{"id":1172,"date":"2009-12-18T17:55:38","date_gmt":"2009-12-18T19:55:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1172"},"modified":"2009-12-21T00:44:02","modified_gmt":"2009-12-21T02:44:02","slug":"ombros-diurnos-da-lua","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/ombros-diurnos-da-lua","title":{"rendered":"OMBROS DIURNOS DA LUA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>A Lua flutua na manh\u00e3 com sua t\u00fanica transparente caindo pelos ombros. \u00c9 uma roupa formada pela neblina que o excesso de luz bordou ao redor, talvez para cobri-la diante do esc\u00e2ndalo de aparecer assim, quando as estrelas j\u00e1 se despediram e o forro de veludo da noite sumiu de vista. Ela est\u00e1 acordada por algum motivo e pousa no algod\u00e3o do ar com o rosto quase impass\u00edvel. Noto que est\u00e1 transfigurada no c\u00e9u sem nuvens.<\/p>\n<p>Talvez, por ser de dia, nos ache estranhos, n\u00f3s que a amamos tanto quando o denso forro da noite desce sobre os telhados. E nos enxergue andando penosamente numa civiliza\u00e7\u00e3o de metais, em meio a barulhos que jamais formam uma nota. Andamos de costas para essa presen\u00e7a estranha no limite do Ver\u00e3o inesquec\u00edvel. Todos se voltam para algum objetivo, esquecidos da Lua, ainda embalada por algumas can\u00e7\u00f5es e seduzida pela capacidade que temos, sem o testemunho do Sol, de sermos de outra natureza, mais perto da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a diferen\u00e7a entre a noite que nos revela e o dia que nos seq\u00fcestra. A civiliza\u00e7\u00e3o s\u00f3 existe quando h\u00e1 Lua. Ela se acostumou ao nosso lamento, ao olhar que lan\u00e7amos, da varanda, para o brilho que emite. Acompanhamos seu v\u00f4o noturno, ocupados em tecer met\u00e1foras e compor mem\u00f3rias. N\u00e3o somos nada disso quando acordamos. Ficamos dependurados em trens de carne exposta em fuligem, nos atropelamos pelas cal\u00e7adas cada vez mais estreitas, avan\u00e7amos sobre nossos semelhantes como se f\u00f4ssemos uma tribo de b\u00e1rbaros em fuga.<\/p>\n<p>De costas para a Lua, nos amontoamos nos escrit\u00f3rios e tentamos tirar dos outros o que mais nos falta: o insumo da sobreviv\u00eancia escassa, enquanto perdemos aos poucos o vi\u00e7o e somos acompanhados pelos mo\u00e7os, que olham penalizados o corpo exposto assim sem cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>Mas, trafegando pelo mundo insano, guardamos o que temos de luar. Por isso sentimos que ela vem nos visitar com imenso espanto. Ela n\u00e3o sabia que as criaturas poderiam um dia sair debaixo da sua saia. Que pod\u00edamos resgatar a princesa num p\u00e1tio diurno e no dorso de um potro mau lev\u00e1-la para o prazer que s\u00f3 existe nas nuvens.<\/p>\n<p>Ela se diverte com isso, a Lua, mestra dos disfarces. Imaginava que tinha apenas a companhia consciente das bruxas, j\u00e1 que dos b\u00eabados jamais levou a m\u00ednima f\u00e9. \u00c9 f\u00e1cil derrubar na cal\u00e7ada algu\u00e9m cheio de \u00e1lcool na cabe\u00e7a, mas \u00e9 preciso respeitar as donas dos caldeir\u00f5es, as antigas senhoras com poderes sobrenaturais. No passeio no Sol a pino, a Lua disfar\u00e7a a surpresa ao descobrir nas gentes o que imaginava ser apenas conversa jogada fora em serestas antigas. As pessoas s\u00e3o capazes de sair dos len\u00e7\u00f3is de linho para palmilhar o p\u00f3 da ingratid\u00e3o, nessa vida sem lua. De desviver, se \u00e9 poss\u00edvel conjugar esse verbo, at\u00e9 o limite das preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Agora sabe que tudo pode acontecer na terra que ela enxerga a dist\u00e2ncia. Nesse espa\u00e7o que roda diante de si, nessa terra misteriosa de olhos de \u00e1gua e tremores de f\u00faria, h\u00e1 mais mist\u00e9rios do que pode sonhar.<\/p>\n<p>A apari\u00e7\u00e3o diurna \u00e9 fruto dessa vontade de nos conhecer melhor, de decifrar nossos segredos. Mas ela \u00e9 apenas a Lua, n\u00e3o uma divindade. \u00c9 flagrada pelo impacto de um dia do Ver\u00e3o terminal e aparece assim, na sala de confer\u00eancias, ainda tonta de sono, encantadora em magn\u00edfica vestimenta de festa que se estendeu at\u00e9 estrela Dalva. \u00c9 a Imperatriz que irrompe nos neg\u00f3cios de Estado, colocando todos os homens de p\u00e9 e as mulheres em breve rever\u00eancia.<\/p>\n<p>Ela flutua ent\u00e3o de p\u00e9s descal\u00e7os, a Lua, esse soberbo encantamento que nenhuma palavra \u00e9 capaz de descrever em sua totalidade. Nem mesmo a poesia, irm\u00e3 g\u00eamea, que diante dela se curva como se tivesse encontrado uma rainha, soberba em tirano esplendor. Sabemos apenas que ela, de dia, surge do nada e para o nada retorna, como se fosse m\u00e1gica. Talvez, diante do susto que provoca, tenha recorrido a alguma maquiagem excessiva, que por ser feita de puro cristal, a limpou definitivamente do c\u00e9u. Este, ermo de lua, volta a nos pertencer, como um presente devolvido no dia seguinte ao rompimento de um noivado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Lua flutua na manh\u00e3 com sua t\u00fanica transparente caindo pelos ombros. \u00c9 uma roupa formada pela neblina que o excesso de luz bordou ao redor, talvez para cobri-la diante do esc\u00e2ndalo de aparecer assim, quando as estrelas j\u00e1 se despediram e o forro de veludo da noite sumiu de vista. Ela est\u00e1 acordada por algum motivo e pousa no algod\u00e3o do ar com o rosto quase impass\u00edvel. Noto que est\u00e1 transfigurada no c\u00e9u sem nuvens. (Cr\u00f4nica publicada no caderno Dona DC, do Di\u00e1rio Catarinense, no dia 26\/02\/2006)<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1172"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1172"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1172\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1516,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1172\/revisions\/1516"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1172"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1172"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1172"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}