{"id":1180,"date":"2009-12-18T18:11:54","date_gmt":"2009-12-18T20:11:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1180"},"modified":"2009-12-20T21:31:44","modified_gmt":"2009-12-20T23:31:44","slug":"exclusao-sem-choro-nem-vela","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/exclusao-sem-choro-nem-vela","title":{"rendered":"EXCLUS\u00c3O SEM CHORO NEM VELA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Falar em exclus\u00e3o \u00e9 cair em in\u00fameras armadilhas. Primeiro, ceder \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de fazer um diagn\u00f3stico recorrente entre todos os grupos que se sentem prejudicados pela falta de aten\u00e7\u00e3o. Segundo, pagar o mico de se passar por uma pessoa dedicada \u00e0s lamenta\u00e7\u00f5es. Terceiro, correr o risco de cometer injusti\u00e7as, atacando quem n\u00e3o deve ser atacado.<\/p>\n<p>A sa\u00edda \u00e9 usar um velho instrumento do jornalismo: focar o tema objetivamente, limpar a argumenta\u00e7\u00e3o de qualquer s\u00edndrome e evitar ao m\u00e1ximo atirar no alvo errado. Em pratos limpos: vamos falar de exclus\u00e3o, centrando fogo no boicote expl\u00edcito \u00e0 diversidade das manifesta\u00e7\u00f5es do talento na m\u00eddia.<\/p>\n<p>Quem trabalha em reda\u00e7\u00e3o sabe: os ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, em geral, n\u00e3o gostam de arriscar em pessoas desconhecidas e por isso vivem ocupados com as mesmas personalidades. \u00c9 um v\u00edcio de marketing: voc\u00ea reitera o Mesmo, que pode ser rapidamente identificado. H\u00e1 tamb\u00e9m um fator estrat\u00e9gico: destacar algu\u00e9m desconhecido significa, num sistema de vasos comunicantes, insuflar o prest\u00edgio do jornalista ou do ve\u00edculo em quem n\u00e3o tem ainda prest\u00edgio. \u00c9 o famoso &#8220;colocar azeitona na empadinha alheia&#8221;. E, o contr\u00e1rio, reportar algu\u00e9m famoso \u00e9 pegar carona na aten\u00e7\u00e3o que ele vai despertar entre os leitores.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um sistema que pode ser enquadrado nos maus h\u00e1bitos, mas n\u00e3o na falta de \u00e9tica. O bicho pega quando h\u00e1 sistem\u00e1tica oposi\u00e7\u00e3o a determinados artistas ou autores, as famosas listas negras que, como as listas que correm pelas CPIs, oficialmente n\u00e3o existem, mas que las hay, las hay.<\/p>\n<p>O jornalismo que reporta fatos culturais costuma ocupar enormes espa\u00e7os com alguns autores ou artistas eleitos. Como h\u00e1 um gargalo &#8211; a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 muito maior do que o n\u00famero de ve\u00edculos importantes &#8211; o \u00e1libi \u00e9 o chamado crit\u00e9rio, que poderia ser sintoma de sa\u00fade se a sele\u00e7\u00e3o obedecesse \u00e0 \u00e9tica, mas torna-se doentia pelo excesso de repeti\u00e7\u00e3o e pela m\u00e1 vontade mais de uma vez comprovada. O problema \u00e9 que essa exclus\u00e3o n\u00e3o se limita \u00e0 m\u00eddia: num efeito domin\u00f3, os autores exclu\u00eddos n\u00e3o s\u00e3o convidados para antologias, n\u00e3o fazem parte da percep\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e jamais s\u00e3o lembrados nas premia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Acho esse comportamento muito estranho pois, veterano na profiss\u00e3o, sempre me pautei pelo comportamento oposto. Um dia, na Folha de S. Paulo (final dos anos 70), descobri que os Novos Baianos estavam no Index. Resolvi perguntar: eram os propriet\u00e1rios da empresa, eram os jornalistas que ocupavam os cargos mais importantes, era algu\u00e9m influente que interferia na pauta? Descobri que a proibi\u00e7\u00e3o existia, mas n\u00e3o consegui identificar a fonte do an\u00e1tema. Como ningu\u00e9m vestiu a carapu\u00e7a (esconderam-se diante do confronto?), fiz mat\u00e9ria sobre o grupo e depois mais outros textos.<\/p>\n<p>Lembro que acontecia o mesmo em rela\u00e7\u00e3o ao Teatro Oficina, pelo menos naquela \u00e9poca logo depois da sa\u00edda de Tarso de Castro. Fui num ensaio e o Z\u00e9 Celso levou um susto: a Folha est\u00e1 aqui? Dei a mat\u00e9ria na primeira p\u00e1gina da Ilustrada.<\/p>\n<p>Na revista Senhor, de Mino Carta, publiquei um resenha enorme (de autoria de algu\u00e9m que n\u00e3o lembro mais) sobre &#8220;As veias abertas da Am\u00e9rica Latina&#8221; , de Eduardo Galeano, que j\u00e1 era best-seller, mas n\u00e3o tinha merecido ainda a aten\u00e7\u00e3o da imprensa. Quem me sugeriu a pauta foi o Luiz Schwarz, ent\u00e3o executivo da Brasiliense.<\/p>\n<p>Ainda na Ilustrada, achei estranho que ningu\u00e9m entrevistava o Mario Chamie, poeta important\u00edssimo e intelectual de primeira linha, que tinha assumido o cargo de Secret\u00e1rio de Cultura do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo. Era porque o prefeito era malufista, o Reinaldo de Barros. Dei uma capa na Ilustrada.<\/p>\n<p>Hoje, tenho acesso \u00e0s p\u00e1ginas do Di\u00e1rio Catarinense, onde divulguei autores como Marco Celso Viola, que publicou seu primeiro grande livro em 35 anos de of\u00edcio po\u00e9tico que mereceu algumas linhas de resenhistas tentando coloc\u00e1-lo na gaveta dos anos 70. Em Porto Alegre, fui falar com o grande escritor J.A. Pio de Almeida, que escreveu pelo menos uma obra-prima, As Brasinas, feixe de pequenos contos sobre pessoas e viv\u00eancia do pampa. Ele fez a edi\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio bolso e jamais divulgaram o livro.<\/p>\n<p>Pio de Almeida, na visita que fiz \u00e0 sua casa, lembrou que na \u00e9poca em que era secret\u00e1rio de reda\u00e7\u00e3o do Correio do Povo, convivia diariamente com escritores que n\u00e3o sa\u00edam da sua sala. Hoje esses escritores t\u00eam fama e poder, mas esqueceram de Pio de Almeida, que \u00e9 autor de poucos livros, a maioria de poesia e tem uma gaveta cheia, especialmente de suas cr\u00f4nicas, que por d\u00e9cadas publicou na imprensa ga\u00facha. Onde est\u00e3o os editores de cultura, os rep\u00f3rteres, que n\u00e3o v\u00e3o entrevist\u00e1-lo?<\/p>\n<p>Como autor de quatro livros, dois deles publicados neste s\u00e9culo por duas editoras importantes (Globo e Francis), que n\u00e3o mereceram nem uma nota na grande imprensa (com exce\u00e7\u00e3o da Isto\u00e9), me identifico plenamente com a cr\u00edtica a esses maus costumes. Quando pedi para ler, no ano passado, um romance publicado em 1999 por uma pequena editora do Recife (Baga\u00e7o), fiquei abismado: o livro n\u00e3o tinha merecido qualquer refer\u00eancia na m\u00eddia.<\/p>\n<p>Consegui publicar a resenha no Rascunho e aproveitei a chance: como n\u00e3o houvera nenhuma manifesta\u00e7\u00e3o, eu poderia afirmar que esse era o mais importante livro dos \u00faltimos vinte anos. Logo depois, foi publicado um ranking com os livros mais importantes da literatura brasileira dos \u00faltimos 15 anos. Claro, sem se referir a &#8220;Cora\u00e7\u00f5es futuristas&#8221;, de Urariano Mota, tema da minha resenha. Faz sentido. Tinham esquecido de rankear as publica\u00e7\u00f5es e tomaram provid\u00eancias antes que a exclus\u00e3o fosse definitivamente rompida.<\/p>\n<p>Uma das exclus\u00f5es mais gran\u00edticas foi a de Tarso de Castro. Publiquei uma cr\u00f4nica no meu site, Cinco vezes Tarso de Castro, h\u00e1 alguns anos atr\u00e1s. O texto emocionou o jornalista Jary Cardoso, que estava envolvido com o projeto de um livro sobre Tarso, que foi assumido de maneira brilhante por um dos seus filhos, Tom Cardoso. Tarso que \u00e9 Tarso, que mudou a imprensa do pa\u00eds, foi jogado no limbo, o que resta para os outros? A exclus\u00e3o \u00e9 inumer\u00e1vel e tema importante para o debate.<\/p>\n<p>Meu dign\u00f3stico: a fonte da exclus\u00e3o s\u00e3o os interesses de grupos, encastelados na cultura, que \u00e9 um fator de ascens\u00e3o social, como lembrava diariamente o Pl\u00ednio Marcos na Folha da \u00e9poca do Tarso; a exclus\u00e3o se manifesta pela ocupa\u00e7\u00e3o de vastos latif\u00fandios na m\u00eddia, deixando de lado a diversidade do talento, que assim fica sufocado e n\u00e3o chega ao p\u00fablico; a exclus\u00e3o cultural na m\u00eddia \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o de uma exclus\u00e3o maior, provocado pela ditadura financeira, focada na superconcentra\u00e7\u00e3o de renda; a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 no limite, pois a Internet est\u00e1 fazendo \u00e1gua nesse cerco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu dign\u00f3stico: a fonte da exclus\u00e3o s\u00e3o os interesses de grupos, encastelados na cultura, que \u00e9 um fator de ascens\u00e3o social, como lembrava diariamente o Pl\u00ednio Marcos na Folha da \u00e9poca do Tarso; a exclus\u00e3o se manifesta pela ocupa\u00e7\u00e3o de vastos latif\u00fandios na m\u00eddia, deixando de lado a diversidade do talento, que assim fica sufocado e n\u00e3o chega ao p\u00fablico; a exclus\u00e3o cultural na m\u00eddia \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o de uma exclus\u00e3o maior, provocado pela ditadura financeira, focada na superconcentra\u00e7\u00e3o de renda; a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 no limite, pois a Internet est\u00e1 fazendo \u00e1gua nesse cerco.(Texto publicado originalmente no Comunique-se, na se\u00e7\u00e3o Em Pauta, em 16\/02\/06)<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1180"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1180"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1180\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1433,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1180\/revisions\/1433"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1180"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1180"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1180"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}