{"id":1166,"date":"2009-12-17T17:24:21","date_gmt":"2009-12-17T19:24:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1166"},"modified":"2009-12-21T21:34:48","modified_gmt":"2009-12-21T23:34:48","slug":"ainda-temos-a-terra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/ainda-temos-a-terra","title":{"rendered":"AINDA TEMOS A TERRA"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: x-small;\"><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nO amanhecer est\u00e1 indeciso entre as pinceladas de aurora e a hegemonia do cinza, que as nuvens modelam meio a contragosto. Vaidosas, elas preferem sempre o tempo bom, que a lua nova, no z\u00eanite, anuncia mais uma vez, usando aquele colar invis\u00edvel que traz como pingente a derradeira estrela. Daqui a pouco tudo poder\u00e1 voltar ao normal, mas por enquanto \u00e9 essa flor que brota de um ar fino quase frio. \u00c9 fim de ver\u00e3o e o outono, velho tio encapotado que visita a fam\u00edlia sempre que pode, j\u00e1 envia telegramas pelos p\u00e1ssaros ariscos, desses modernos, que n\u00e3o confiam mais em quintais. Perdemos o principal neste longo tempo duro, que \u00e9 o de ficar confinado em paredes de um domic\u00edlio mutante, mas sempre o mesmo, que nos afasta do que temos de melhor. Sorte de quem vive cercado pela ab\u00f3bada que faz um est\u00e1dio de luz azul sobre seu teto e pode pisar a grama ainda molhada de orvalho, o sangue tardio da noite que se foi.<\/p>\n<p>TRILHA &#8211; Herdamos o para\u00edso, meu pai, e deles fizemos proveito at\u00e9 arrasarmos com tudo. Hoje vivemos sob a amea\u00e7a do eucalipto e da soja, do pasto o\u00adnde deveria haver mato. Quando visitei as cataratas de Igua\u00e7u, junto com alguns engenheiros, avisei: n\u00e3o v\u00e3o destruir isto aqui, como fizeram com as Sete Quedas. Vemos o solo f\u00e9rtil e dele queremos tirar \u00f3leo, \u00e1lcool, enquanto o sol, in\u00fatil, despeja sua for\u00e7a motora sobre os novos desertos. Os ventos sopram em v\u00e3o para que possamos sonhar alternativas que v\u00e3o trazer o saara para c\u00e1. S\u00e3o os \u00faltimos dias do planeta Terra, meu pai, ou sou apenas um p\u00e1ssaro que descobriu ter chegado sua hora de partir? Para o\u00adnde, se j\u00e1 migrei tanto? Para que lugar devo ir, se aqui ainda existe o que dev\u00edamos jamais esquecer, o horizonte pontuado de morros ainda com \u00e1rvores? Para c\u00e1 todos se dirigem, como n\u00e1ufragos de um pesadelo. Chegam e se deparam com o Brasil, esse fabricante do caos, e acabam sentindo saudades do que perderam. Mas \u00e9 cedo para partir. Venha, que te levarei pela trilha.<\/p>\n<p>CHEIRO &#8211; Basta dobrar \u00e0 esquerda daquela estrada que virou rua e est\u00e1 rendilhada de casas que tapam a vista da praia. Entre pelas servid\u00f5es e becos, para se chegar \u00e0s dunas, o\u00adnde alguns carros encostam desabitados. Ali paramos e vamos enfrentar os morros de areia. Cruzamos ent\u00e3o a barreira e no outro lado, junto \u00e0 grande pedra, a praia do Santinho, agora deserta, acaba. Ali fica o pintor da ilha, com seus barcos e naturezas vivas. Saltamos pela subida e vamos at\u00e9 o lugar o\u00adnde existem mist\u00e9rios. L\u00e1 somos rodeados pelas atentas gaivotas. O mar prometia baleia, daqui a pouco tainha. Ou talvez apenas uma tarde de sol, com banho fora de cogita\u00e7\u00e3o, pois a \u00e1gua come\u00e7a a temperar seus sais de inverno. Assim mesmo muitos se arriscam, mergulhados no sonho de viver \u00e0 parte do pa\u00eds constru\u00eddo com ru\u00ednas e metais, enquanto aqui sobra espa\u00e7o para a vista larga, o corpo agradecido e o cheiro de uma paix\u00e3o ardida.<\/p>\n<p>SOL &#8211; O Brasil est\u00e1 voltado para o que perdemos, enquanto a Terra continua no seu esplendor de sempre. Falta-nos a poesia quando o assunto \u00e9 amanhecer. Queremos luta, mas estamos cansados. Quem sabe os primeiros raios de sol que agora batem como setas nos muros deste sub\u00farbio me avisem que \u00e9 hora de parar, de dizer adeus a tanto sofrimento e abra\u00e7ar definitivamente o poema que salva? Pode ser.<\/p>\n<p>CORA\u00c7\u00c3O &#8211; Levanto da cadeira e prometo colocar as coisas em ordem: o cora\u00e7\u00e3o em primeiro lugar, o abra\u00e7o sobre todas as coisas e estas palavras, que servem n\u00e3o para o consolo, mas para a verdade que assoma como uma ventania prestes a depositar as folhas deste outono que chega luminoso e claro como o pa\u00eds que sonhamos.<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 fim de ver\u00e3o e o outono, velho tio encapotado que visita a fam\u00edlia sempre que pode, j\u00e1 envia telegramas pelos p\u00e1ssaros ariscos, desses modernos, que n\u00e3o confiam mais em quintais. Perdemos o principal neste longo tempo duro, que \u00e9 o de ficar confinado em paredes de um domic\u00edlio mutante, mas sempre o mesmo, que nos afasta do que temos de melhor. 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