{"id":1162,"date":"2009-12-17T17:22:02","date_gmt":"2009-12-17T19:22:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1162"},"modified":"2009-12-20T22:47:25","modified_gmt":"2009-12-21T00:47:25","slug":"laudas-da-vida-inteira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/laudas-da-vida-inteira","title":{"rendered":"LAUDAS DA VIDA INTEIRA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o faz tanto tempo assim. O objeto tinha um carrilh\u00e3o em forma de cilindro, que avan\u00e7ava para a esquerda sempre que nos aprofund\u00e1vamos naquele of\u00edcio escolhido contra todas as evid\u00eancias e conselhos. Os espa\u00e7os entre as frases eram definidos por uma seq\u00fc\u00eancia de estalos, ru\u00eddos m\u00ednimos nas reda\u00e7\u00f5es barulhentas. Eu preferia os tr\u00eas espa\u00e7os, que podem ser comparados \u00e0 atual uma linha e meia do editor de texto. Sempre dava para acrescentar alguma coisa, corrigir, voltar atr\u00e1s, riscar, sem comprometer a integridade da lauda. Era preciso economizar esfor\u00e7o, aproveitar a penosa coloca\u00e7\u00e3o da folha no rolo compressor, n\u00e3o encher o cesto de frases mal come\u00e7adas, palavras toscas, rabiscos.<\/p>\n<p>As teclas pediam determina\u00e7\u00e3o funda. Dependiam da for\u00e7a dos dedos, desobedientes \u00e0s li\u00e7\u00f5es de datilografia. O h\u00e1bito transformava cada aperto num atalho para o objetivo maior: o fim do compromisso e o in\u00edcio da liberdade. Catar milho era a radicalidade dessa distor\u00e7\u00e3o. A maioria ficava na linha intermedi\u00e1ria, compondo tabelinha entre tr\u00eas dedos, como se escrev\u00eassemos de trivela, com efeito, para que o texto atingisse a maioridade da folha seca e quando chegasse ao \u00e1pice ca\u00edsse miseravelmente no canto indefens\u00e1vel.<\/p>\n<p>Definido o espa\u00e7o, colocava-se a lauda amarelada e pautada, com cabe\u00e7alhos do jornal da hora. Tenho cole\u00e7\u00e3o preciosa desses exemplares de uma civiliza\u00e7\u00e3o perdida, n\u00e3o que costumasse guardar meus originais que, como todos os outros, sumiam pelo buraco negro da revis\u00e3o e da gr\u00e1fica. Mas porque as us\u00e1vamos para tudo, especialmente para, nas costas delas, abra\u00e7ar o que tinha nos levado \u00e0quela situa\u00e7\u00e3o: a literatura. Escritores que adiaram por mais de uma vida seus livros, acumul\u00e1vamos pilhas de laudas escritas de poemas e pequenos contos, que formavam pastas. Outros tinham prefer\u00eancias diversas. Guardavam recortes de jornais, que ficavam empilhados pela casa, para futuros projetos e balan\u00e7os, para desespero da faxina e das mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>Faz\u00edamos parte de uma estranha civiliza\u00e7\u00e3o que acredit\u00e1vamos eterna. \u00c9ramos seres acumulativos e nossas gavetas eram a cultura marginal e perdida. S\u00f3 uma parte dessa produ\u00e7\u00e3o veio \u00e0 tona ou sobreviveu para participar da grande rede. O resto ficou esquecido, guardado para um futuro alternativo, o tempo imaginado de uma \u00e9poca que no fim n\u00e3o se realizou.<\/p>\n<p>As laudas nos identificavam. Um dia fui convocado para entrevistar o David Drew Zingg, o fot\u00f3grafo-fil\u00f3sofo, que eu, com minha indiferen\u00e7a vocacionada, n\u00e3o conhecia pessoalmente. Sempre cultivei, por in\u00e9rcia, essa percep\u00e7\u00e3o apartada do que chamam realidade. No miolo de todos os furac\u00f5es, imaginava ser redund\u00e2ncia ter que prestar aten\u00e7\u00e3o em cada detalhe, saber quem David era, o cara que levou a bossa nova para os Estados Unidos. Talvez isso eu at\u00e9 soubesse, mas n\u00e3o atinava com o rosto do artista.<\/p>\n<p>Marcamos a entrevista num restaurante, desses s\u00e9rios, que se freq\u00fcentam no hor\u00e1rio do almo\u00e7o. N\u00e3o era nossa inten\u00e7\u00e3o beber o que fosse. Como n\u00e3o sabia quem era meu objeto de reportagem, dei meia volta depois de viajar num plano geral pelos comensais. Foi s\u00f3 eu me virar para ouvir algu\u00e9m gritar meu nome. Como voc\u00ea me reconheceu? perguntei, curioso. Foram as laudas, disse ele. Esse ma\u00e7o de papel que voc\u00ea colocou no bolso de tr\u00e1s da cal\u00e7a.<\/p>\n<p>Era um recurso in\u00fatil, pois por mais que eu caprichasse em meus garranchos nas conversas com minhas v\u00edtimas, jamais os decifrava quando chegava \u00e0 reda\u00e7\u00e3o. Fazia tudo de mem\u00f3ria, pois a mat\u00e9ria se desenvolvia enquanto eu escutava, mais do que perguntava. Sempre gostei de ouvir e at\u00e9 hoje acho a pergunta desnecess\u00e1ria, a n\u00e3o ser quando o entrevistado \u00e9 chato e \u00e9 preciso intervir por pura vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>As janelas que se abriam nas rotinas das reda\u00e7\u00f5es eram as personalidades que nos visitavam, o que nem sempre rendiam mat\u00e9rias. As reda\u00e7\u00f5es eram espa\u00e7os de conviv\u00eancia e de lobby. Como eu n\u00e3o atinava nos verdadeiros objetivos da visita, sempre achava que vinham me ver pelo que eu um dia escrevi nas costas das laudas. Mas eram visitas sinceras. Recebi na Folha o Cacaso, na Senhor o Paulo Leminski (com quem compartilhei uma cerveja com conhaque no meio da tarde em plena Lapa de Baixo) e houve uma \u00e9poca em era interrompido da minha faina (fechar, fechar, fechar) pelo m\u00edmico Ricardo Bandeira, que gostava de falar como ningu\u00e9m. Gostei muito do teu livro, Outono, dizia Bandeira olhando para o infinito. \u00c9 Outubro, eu corrigia, mas ele prestava aten\u00e7\u00e3o em algo mais profundo.<\/p>\n<p>Mas o melhor era a conviv\u00eancia com escritores que existiam nas reda\u00e7\u00f5es. Humberto Werneck olhava desolado para a paisagem suburbana que se avistava da Editora Tr\u00eas e ao som dos trens me dizia: Nei, voc\u00ea conhece algum lugar chamado Lapa que seja bonito? Veja o caso do Rio de Janeiro. E um como esse, que \u00e9 Lapa de Baixo? Num almo\u00e7o numa das biroscas que rodeavam a editora, um dia Jos\u00e9 o\u00adnofre, autor do melhor romance policial brasileiro, Sobra de Guerra (L&amp;PM Editores), tascou essa diante de um horrendo prato feito: J\u00e1 pisei nisso, comer \u00e9 a primeira vez. o\u00adnofre proferia a m\u00e1xima e dava cr\u00e9dito: era a frase de um filme de guerra.<\/p>\n<p>No fundo esse era isso: est\u00e1vamos em guerra. Nossa voca\u00e7\u00e3o lutava com o deadline. As palavras tinham lugar fixo e n\u00e3o s\u00e3o como agora, que somem pelo espa\u00e7o virtual para reaparecer mais adiante. \u00c9ramos esgrimistas de uma l\u00edngua estrangeira, que se tornou nossa por tradi\u00e7\u00e3o e insist\u00eancia. Submet\u00edamos os textos aos mestres, que muitas vezes gargalhavam. Mas tudo acabava no bar.<\/p>\n<p>&#8211; Nei, vamos l\u00e1 embaixo parar de tremer? me dizia Markito (Marco Ant\u00f4nio de Moraes), depois de um fechamento pesado na Ilustrada. Coloc\u00e1vamos refrigerante na parte de cima do balc\u00e3o e vodka na parte debaixo. \u00c9 que \u00e0s vezes \u00e9ramos flagrados pelos capit\u00e3es do jornal, que vinham bebericar algo. Cumpriment\u00e1vamos com a cara lavada e mand\u00e1vamos ver no destilado, depois temperado com cerveja. Essa era a rotina dos jornalistas do eito, os que seguravam a barra dos jornal\u00f5es.<\/p>\n<p>No dia seguinte, recome\u00e7\u00e1vamos colocando uma lauda na m\u00e1quina e definindo o espa\u00e7o. Mas no fundo, quer\u00edamos apenas rabiscar o que nos ocorrera na viagem at\u00e9 ali. Uma frase, um poema, alguma id\u00e9ia perdida. Fomos assim, escritores ambulantes em lugares em que a literatura era proibida. Sem querer, adquirimos o v\u00edcio da escrita di\u00e1ria, pois por tr\u00e1s dos textos que publicamos, existiam outros, ocultos. Os dois tipos cruzaram o tempo e podemos nos orgulhar hoje da maioria deles. Como irm\u00e3os g\u00eameos, que brigam o tempo todo, jornalismo e literatura foram a nossa faina di\u00e1ria, num tempo de guerra.<\/p>\n<p>Nada parece veross\u00edmel, nesta \u00e9poca t\u00e3o distante. Faz sim muito tempo. Mas o que \u00e9 o tempo diante dos loucos que decidiram escrever para viver num pa\u00eds \u00e1grafo? Parece que fazemos parte de um tesouro sem mapa, aterrado por milh\u00f5es de palavras, que ao inv\u00e9s de nos sufocar, nos revelam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As teclas pediam determina\u00e7\u00e3o funda. Dependiam da for\u00e7a dos dedos, desobedientes \u00e0s li\u00e7\u00f5es de datilografia. O h\u00e1bito transformava cada aperto num atalho para o objetivo maior: o fim do compromisso e o in\u00edcio da liberdade. Catar milho era a radicalidade dessa distor\u00e7\u00e3o. A maioria ficava na linha intermedi\u00e1ria, compondo tabelinha entre tr\u00eas dedos, como se escrev\u00eassemos de trivela, com efeito, para que o texto atingisse a maioridade da folha seca e quando chegasse ao \u00e1pice ca\u00edsse miseravelmente no canto indefens\u00e1vel.(Texto publicado no espa\u00e7o Liter\u00e1rio do Comunique-se em 6\/abril\/2006).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1162"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1162"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1162\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1450,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1162\/revisions\/1450"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1162"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1162"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1162"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}