{"id":1182,"date":"2009-12-18T18:12:51","date_gmt":"2009-12-18T20:12:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1182"},"modified":"2009-12-20T20:42:33","modified_gmt":"2009-12-20T22:42:33","slug":"joao-gilberto-o-esplendor-da-fala","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/joao-gilberto-o-esplendor-da-fala","title":{"rendered":"JO\u00c3O GILBERTO, O ESPLENDOR DA FALA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Ser contempor\u00e2neo de Jo\u00e3o Gilberto \u00e9 pura armadilha. Corremos o risco de nos enredar nas palavras que inventaram para ele, que todos conhecem e n\u00e3o \u00e9 prudente lembrar. Para escapar da arapuca, \u00e9 preciso v\u00ea-lo na ultra-densidade da sua transcend\u00eancia. Pois n\u00e3o h\u00e1 criador mais completo na sua obra, mais coerente na sua trajet\u00f3ria, mais louco na sua obsess\u00e3o, mais profundo na sua originalidade, mais irritante na sua teimosia.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 s\u00f3 isso, como o bai\u00e3o, e exatamente por isso torna-se maior do que o universo armado pela voz e o viol\u00e3o. Ao mesmo tempo, a esses dois instrumentos se reporta o tempo todo, pois eles representam, encarnam e projetam a verdade que deveria nos acompanhar sempre: a de que somos eternos, conscientes desde o in\u00edcio dos tempos e temos sempre a chance de voltar a esse brilho, que ao escutar, conhece.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Gilberto se presta ao exagero: a \u00fanica coisa que lhe faz sombra \u00e9 o sil\u00eancio, ch\u00e3o que palmilha devagar, com o passo que inventou nesta terra sem sentido e neste pa\u00eds assassinado. E se temos hoje uma l\u00edngua, \u00e9 porque Jo\u00e3o Gilberto resgatou-a, reinventando cada s\u00edlaba, pronunciando cada palavra, como um instaurador de milagres, e um fundador que n\u00e3o se contenta em apenas descobrir, mas cavar e levantar a estrutura completa de uma na\u00e7\u00e3o que hoje mora dentro de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Por isso \u00e9 insuport\u00e1vel, pois para existirmos precisamos nos calar diante dele. N\u00e3o podemos nos dar o luxo de emitir qualquer ru\u00eddo, v\u00edcio que hoje nos corrompe e mata. Jo\u00e3o Gilberto exige o sil\u00eancio para que possamos notar n\u00e3o a m\u00fasica, nem suas vestimentas, como harmonia ou ritmo. Notar no sentido de reconhecer a nota, saber o\u00adnde ela se encontra, o que ela faz, a quem se refere e porque existe por si s\u00f3, vibrando por ser filha do infinito. Se notarmos, estaremos salvos porque aprenderemos a existir fora da brutalidade sonora que s\u00e3o as barras da jaula. Seremos livres, n\u00e3o porque veio o salvador, mas porque notamos o que nos falta. Assim, podemos chegar ao outro lado do rio da morte sem pagar tributo para o barqueiro sinistro.<\/p>\n<p>\u00c9 crime, portanto, achar que voc\u00ea pode fazer ru\u00eddo quando Jo\u00e3o Gilberto est\u00e1 em a\u00e7\u00e3o, emitindo o caldo original de uma cultura, a express\u00e3o mais elevada desta meta-ra\u00e7a brasileira, como queria Gilberto Freyre, definida pela viv\u00eancia, a geografia, a mistura, a diversidade. N\u00e3o se p\u00f5e Jo\u00e3o Gilberto ao entardecer para ver o tempo passar, mas para vislumbrar essa porta entre os mundos, como queria Juan Mattus, em que temos um p\u00e9 na mis\u00e9ria e outro no mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>O que ele faz n\u00e3o precisa de nada, nem do estalar de dedos, nem dos conceitos sobre jazz ou samba. N\u00e3o tilinte copos ou bata caixa de f\u00f3sforos, nem perten\u00e7a a qualquer religi\u00e3o sonora conhecida. Por se vergar ao alicerce, por se dedicar \u00e0 coluna mestra, por se circunscrever ao quintal, Jo\u00e3o Gilberto atingiu a ess\u00eancia. Desse pequeno aster\u00f3ide armou a flor da sua conversa.<\/p>\n<p>Ao nos calar, descobrimos o anjo inventado pelo ouvido absoluto. H\u00e1 um silencioso ruflar de asas por tr\u00e1s de cada fala dita pelo criador. Esse esplendor toma conta de um espa\u00e7o concreto, como uma ab\u00f3bada, como se a arquitetura se revoltasse contra as formas e decidisse viver apenas desse banquete m\u00ednimo, que vem de uma fonte infinita e parte para outra, id\u00eantica, como p\u00e1ssaros tontos salvos pela busca do Eldorado.<\/p>\n<p>Devemos sair desse recinto sem mexer a cadeira, para n\u00e3o despertar o esc\u00e2ndalo. Devemos sumir de vista, para que s\u00f3 exista esse escutar cont\u00ednuo. Que de repente se fecha como um casulo, se recolhe como um rochedo na gruta. \u00c9 enfim o sil\u00eancio, mas modificado: agora, depois de ouvir Jo\u00e3o Gilberto, sabemos quem somos e podemos contemplar a quietude sem nos desesperar. N\u00e3o precisamos de barulho para dizer a que viemos. Temos Jo\u00e3o Gilberto, que est\u00e1 entre n\u00f3s, como um irm\u00e3o poderoso, uma visita noturna, uma refei\u00e7\u00e3o vespertina. De manh\u00e3, dormimos o sono solto da boa aventuran\u00e7a, pois h\u00e1 um sino modificado em cada momento, que desfez o metal reiventando a pomba.<\/p>\n<p>Somos o pa\u00eds articulado pelo esplendor da fala de Jo\u00e3o Gilberto, que dispensa palavras, por t\u00ea-las sempre ao redor como um coro de crian\u00e7as.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Gilberto se presta ao exagero: a \u00fanica coisa que lhe faz sombra \u00e9 o sil\u00eancio, ch\u00e3o que palmilha devagar, com o passo que inventou nesta terra sem sentido e neste pa\u00eds assassinado. 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