{"id":1184,"date":"2009-12-18T18:13:30","date_gmt":"2009-12-18T20:13:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1184"},"modified":"2009-12-21T11:08:50","modified_gmt":"2009-12-21T13:08:50","slug":"sentinelas-do-reino","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/sentinelas-do-reino","title":{"rendered":"SENTINELAS DO REINO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>O Ver\u00e3o cumpriu todas as promessas. Torrou de azul o dia intermin\u00e1vel. Lavou o corpo seco jogado fora pelo longo Inverno. Bordou de rendas a \u00e1gua clara das manh\u00e3s e a tintura anil do entardecer tranq\u00fcilo. A lua cheia compareceu para iluminar o noturno pio dos nossos sonhos. Quem poder\u00e1 queixar-se desta temporada que chegou ao esplendor? A esperan\u00e7a exangue temia tempestades. O fungo da pele grudava para sempre. O tom cinzento do olhar suspirava o desamor com a paisagem. Mas o Ver\u00e3o assumiu o perfil de um deus poderoso que inunda de vibra\u00e7\u00e3o os planos adiados.<\/p>\n<p>H\u00e1 ressaca de tanto mar. Pedimos rede, quando dev\u00edamos estar na praia. Bebemos \u00e1gua que jamais mata qualquer sede. Passamos ung\u00fcentos milagrosos nos bra\u00e7os e pernas que exigem massagem. O cabelo perdeu o prumo, o andar deixa-se levar pela escassa brisa e aparecemos para amigos distantes que chegam de repente. Demonstramos para eles essa falta de presen\u00e7a, essa identidade perdida, esse misturar-se \u00e0 areia e \u00e0s plantas. Perguntam sobre nossos la\u00e7os antigos, mas n\u00e3o estamos mais naquele lugar. Somos agora habitantes de uma ilha, invadida pela ansiedade, perplexa diante do futuro, saudosa de sua paz perdida. Somos habitantes da falta que tudo isso faz em qualquer cidade, somos os que largaram tudo para viver na imagina\u00e7\u00e3o cevada em janelas tomadas pelo ru\u00eddo.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabemos mais quem somos. Alguns de n\u00f3s voltam para suas origens e l\u00e1 aparecem fora dos certames da civiliza\u00e7\u00e3o encerrada em redomas de polui\u00e7\u00e3o e vidro. Aos poucos voltam ao normal, mas n\u00f3s somos diferentes. N\u00f3s apostamos alto no que nos escapava e hoje vemos que o custo desse passo era a alma que t\u00ednhamos gerado em d\u00e9cadas de cruzadas e carreiras. Por isso n\u00e3o atendemos aos chamados, estamos ocultos como a flecha do v\u00f4o do gavi\u00e3o que busca a presa. Deixamos que vejam as gaivotas, as corujas, as pombas. Porque o importante \u00e9 ser a rapina de algo ainda por vir, e que pertence sim ao Ver\u00e3o, mas a ele n\u00e3o se circunscreve. Viramos o enigma que ainda n\u00e3o deciframos.<\/p>\n<p>Sabemos o quanto se enganam, os futuros habitantes que escolhem a ilha porque hoje devoram ostras e camar\u00f5es com licores \u00e1rticos. Sabemos o quanto \u00e9 imposs\u00edvel cruzar os meses de chuva e frio, a maresia que sobe no ar e se congela dentro de n\u00f3s. Sabemos o quanto doem as ruas de barro, o dinheiro escasso, o tr\u00e2nsito cada vez mais apertado. Sabemos que o ver\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um detalhe da ilha que a todos prende como o olhar da \u00e1guia. Venham, dizemos, experimentem. E calamos, para rezar em sil\u00eancio pelo que vir\u00e1 depois desta \u00e9poca de b\u00ean\u00e7\u00e3os. Pedimos prote\u00e7\u00e3o para seguirmos em frente. Queremos chegar ao novo Ver\u00e3o menos marcados, com luzes pr\u00f3prias, e n\u00e3o com esse brilho intenso que nos confunde, esse pr\u00eamio que cobra a conta, essa flor que na pr\u00f3xima esta\u00e7\u00e3o come\u00e7a a se tornar inalcan\u00e7\u00e1vel. \u00c9 quando tudo vira deserto. \u00c9 quando o vento bate seus mutir\u00f5es punitivos, desentocando os recalcitrantes. Esperavam o qu\u00ea? O para\u00edso \u00e9 prec\u00e1rio e ilus\u00f3rio como uma casa alugada pelos banhistas.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0 multid\u00e3o, vejo aqueles que vieram dos pescadores. Est\u00e3o vestidos em meio \u00e0 humanidade pelada. Rugas enormes nos rostos de pouca idade. Eles se cumprimentam com alguns gritos, dialeto sem porto, museu de linguagens. Aguardam a Primavera, que vir\u00e1 com seu sopro gelado. Sonham com cardumes, mesmo sabendo que eles passam ao largo. Visitam os lugares o\u00adnde moravam, hoje transformados em condom\u00ednios lotados, e depois absolutamente vazios.<\/p>\n<p>Nos bairros que viram mais tarde fantasmas, vejo a espera de quem acumula recursos longe daqui. As cal\u00e7adas ficar\u00e3o entregues aos c\u00e3es de praia. H\u00e1 um aperto no cora\u00e7\u00e3o se voc\u00ea trafegar por elas imaginando algo vivo. \u00c9 apenas o descompasso entre o ver\u00e3o que se foi e a realidade.<\/p>\n<p>Habitamos uma ilha, e s\u00e3o poucos os seus mist\u00e9rios. Venham nos fazer companhia, mas preparem-se. O Ver\u00e3o \u00e9 a visita do filho amado, que parte quando chega a hora. Ficamos s\u00f3s, a varrer saudades. Os falc\u00f5es aguardam empoleirados. De repente, um deles cruza o ar. \u00c9 quando gritamos diante de Deus, que decide abrir um claro na charada. Ele traz um ramo de luz na m\u00e3o grandiosa. Somos guardi\u00f5es da felicidade poss\u00edvel, neste tempo sombrio, que mant\u00e9m o Ver\u00e3o como sentinela de um reino que inventaremos n\u00e3o apenas com palavras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Ver\u00e3o cumpriu todas as promessas. Torrou de azul o dia intermin\u00e1vel. Lavou o corpo seco jogado fora pelo longo Inverno. Bordou de rendas a \u00e1gua clara das manh\u00e3s e a tintura anil do entardecer tranq\u00fcilo. A lua cheia compareceu para iluminar o noturno pio dos nossos sonhos. Quem poder\u00e1 queixar-se desta temporada que chegou ao esplendor? (Cr\u00f4nica publicada no caderno Donna DC, do Di\u00e1rio Catarinense, no dia 29\/01\/2006). <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1184"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1184"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1184\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1566,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1184\/revisions\/1566"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1184"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1184"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1184"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}