{"id":1164,"date":"2009-12-17T17:23:27","date_gmt":"2009-12-17T19:23:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1164"},"modified":"2009-12-21T20:03:30","modified_gmt":"2009-12-21T22:03:30","slug":"vespera-de-linguagem","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/vespera-de-linguagem","title":{"rendered":"V\u00c9SPERA DE LINGUAGEM"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A palavra n\u00e3o se instala nas criaturas por prazo de validade. N\u00e3o \u00e9 porque a crian\u00e7a completou determinado n\u00famero de meses que estar\u00e1 automaticamente apta para articular a ponte com seus semelhantes. \u00c9 um trabalho \u00e1rduo.Os instrumentos dispon\u00edveis para a fala entram em fase dura de exerc\u00edcio desde o primeiro instante. O choro e, quando necess\u00e1rio, o berro, s\u00e3o as primeiras manifesta\u00e7\u00f5es que servem para alertar sobre o uso dos recados.<\/p>\n<p>Mas entre manifesta\u00e7\u00f5es desse tipo e a primeira palavra, h\u00e1 uma s\u00e9rie de eventos que incluem as nuances definidas pelo som que passa na garganta e depois encontra a gruta onde mora a m\u00e1gica, a l\u00edngua em movimento, os dentes e o c\u00e9u da boca, limites que decidem sobre as consoantes em choque com as vogais trazidas do ber\u00e7o.<\/p>\n<p>Vejo isso na minha neta, que me resgatou a mem\u00f3ria dos beb\u00eas, da qual estava apartado por ter sido pai muito cedo &#8211; aos 24 anos, coincidindo com minhas primeiras reda\u00e7\u00f5es. Quando entrei na Folha da Tarde, da Caldas Junior, abra\u00e7ado a uma vers\u00e3o traduzida e resumida dos Quatro Quartetos, de T. S. Eliot, al\u00e9m de provocar o coment\u00e1rio debochado dos veteranos (&#8220;pronto, mais um intelectual de sovaco&#8221;, disse Jorge Escosteguy) eu no fundo queria levar para o novo of\u00edcio o que me seduzia desde muito cedo: a possibilidade de, num mundo escasso, conseguir sintonizar com a for\u00e7a da perman\u00eancia. Tarefa imposs\u00edvel para quem foi jogado no mundo real, o de contar buracos de rua e fazer plant\u00e3o no aeroporto.<\/p>\n<p>Assim como toda fam\u00edlia espera a primeira palavra com o cora\u00e7\u00e3o na m\u00e3o de tanta ansiedade, no jornalismo fomos empurrados para a cria\u00e7\u00e3o de um estilo, ou seja, a linguagem conquistada com esfor\u00e7o, diante de uma plat\u00e9ia de leitores radicais, os colegas da reda\u00e7\u00e3o. Para isso era preciso humildade. Mas n\u00e3o totalmente naquele ambiente liderado por Walter Galvani, que tinha Danilo Ucha, Luis Fruet, Scotch (que me contava mais tarde, \u00e0s gargalhadas, sua primeira impress\u00e3o sobre o foca que chegava esperan\u00e7oso de ler um livro no intervalo dos textos), entre muitos outros . Fui estimulado a colocar na roda o que me cercava e foi assim que fiz meu primeiro lead inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>A not\u00edcia era saborosa. Um teco-teco vinha pelo campo e bateu numa vaca. O caso foi ao tribunal porque o fazendeiro n\u00e3o se conformou com a perda do animal. O juiz ent\u00e3o perguntou para o piloto:<\/p>\n<p>&#8211; A que altura o senhor vinha voando?<br \/>\n&#8211; A uma altura de meia vaca, Excel\u00eancia, disse o piloto.<br \/>\n&#8211; Pois na pr\u00f3xima vez, advertiu o juiz, venha na altura de vaca e guampa.<\/p>\n<p>A abertura inusitada provocou gargalhadas na reda\u00e7\u00e3o e foi publicada. Foi assim que fui festejado na primeira vit\u00f3ria diante desse trabalho insano que \u00e9 articular as palavras para que todos entendam e fiquem com vontade de ler.<\/p>\n<p>Quando migrei para S\u00e3o Paulo, empurrado pelo estreito mercado de trabalho na terra de origem, cheguei com as fuma\u00e7as daquela festa e imediatamente fui colocado no meu lugar. Woile Guimar\u00e3es me chamou num canto e sussurou: estes lugares comuns que voc\u00ea colocou aqui, seu ga\u00facho, s\u00e3o uma grande porcaria (n\u00e3o exatamente com essa abordagem fam\u00edlia, mas com uma saraivada de outras, ainda impublic\u00e1veis). Redescobri ent\u00e3o que deveria come\u00e7ar de novo, n\u00e3o para agradar o chefe rigoroso, mas porque essa era pedreira que precisava encarar.<\/p>\n<p>No rod\u00edzio que cumpri religiosamente pelos ve\u00edculos, encontrei textos encarnados em pessoas brilhantes. Vi Macedo Miranda, filho, definir os contornos do texto de uma revista, de estrutura circular e com os par\u00e1grafos sintonizados sem nenhum v\u00edcio; vi Ricardo Vespucci, de olho saltado, cinzelar textos perfeitos a partir de mat\u00e9rias de rep\u00f3rteres inigual\u00e1veis como Caco Barcelos e Aud\u00e1lio Dantas; vi Genilson C\u00e9sar e Antenor Nascimento, nas madrugadas, conseguirem repassar para a publica\u00e7\u00e3o pequenas j\u00f3ias do jornalismo e acompanhei o trato com a escrita que Humberto Werneck, Nirlando Beir\u00e3o, Mino Carta e Wagner Carelli davam em cada linha, como se fosse a \u00faltima.<\/p>\n<p>Foi assim que passei o tempo que me deram para viver sobre a terra. Plantado no jornalismo como um eterno aprendiz, me perguntava quando chegaria a hora de tamb\u00e9m colocar preto no branco algo que poderia ler muito tempo mais tarde. Foi nessa luta com a primeira palavra que inaugura um texto para se destacar do rebanho, e que define uma identidade sem esperan\u00e7a de que ela ter\u00e1 perman\u00eancia, que trafeguei entre jornalismo e literatura, como vasos comunicantes que jamais se negam. Era a maneira de encarar os dois of\u00edcios como um s\u00f3, limpando de cada trabalho toda a veleidade que transforma sonho em papel datado.<\/p>\n<p>Uma crian\u00e7a, como o eterno foca, comp\u00f5e a roda de sons com a alegria dos iniciantes, que aprende a sobriedade em contato com quem chegou antes. Depois das vogais dos primeiros instantes, surgem algumas consoantes para desencadear a pressa dos mais velhos. Ela disse m\u00e3e, ela disse v\u00f4, ela disse titio, exultam os adultos. Mas a crian\u00e7a guarda seus segredos trazidos da al\u00e9m vida. Uma s\u00edlaba pode batizar v\u00e1rias coisas e a celebra\u00e7\u00e3o de uma vit\u00f3ria aparente entra em d\u00favida quando a mesma emiss\u00e3o de voz serve para mais de um batismo. \u00c9 cedo ainda, nos dizemos. Ainda n\u00e3o veio a primeira palavra.<\/p>\n<p>Moramos nessa expectativa enquanto a crian\u00e7a deita e rola na v\u00e9spera da linguagem. Ela engatinha, depois anda e aponta com os bracinhos esticados o que quer. P\u00e1ssaros s\u00e3o chamados com gritos agudos. Um choro espec\u00edfico \u00e9 a fruta fora do alcance. Mas chega o momento em que todos correm para registrar o que seria enfim o som, t\u00e3o esperado.<\/p>\n<p>&#8211; Baia baia didi tum, diz a neta, para espanto da assist\u00eancia.<\/p>\n<p>Para que n\u00e3o fiquemos frustrados, ela faz seu gesto caracter\u00edstico: franze o narizinho e emite um sopro que \u00e9 puro charme. Quem precisa de palavra quando o esp\u00edrito \u00e9 vasto e o amor rege nossas vidas fora dos esquemas poderosos que tentam nos esmagar com suas leis?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assim como toda fam\u00edlia espera a primeira palavra com o cora\u00e7\u00e3o na m\u00e3o de tanta ansiedade, no jornalismo fomos empurrados para a cria\u00e7\u00e3o de um estilo, ou seja, a linguagem conquistada com esfor\u00e7o, diante de uma plat\u00e9ia de leitores radicais, os colegas da reda\u00e7\u00e3o. Foi nessa luta com a primeira palavra que inaugura um texto para se destacar do rebanho, e que define uma identidade sem esperan\u00e7a de que ela ter\u00e1 perman\u00eancia, que trafeguei entre jornalismo e literatura, como vasos comunicantes que jamais se negam. Era a maneira de encarar os dois of\u00edcios como um s\u00f3, limpando de cada trabalho toda a veleidade que transforma sonho em papel datado. (Texto originalmente publicado no espa\u00e7o Liter\u00e1rio, do site Comunique-se, em 30\/03\/06).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1164"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1164"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1164\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1571,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1164\/revisions\/1571"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1164"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1164"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1164"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}