{"id":1158,"date":"2009-12-17T17:20:06","date_gmt":"2009-12-17T19:20:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1158"},"modified":"2009-12-21T21:32:05","modified_gmt":"2009-12-21T23:32:05","slug":"e-de-trem-que-eu-preciso","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/e-de-trem-que-eu-preciso","title":{"rendered":"\u00c9 DE TREM QUE EU PRECISO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Cada batida da roda no trilho \u00e9 uma paisagem nova que a janela improvisa. N\u00e3o nova no sentido de novidade, mas verde quando \u00e9 pampa, azul quando \u00e9 serra, infinito quando \u00e9 \u00e1gua. O tranco da locomotiva leva o vag\u00e3o para a curva do destino. A fila de imagens que n\u00e3o canso de olhar \u00e9 o cinema que me falta. Amanhecer ao lado da grande tela de vidro emba\u00e7ado \u00e9 antever o sol que ainda n\u00e3o veio, e basta uma lufada de m\u00e3o na neblina cristalizada para ver um raio que atinge o p\u00e1ssaro ao p\u00e9 de um riacho, a ponte in\u00fatil de madeira comida, o gado esparso na grama cercada. Mais um pouco de luz e tudo se descortina, principalmente a viagem que talvez agora chegue ao fim, depois de uma noite mal dormida, em meio \u00e0 popula\u00e7\u00e3o que se dirige a algo que n\u00e3o entende, a vida passada em trajetos sem sentido. Ao meio dia \u00e9 hora do almo\u00e7o na esta\u00e7\u00e3o antiga e de conviver com o cheiro de panela de ferro, arroz de outras vidas, talvez com o gosto de inf\u00e2ncia ou de liberdade. A carne que s\u00f3 existia naqueles lugares ermos, para onde jamais voltaremos, mas que ficam no corpo como sinais incompreens\u00edveis. O refrigerante em garrafas escuras, que guardavam licores abandonados, e as prateleiras onde se divisava um r\u00e1dio de ondas curtas, que pegava a guerra distante e a m\u00fasica que sumiu totalmente do mapa.<\/p>\n<p>ESTRADA &#8211; \u00c9 de trem que eu preciso, para chegar ao tempo que me absolve. N\u00e3o se trata de fugir ou de puxar a mem\u00f3ria como um el\u00e1stico frio. Mas de viajar de novo, enquanto o pa\u00eds desmoronado nos permite uma tr\u00e9gua e haja homens de chap\u00e9u e senhoras de v\u00e9u na cabe\u00e7a e adolescentes como n\u00f3s, empertigados em nossas roupas providenciadas pela m\u00e3e que nos deus adeus no ponto de partida. Ela ficou l\u00e1 plantada, enquanto, ingratos, sum\u00edamos para o futuro, aquela m\u00e3e que n\u00e3o nos abandona e reza por n\u00f3s enquanto fazemos alarido nos bancos esfolados de couro velho. Passeamos pela serpente enferrujada, apertados em corredores de bancos ou de dormit\u00f3rios prec\u00e1rios, at\u00e9 chegar ao restaurante onde arrisc\u00e1vamos uma cerveja fabricada na beira daquela estrada, porque o mundo se localizava no lugar onde est\u00e1vamos e n\u00e3o era essa conflu\u00eancia de nadas, em que n\u00e3o nos deciframos, mesmo que tenhamos certeza de que \u00e9 assim que seria, e nada poder\u00edamos mudar com nossas cal\u00e7as curtas, nossa camisa de jersey, nosso cabelo engomado, nossa escassez de criaturas datadas.<\/p>\n<p>MALA &#8211; Quer\u00edamos saber o que o arco-\u00edris nos reservava, sem atinar que o trem era o que passar\u00edamos a vida buscando. N\u00e3o era nossa inten\u00e7\u00e3o ficar fixos neste eterno presente, em que n\u00e3o se tolera reminisc\u00eancias, e quando elas existem \u00e9 para mentir sobre o que fomos um dia. Por isso fa\u00e7o a mala, ponho meu terno azul marinho, e envergado sobre mim tra\u00e7o a viagem de volta. Aguardo junto com outros passageiros que, como eu, voltam para reencontrar o que deixamos para tr\u00e1s. Estamos novamente enganados. N\u00e3o \u00e9 no fim da linha que teremos novamente o caf\u00e9 com p\u00e3o da fam\u00edlia perdida, nem na cidade que deixamos por mero capricho. \u00c9 esse retorno que nos incomoda, porque h\u00e1 desconforto, apertos entre desconhecidos. E talvez o trem atrase outra vez, j\u00e1 que ele n\u00e3o existe mais, mas teima em ficar parado algum tempo embaixo da lua cheia, enquanto ficamos aflitos \u00e0 espera do rein\u00edcio do impulso que nos carrega.<\/p>\n<p>TETO &#8211; Nunca vamos aprender que andar \u00e9 o caminho, e que os destinos, no come\u00e7o ou no final da jornada, s\u00e3o mais prec\u00e1rios do que qualquer sonho despertado no meio da noite, quando vemos o teto do vag\u00e3o sumir para que possamos ver as estrelas. Isso tem me acontecido ultimamente. Deito e olho para cima e vejo novamente o c\u00e9u que deixei h\u00e1 poucos instantes. Com todas as estrelas e fiapos de nuvens, o que torna a vis\u00e3o ainda mais veross\u00edmel. \u00c9 como acampar sem barraca, contar estrelas cadentes, seguir o risco de sat\u00e9lites que usam as constela\u00e7\u00f5es como parada. No fundo da madrugada, o trem p\u00e1ra novamente. Olhamos pela janela, que tamb\u00e9m dorme. Uma luz cercada pelo fogo f\u00e1tuo das mariposas nos diz que ali \u00e9 um ponto conhecido, por onde passaremos mais uma vez em dire\u00e7\u00e3o ao que n\u00e3o nos consola. Crian\u00e7as se agitam, senhores do povo conversam baixo sobre pescarias e neg\u00f3cios. H\u00e1 um cheiro de cabelos engomados, de chap\u00e9u de feltro, de xales de l\u00e3. Onde estou? me pergunto.<\/p>\n<p>TALISM\u00c3 &#8211; Estou no meio do meu of\u00edcio, que \u00e9 tentar entender a passagem obscura pela terra envolta em mist\u00e9rio. Estou s\u00f3, como a crian\u00e7a que adormece no crep\u00fasculo e acordo na boca da escurid\u00e3o com um solavanco. Ela v\u00ea o homem fardado passar com seu bon\u00e9 de autoridade m\u00e1xima da viagem. O homem recolhia passagens quando todos se aboletaram pelos bancos. Agora ele vigia o sono de quem escolheu esse momento para percorrer a trilha insana de uma vida. A crian\u00e7a fecha novamente os olhos e o embalo da serpente emplumada o leva para longe. Para l\u00e1, onde a poesia dorme e as palavras soltas como um rebanho pastam no esplendor de uma revela\u00e7\u00e3o. Nada nos salvar\u00e1 desse enigma. Por isso agradecemos a Deus quando o dia firma e algu\u00e9m oferece um caf\u00e9 rec\u00e9m feito, uma bolacha dormida ou um jornal comprado na corrida numa parada qualquer. Entre um gole e a mordida do trigo providencial, vemos estampada na primeira p\u00e1gina nosso rosto adulto, a nos olhar com ar sagrado da santidade. Para esse rosto rumamos, carregando a inf\u00e2ncia como um talism\u00e3. Ela est\u00e1 dentro de uma pequena caixa, que guardamos no sobretudo. Da tampa aberta, salta a bailarina, ao som de uma valsa tocada por cristais e acompanhada pelo brilho de diamantes de um filme que vimos no cinema lotado, quando havia cinema e quando \u00e9ramos a alegria da cria\u00e7\u00e3o em desencanto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou no meio do meu of\u00edcio, que \u00e9 tentar entender a passagem obscura pela terra envolta em mist\u00e9rio. Estou s\u00f3, como a crian\u00e7a que adormece no crep\u00fasculo e acordo na boca da escurid\u00e3o com um solavanco. Ela v\u00ea o homem fardado passar com seu bon\u00e9 de autoridade m\u00e1xima da viagem. O homem recolhia passagens quando todos se aboletaram pelos bancos. Agora ele vigia o sono de quem escolheu esse momento para percorrer a trilha insana de uma vida. 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