{"id":1168,"date":"2009-12-18T17:53:53","date_gmt":"2009-12-18T19:53:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1168"},"modified":"2009-12-20T22:50:44","modified_gmt":"2009-12-21T00:50:44","slug":"a-historia-no-acostamento","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-historia-no-acostamento","title":{"rendered":"A HIST\u00d3RIA NO ACOSTAMENTO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>O \u00f4nibus parou e todos desceram. Fiquei l\u00e1 dentro, me perguntando o que tinha acontecido com a viagem. Ao meu redor s\u00f3 havia \u00e1rvores. Est\u00e1vamos num acostamento e at\u00e9 mesmo o motorista sumira. Eu vinha de Porto Alegre, convocado para participar do lan\u00e7amento do Jornal de Santa Catarina. Resolvi descer e perguntar. \u00c9 o fim da linha, me disseram. Isto \u00e9 Blumenau? perguntei. Era. Foi quando conheci Nestor Fedrizzi, que fora chefe da reda\u00e7\u00e3o da Ultima Hora do Rio Grande do Sul por quatro anos, e estava catando jornalista no grito, j\u00e1 que ningu\u00e9m queria ir para o interior de Santa Catarina. Na \u00e9poca eu estava na r\u00e1dio Ga\u00facha, onde conheci Carlos Bastos e Carlos Alberto Kolecza, tamb\u00e9m ex-integrantes da UH (mais tarde, em S\u00e3o Paulo, trabalhei com Mucio Borges da Fonseca, da UH do Recife). No telefone, dissera para Fedrizzi: quero ir, mas estou duro. Pago tua viagem, foi a pronta resposta.<\/p>\n<p>Sem saber, eu estava trafegando no acostamento da Hist\u00f3ria. Naquela reda\u00e7\u00e3o do Vale do Itaja\u00ed, o bra\u00e7o direito de Fedrizzi era Jos\u00e9 Antonio Ribeiro, o Gaguinho, ex-rep\u00f3rter da mesma \u00daltima Hora. Ambos personagens de Jefferson Barros no seu obrigat\u00f3rio Golpe Mata Jornal, da J\u00e1 Editores, que comprei na Feira do Livro de Uruguaiana no ano passado, quando fui patrono a convite da Prefeitura. O livro, que resgata a hist\u00f3ria do jornal assassinado pelo golpe de 64 (com depoimentos de in\u00fameros protagonistas daquela experi\u00eancia \u00fanica), \u00e9 de 1999. Alguns anos depois, o pr\u00f3prio Jefferson encontrou o mesmo destino: morreu na mis\u00e9ria, sozinho, esquecido, num hospital p\u00fablico de Porto Alegre. O ex-editor do Jornal da Nacional, um dos maiores e melhores textos das reda\u00e7\u00f5es por onde passou (Jornal do Brasil, Estad\u00e3o, Correio do Povo etc.), erudito e autodidata, cr\u00edtico de cinema de primeiro time, cometera um crime: entre seus seis livros (romance, poesia, ensaios), escrevera a mais importante an\u00e1lise sobre o assassinato da imprensa brasileira.<\/p>\n<p>Vou dizer porqu\u00ea. Primeiro, porque Jefferson Barros trabalha as contradi\u00e7\u00f5es, os conflitos que regeram o nascimento e o crescimento da cadeia UH, criada por Samuel Wainer. Segundo, porque mergulha fundo nas origens da imprensa ga\u00facha e a situa\u00e7\u00e3o em que se encontrava quando a UH do Rio Grande do Sul veio \u00e0 luz. Terceiro, porque o esp\u00edrito livre do autor n\u00e3o abre m\u00e3o do rigor metodol\u00f3gico. Esse aparente paradoxo &#8211; a liberdade da abordagem vestindo a luva do racionalismo dial\u00e9tico &#8211; faz do texto de Jefferson uma aula de Hist\u00f3ria. Pior para todos n\u00f3s: \u00e9 um roteiro de como a Hist\u00f3ria foi jogada no acostamento.<\/p>\n<p>O que se destaca n\u00e3o \u00e9 apenas a den\u00fancia do assassinato, mas como as contradi\u00e7\u00f5es influ\u00edram para que o jornal perdesse o rumo para depois recuper\u00e1-lo; como seus jornalistas, divididos em correntes diversas, atingiram a unidade quando a on\u00e7a bebeu \u00e1gua (a campanha da legalidade de 1961); e como o golpe de 1964 se prefigurou nos desdobramentos das edi\u00e7\u00f5es, reflexo das poderosas for\u00e7as sociais e pol\u00edticas que engendraram primeiro a vit\u00f3ria democr\u00e1tica da posse de Jango, depois o limbo perigoso do parlamentarismo e finalmente o pesadelo do putsch reacion\u00e1rio, que vitimou a na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A coragem de Jefferson Barros ao colocar todas as cartas na mesa, sem fazer concess\u00e3o para absolutamente ningu\u00e9m, \u00e9 fruto da sua \u00e9tica e de sua lucidez. Seu talento e preparo promovem milagres. Ele n\u00e3o abre m\u00e3o da alegria, pois seu resgate profundo nos leva de rold\u00e3o pelo jornalismo acima, como se, ao ler, f\u00f4ssemos tamb\u00e9m protagonistas. Ao mesmo tempo assume ser o narrador de um choque de trevas, ao abrir o ventre do golpe que abortou o pa\u00eds e ao soprar o p\u00f3 acumulado nas hostes progressistas, nacionalistas, esquerdistas e populares. Mas toma posi\u00e7\u00e3o firme a favor do projeto que morreu nos bra\u00e7os do povo: sua obra, especialmente o \u00faltimo cap\u00edtulo, &#8221; Sil\u00eancio suspeito sobre \u00edcones jacobinos&#8221;,em que faz um paralelo entre o governo de Robespierre e a experi\u00eancia da \u00daltima Hora ga\u00facha, \u00e9 uma pe\u00e7a da cultura pol\u00edtica do pa\u00eds que n\u00e3o deveria faltar na biblioteca de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Jefferson Barros n\u00e3o \u00e9 bem-vindo em nenhum reduto, a n\u00e3o ser nos que contam com a verdade. Por isso merece estar junto conosco, ele que se foi precocemente, reconhecido por seus pares, mas desconhecido das novas gera\u00e7\u00f5es. Nesta \u00e9poca em que impera o deserto, o melhor de n\u00f3s est\u00e1 enterrado em algum ba\u00fa, em algum canto, em algum ermo nos rinc\u00f5es desconhecidos da imensa p\u00e1tria. Precisamos dessa voz silenciada, desse texto liberto, dessa guinada que um escritor d\u00e1, \u00e0 custa da pr\u00f3pria vida, para tirar a Hist\u00f3ria do desvio e jog\u00e1-la de novo na rota segura do entendimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No seu obrigat\u00f3rio &#8220;Golpe Mata Jornal&#8221; (J\u00e1 Editores) Jefferson Barros trabalha as contradi\u00e7\u00f5es, os conflitos que regeram o nascimento e o crescimento da cadeia de jornais Ultima Hora, criada por Samuel Wainer. Mergulha fundo nas origens da imprensa ga\u00facha e a situa\u00e7\u00e3o em que se encontrava quando a UH do Rio Grande do Sul veio \u00e0 luz. O esp\u00edrito livre do autor n\u00e3o abre m\u00e3o do rigor metodol\u00f3gico. Esse aparente paradoxo &#8211; a liberdade da abordagem vestindo a luva do racionalismo dial\u00e9tico &#8211; faz do texto de Jefferson uma aula de Hist\u00f3ria. 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