma coisa?<br \/>\nE foram cantando down on the corner aos berros, acompanhando o r\u00e1dio que esgoelava o Credence, enquanto eu afundava no mais completo abismo mental, pois tinha sido v\u00edtima de uma armadilha.<br \/>\n&#8211; Mas como voc\u00eas fizeram, como sabiam? Aquela cidade n\u00e3o era o M\u00e9xico?<br \/>\n&#8211; Era Joinville, imbecil, tu n\u00e3o conhece Joinville. Ta cheio de banco de alem\u00e3o e americano com grana.<br \/>\n&#8211; Mas Joinville \u00e9 uma cidade limpa, sem polui\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8211; \u00c9 m\u00e1gica do plaquero, disse El Gordo. Voc\u00ea v\u00ea a placa e acredita. A\u00ed tudo fica sendo visto atrav\u00e9s da neblina.<br \/>\nNo r\u00e1dio do carro tocava: N\u00e3o precisa ter um penny, basta um n\u00edquel para Willy and the poor boys. Down on the corner&#8230;<br \/>\n&#8211; E por que me escolheram?<br \/>\n&#8211; Tu vive dando banda na internet, seu besta. Contaste essa hist\u00f3ria do M\u00e9xico, da nave espacial e n\u00f3s bolamos o assalto. Tu \u00e9 mesmo um abostado, dizia El Pibe.<br \/>\n&#8211; E os guardinhas, os guardinhas?<br \/>\n&#8211; S\u00e3o de l\u00e1 mesmo. Acharam que tu era argentino e quiseram te dar uma sacaneada.<br \/>\n&#8211; Mas eles falavam M\u00e9xico, M\u00e9xico.<br \/>\n&#8211; \u00c9 que tu \u00e9 preconceituoso mesmo, disse El Plaqueador. Acha que todo castelhano usava chap\u00e9u de aba larga. Falou espanhol e acreditas mesmo que est\u00e1s mesmo em Ciudad Del Mejico.<br \/>\nE se esborracharam de rir.<br \/>\n&#8211; Mas e a pra\u00e7a? Como foi que me encontraram?<br \/>\n&#8211; Tu foste levado para l\u00e1, sua mula. N\u00e3o tem outro caminho. Todas as ruas daquela regi\u00e3o d\u00e3o no parque. Quando tu entraste no miolo da pra\u00e7a, o coiote correu no teu encal\u00e7o.<br \/>\n&#8211; P\u00e1ra a\u00ed. E o gerente? Ele me pediu passaporte. E falava espanhol!<br \/>\n&#8211; Porque tu tem cara de gringo, animal. Tem sobrenome metido a besta, por isso.<br \/>\nEu n\u00e3o me conformava:<br \/>\n&#8211; E porque voc\u00eas n\u00e3o foram ao banco sozinhos?<br \/>\n&#8211; Porque at\u00e9 em banco bandido n\u00e3o temos chance. A gente precisava de um laranja.<br \/>\n&#8211; E o que voc\u00eas v\u00e3o fazer comigo? Voc\u00eas j\u00e1 t\u00eam toda a grana.<br \/>\n&#8211; Toda n\u00e3o, s\u00f3 os 80 mil. O resto foi para uma conta inexistente. N\u00e3o podemos correr riscos. Mas oitentinha j\u00e1 paga todo o investimento.<br \/>\nEu estava com o horror estampado na cara. Vendo meu desespero, El Gordo tirou o palito da boca e me ofereceu, com o rosto consternado, cheio de piedade:<br \/>\n&#8211; Quer uma lasquinha? Esse \u00e9 teu pagamento.<\/p>\n<p>MANHA &#8211; E me deixaram no meio da estrada, sem gol, sem grana e com muita raiva dos mexicanos, porque eu precisava naquele momento odiar alguma coisa.<br \/>\nGritei no meio do nada:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 Ronaldino, seus putos. \u00c9 Ronaldinho, de manha, de fanho, de sanha. \u00c9 o nh\u00e1 dos \u00edndios seus jodidos.<br \/>\nVinha um som de algum lugar. A letra dizia: basta um n\u00edquel que Willy e os pobres garotos v\u00e3o te agradecer e continuar tocando.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O carro parou novamente, desta vez numa curva acentuada. O animal de lava continuava no meu cangote, impaciente, mas eu estava prestando aten\u00e7\u00e3o mesmo era na dissipa\u00e7\u00e3o da n\u00e9voa, que mostrava um c\u00e9u azul pontilhado de nuvens branqu\u00edssimas. Quando cheguei ao fim da curva, o dia estava transl\u00facido e eu me deparava com enorme placa na minha frente. Sou um p\u00e9ssimo leitor de placas ou avisos. J\u00e1 cheguei a confundir &#8220;temos tempero para ling\u00fci\u00e7a&#8221; para &#8220;tempos de desespero para a ling\u00fci\u00e7a&#8221;. Tudo \u00e9 poss\u00edvel numa \u00e9poca de mau jornalismo. Mas aquela placa dizia outra coisa. Estava escrito: Ciudad Del Mexico, 30 km.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5,6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1156"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1156"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1156\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1539,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1156\/revisions\/1539"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1156"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1156"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1156"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}