{"id":1186,"date":"2009-12-18T18:14:10","date_gmt":"2009-12-18T20:14:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1186"},"modified":"2009-12-20T20:38:25","modified_gmt":"2009-12-20T22:38:25","slug":"a-geografia-da-memoria","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-geografia-da-memoria","title":{"rendered":"A GEOGRAFIA DA MEM\u00d3RIA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>O dia claro de abril, cheio de contrastes de cores, luz e sombra, com vento temperado a velocidade amena, me levam, pela lembran\u00e7a, rua abaixo at\u00e9 o rio, o pampa, a estrada. As pedras sendo esmagadas pelo t\u00eanis, o p\u00e9 descal\u00e7o, o sapato velho. A companhia dos camaradas, junto aos quais nada podemos temer, nem os caras da outra zona, nem os cachorros, os loucos, as velhas, os muros. \u00cdamos em dire\u00e7\u00e3o ao grupo de umbus, \u00e1rvore de madeira mole e farta sombra, refresco no deserto da fronteira.<\/p>\n<p>Agora, rodeado de montanhas e rente ao mar, revejo a sensa\u00e7\u00e3o daquela vida que continua l\u00e1, gravada para sempre na geografia da mem\u00f3ria, arquivo vivo de uma esperan\u00e7a que nos liga em algo maior, porque a paz de esp\u00edrito \u00e9 a certeza na vida eterna. Dia bom para passeio, para ler na rede, para sonhar e dizer, como Churchill em plena Segunda Guerra, antes de dormir: ora, danem-se todos. O mundo vai mal? O universo n\u00e3o se importa. O que \u00e9 uma canelada diante da fornalha das estrelas? Filosofia barata, dir\u00e3o, mas s\u00e3o esses pensamentos, embalados por leituras melhores do que conseguimos produzir, que fazem nosso dia e nos levam para longe, aqui mesmo, onde escolhemos viver.<\/p>\n<p>DESPEDIDAS &#8211; Algu\u00e9m nos leva at\u00e9 a plataforma. Damos um longo abra\u00e7o e subimos no \u00f4nibus. Da janela, vemos a pessoa acenando enquanto damos r\u00e9 at\u00e9 a reta que nos leva dali para nunca mais voltar. Lindolf Bell pega a pedra pintada de muitas cores, d\u00e1 um suspiro e diz: Essa \u00e9 a pedra A\u00e7u-a\u00e7u, ela vai te acompanhar, vai te dar sorte. Est\u00e1vamos em Blumenau, onde lan\u00e7amos (ningu\u00e9m mais lembra isso oficialmente) o Jornal de Santa Catarina.<\/p>\n<p>Decidi que era um esc\u00e2ndalo que um jornal local n\u00e3o fizesse uma ponte com o grande poeta dos versos ditos na pra\u00e7a, na rua e que vivia de sua galeria de arte junto \u00e0 esposa Elke Hering Bell. Convidei-o para visitar a reda\u00e7\u00e3o e a escrever para o jornal. Ele ficou entusiasmado, generoso como era. Conseguiu trazer Hair para a conservador\u00edssima cidade em 1971 e quando todo mundo surgiu nu no palco foi o primeiro a levantar-se e a aplaudir. Lindolf Bell \u00e9 inventor de uma modernidade que ainda nos faz falta. Nunca mais vi o poeta depois que ele me presenteou com aquela pedra da sorte. Morreu na d\u00e9cada seguinte e hoje \u00e9 lembrado pelos seus conterr\u00e2neos com carinho e admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Convivi com as melhores cabe\u00e7as, porque tive sorte nesta minha passagem pela terra. Tarso de Castro me encontra na rua e eu abra\u00e7o seu corpo muito magro. Senti seus ossos quando apertei-o, ele outrora t\u00e3o influente e temido e agora ali, exangue, sofrendo longo mart\u00edrio de sa\u00fade. Vi seu rosto encolhido depois, no vel\u00f3rio, antes de partir para ser enterrado em Passo Fundo. Quando vivemos um dia claro de outono, devemos lembrar o que nos brindaram com sua presen\u00e7a e nos fizeram melhores do que somos. As pedras do rio ringem quando colocamos nela nossos sapatos de jornada. \u00c9 dia de pescar.<\/p>\n<p>SONO &#8211; Nem sempre temos sorte. Voltamos de m\u00e3os abanando, com a cesta vazia, os anz\u00f3is limpos, nenhum cheiro de peixe. Rodeados pelo que h\u00e1 de pior na humanidade, somos pescadores focados na nossa infinita solid\u00e3o. Por isso gostamos de ficar na beira do rio, sem que ningu\u00e9m nos atrapalhe. Ficamos imaginando o futuro, sem saber que esse momento, o da pescaria, ser\u00e1 nossa mem\u00f3ria eterna. Onde estivermos, no meio do mais fren\u00e9tico mundo, l\u00e1 estar\u00e1 nosso cora\u00e7\u00e3o diante de um peixe que n\u00e3o morde a isca, de uma companhia que n\u00e3o chega, de algu\u00e9m que passa ao longe.<\/p>\n<p>Chegamos em casa exaustos e despencamos na cama embaixo da janela que d\u00e1 para a rua. J\u00e1 \u00e9 tarde. Passa uma turma e ou\u00e7o minha pr\u00f3pria voz dando as cartas. Sou o que imagino, perdido na \u00faltima rua de asfalto, enquanto no quarto ao lado meus pais dormem o sono da eternidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nem sempre temos sorte. Voltamos de m\u00e3os abanando, com a cesta vazia, os anz\u00f3is limpos, nenhum cheiro de peixe. Rodeados pelo que h\u00e1 de pior na humanidade, somos pescadores focados na nossa infinita solid\u00e3o. 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