{"id":1174,"date":"2009-12-18T17:56:36","date_gmt":"2009-12-18T19:56:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1174"},"modified":"2009-12-20T22:40:02","modified_gmt":"2009-12-21T00:40:02","slug":"cinderela-americana","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/cinderela-americana","title":{"rendered":"CINDERELA AMERICANA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Dois filmes quase id\u00eanticos, Pretty Woman e Maid in Manhattan, abordam o tema Cinderela na sociedade de classes dos Estados Unidos. As mulheres, Julia Roberts no primeiro (branca, solteira e prostituta) e Jennifer Lopez (morena, separada e camareira) no segundo, s\u00e3o a parte exclu\u00edda da hist\u00f3ria, que agarram a \u00fanica chance da vida diante de um pr\u00edncipe encantado. Richard Gere, o sucateador de empresas da globaliza\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria, e Ralph Finnes, o republicano honesto com um p\u00e9 na insinceridade da campanha eleitoral e da rela\u00e7\u00e3o com as mulheres, se justificam pelo dinheiro e o poder, mas s\u00e3o vulner\u00e1veis num ponto (exatamente onde Cinderela vai atacar): traem seus ideais, e ser\u00e3o redimidos pelo sentimento por mulheres exclu\u00eddas. Mas esse encontro n\u00e3o acontecer\u00e1 se as mulheres assumirem sua condi\u00e7\u00e3o de classe.<\/p>\n<p>Como Cinderela, elas precisam parecer da elite e para isso s\u00f3 h\u00e1 um jeito: um banho de loja. A fada madrinha (em ambos os filmes, o camareiro-chefe) \u00e9 aquela que avisa: vista-se para a ocasi\u00e3o, mas lembre-se que voc\u00ea \u00e9 maldita por pertencer a outra classe social. N\u00e3o abuse da sorte. Apare\u00e7a e quando chegar a hora, suma. \u00c9 o que acontece. Mas a segunda chance j\u00e1 estava plantada para o desfecho feliz.<\/p>\n<p>BANDEIRA &#8211; Maid in Manhattan \u00e9 um filme sobre a segunda chance&#8230;de Richard Nixon. Parece brincadeira, mas \u00e9 a pura verdade. O filho da protagonista, um garoto de dez anos, est\u00e1 invocado com Nixon, um presidente que mentiu, mas ao mesmo tempo abriu o mundo ocidental para o Leste. Ralph Finnes \u00e9 um candidato republicano a senador e tem todo o carisma de algu\u00e9m confi\u00e1vel. A bandeira nacional, presen\u00e7a obrigat\u00f3ria em todos os filmes americanos, \u00e9 uma esp\u00e9cie de anjo que desce sobre os cidad\u00e3os novaiorquinos. O filme \u00e9 de 2002 e certamente tem algum link com as elei\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que apresenta os republicanos como confi\u00e1veis, capazes de se envolver amorosamente com o povo desprotegido, representado por Jennifer, que vive sem marido com o filho. O candidato republicano \u00e9 o marido que aparece de repente: rico, famoso, protetor e apaixonado. Apesar de o filme ser essa grande bobagem, fruto da certeza que os produtores de cinema t\u00eam que todo mundo n\u00e3o passa de um bando de babacas, JLopez est\u00e1 emocionante. Totalmente vestida, ela se expressa pelas roupas e jamais pela exposi\u00e7\u00e3o do corpo. J\u00e1 a serial smiler Roberts exibe o charme da mulher dispon\u00edvel, que ao se apaixonar encarna o resgate de uma conduta honesta.<\/p>\n<p>DESVIO &#8211; Nos dois filmes, a exclus\u00e3o social e o desvio de conduta s\u00e3o irm\u00e3s g\u00eameas. Por ser pobre, JLopez n\u00e3o resiste e prova o vestido da milion\u00e1ria, e o que \u00e9 pior, n\u00e3o entrega que n\u00e3o \u00e9 o que parece. Por ser puta, JRoberts vende seu charme por dinheiro. Ambas caem numa arapuca: no momento em que se apaixonam (por terem colocado a m\u00e1scara da inclus\u00e3o social, as roupas), cai a m\u00e1scara do desvio de conduta. Ela merece uma segunda chance, diz o garoto para o candidato. O homem &#8220;de bem&#8221;, republicano, d\u00e1 uma colher de ch\u00e1 \u00e0 mentirosa e casa com ela. Mas ao assumir o romance, ele faz um pacto com a credibilidade. Conto com seu voto? ele pergunta. Vamos ver, ela responde.<\/p>\n<p>O investidor de cora\u00e7\u00e3o seco n\u00e3o consegue desvencilhar-se da mulher com a qual conviveu por mais de uma semana, paga por ele, e acaba nos bra\u00e7os dela, numa apoteose rid\u00edcula de bra\u00e7os abertos e limousine prateada. Ao reconhecer a Outra, Gere redime-se da sua condi\u00e7\u00e3o de homem mau dos neg\u00f3cios. Uma coisa admir\u00e1vel nos americanos \u00e9 a sua intensa e profissional cara de pau. Eles n\u00e3o t\u00eam vergonha nenhuma de mentir e apostam que enganam todo o povo o tempo todo, contrariando assim a m\u00e1xima do fundador da na\u00e7\u00e3o, Abraham Lincoln.<\/p>\n<p>CARISMA &#8211; \u00c9 preciso acrescentar a releitura americana de um detalhe fundamental do mito Cinderela: o de que a protagonista \u00e9 uma nobre ca\u00edda, que o destino imp\u00f4s uma situa\u00e7\u00e3o de empregada dom\u00e9stica, e que, com o baile, tem a chance de recuperar sua condi\u00e7\u00e3o natural perdida. Nos Estados Unidos, onde a nobreza s\u00e3o os valores e princ\u00edpos fundadores da na\u00e7\u00e3o, basta a determina\u00e7\u00e3o e a sorte para a exclu\u00edda ascender ao para\u00edso da terra de oportunidades. \u00c9 mais uma mentira, pois uma camareira como JLopez ou uma prostituta de rua como Julia Roberts j\u00e1 possuem o carisma natural e o filme apenas finge que elas s\u00e3o o que parecem. A nobreza est\u00e1 no nome das superstars. A hist\u00f3ria \u00e9 apenas a \u00e1gua-com-a\u00e7\u00facar para o ch\u00e1 amargo da brutalidade da divis\u00e3o de classes no Imp\u00e9rio, coisa que se estende por todo o seu quintal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois filmes quase id\u00eanticos, Pretty Woman e Maid in Manhattan, abordam o tema Cinderela na sociedade de classes dos Estados Unidos. As mulheres, Julia Roberts no primeiro (branca, solteira e prostituta) e Jennifer Lopez (morena, separada e camareira) no segundo, s\u00e3o a parte exclu\u00edda da hist\u00f3ria, que agarram a \u00fanica chance da vida diante de um pr\u00edncipe encantado. 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