{"id":1160,"date":"2009-12-17T17:21:02","date_gmt":"2009-12-17T19:21:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1160"},"modified":"2009-12-20T21:29:51","modified_gmt":"2009-12-20T23:29:51","slug":"o-sentimento-sem-nome","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-sentimento-sem-nome","title":{"rendered":"O SENTIMENTO SEM NOME"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>O que chamam de amor \u00e9 um grupo infinito de sentimentos incompreens\u00edveis, que formam um conjunto batizado por essa palavra. S\u00e3o como fibras de um cabo de luz \u00f3tica, visto depois de um corte. Voc\u00ea olha o perfil e v\u00ea uma s\u00e9rie de pontinhos, cada um fazendo parte de uma fibra. Como s\u00e3o intensas e vivem unidas, confundem os conceitos. \u00c9 costume chamar, indiscriminadamente, de amor uma s\u00e9rie de sensa\u00e7\u00f5es, unhas cravadas no cora\u00e7\u00e3o indefeso, ou apenas rios de lava que percorrem o corpo, uns de maneira mais t\u00e9pida, outros abrindo caminho com f\u00faria. \u00c9 imposs\u00edvel separar cada fibra do feixe todo, por isso h\u00e1 tanta m\u00e1 vontade, na pr\u00e1tica di\u00e1ria, em rela\u00e7\u00e3o ao amor. Ou se abandona o sentimento (aquela fibra sem nome, que faz parte do conjunto, mas n\u00e3o \u00e9 o amor, condom\u00ednio poderoso de in\u00fameras habita\u00e7\u00f5es) ou se convive muito mal com ele. Como posso saber dessas coisas? Sei l\u00e1, \u00e0s vezes a lua cheia est\u00e1 plena de recados.<\/p>\n<p>PRESEN\u00c7A &#8211; Ao acordar, existe uma sensa\u00e7\u00e3o. Pode ser arrependimento, ou simplesmente continua\u00e7\u00e3o de um sonho. Est\u00e1s s\u00f3, mesmo que haja presen\u00e7a alheia. \u00c9 contigo o embate: algu\u00e9m plantou dentro de ti uma fibra \u00f3tica que cruza, como um neutrino (part\u00edcula que existe, mas n\u00e3o deixa marcas) teu corpo todo e te faz trope\u00e7ar no piso encerado (ou no chinelo, mas esta \u00e9 uma palavra pouco apropriada quando se fala dessas coisas). Basta conhecer algu\u00e9m e uma outra fibra n\u00e3o te abandona. Como podes se nem conviveste com aquela vida? \u00c9 apenas um fisgar. Quando te revoltas com algu\u00e9m pedindo comida num pa\u00eds que exporta prote\u00edna, desabafas para algu\u00e9m desconhecido, teu cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 cheio de revolta e calor. O momento passa e ningu\u00e9m lembra de mais nada. Volta para ti um cheiro, uma lembran\u00e7a, uma cena, e l\u00e1 est\u00e1, plantada como um salso chor\u00e3o (aquela \u00e1rvore que se derrama em folhas e galhos sobre o ch\u00e3o), como um tornado invis\u00edvel, a parte do feixe que deixaste de lado como um lixo industrial. Vais at\u00e9 o quintal da tua vida e v\u00eas, atirado, enrodilhados como cobras mortas, o conjunto de brilhos agora foscos, que deixaste de lado.<\/p>\n<p>ESPELHO &#8211; A vida \u00e9 um eterno assassinato dos sentimentos sem nome. Como n\u00e3o podem ser identificados, n\u00e3o h\u00e1 batismo. Chamamos de paix\u00e3o, amor, empatia, todas as palavras, mas n\u00e3o se trata disso. \u00c9 algo completamente desconhecido. \u00c9 territ\u00f3rio inexplorado, que fazem a riqueza da psiquiatria. N\u00e3o se trata de batizar, mas de identificar como algo pr\u00f3prio, que faz parte de um conjunto maior. \u00c9 mais do que a arqueologia do cora\u00e7\u00e3o e da mente, \u00e9 trabalhar com um universo desconhecido, que est\u00e1 dentro de n\u00f3s, mas estamos ocupados com outras coisas. Como h\u00e1 completo desconhecimento, os livros de auto-ajuda fazem a festa. As pessoas correm para as livrarias para tentar entender alguma coisa, mas existem apenas palavras. O sentimento sem nome (um olhar, uma esperan\u00e7a) est\u00e1 fora delas e continuas no terreno baldio da tua hist\u00f3ria. Ent\u00e3o, se instala o h\u00e1bito. Ou as pessoas se rendem aos argumentos falsos dos autores que nada entendem do incognosc\u00edvel, ou continuam \u00e0 parte de tudo. Aos poucos, tua cara toma a forma de uma m\u00e1scara de horror.<\/p>\n<p>MURO &#8211; Pois \u00e9 preciso estar protegido contra qualquer tipo de sentimento. Tens mais o que fazer. Precisas sobreviver, fazer os outros se enxergarem, ordenar, contrapor, vencer. Para que serve isso que est\u00e1 agonizando como uma cobra de luz dentro do balde de tua indiferen\u00e7a? Serve para serem depositados em animais de estima\u00e7\u00e3o, em viagens in\u00fateis, em poses estudadas. Serve para o vazio, enquanto sonhas com o amor tornado imposs\u00edvel, pois se n\u00e3o consegues entender uma s\u00f3 fibra do conjunto, como poder\u00e1 lidar com uma cidade, uma na\u00e7\u00e3o, uma estrela inteira de grandezas infinitas? Idealizas o grande amor enquanto perdes o contato com que o tenta se salvar dentro de ti. Basta saber que isso existe, que n\u00e3o tem nem ter\u00e1 batismo, e acolhas em tua casa como um viajante sem pouso. D\u00ea-lhe comida e \u00e1gua e um teto, para que possa ficar, ou parta um dia sem remorso. Ser\u00e1s assim a hospedagem de sentimentos desconhecidos, mas reais, e ser\u00e1s visto como algu\u00e9m que sabe honrar o compromisso maior com a vida: a de existir para que todos possam encontrar seu destino e conseguir chegar ao portal divino com um feixe de fibras que se retorcem.<\/p>\n<p>PERFUME &#8211; Ser\u00e1 teu presente ao Deus que te aguarda, essa ramo de flores ainda inc\u00f3gnitas, mas vibrantes. O Para\u00edso precisa desse gesto, para que haja perfume na morada eterna e algo mais do que l\u00e1grimas na terra em conflito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vida \u00e9 um eterno assassinato dos sentimentos sem nome. Como n\u00e3o podem ser identificados, n\u00e3o h\u00e1 batismo. Chamamos de paix\u00e3o, amor, empatia, todas as palavras, mas n\u00e3o se trata disso. \u00c9 algo completamente desconhecido. \u00c9 territ\u00f3rio inexplorado, que fazem a riqueza da psiquiatria. 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