{"id":1188,"date":"2009-12-18T18:24:05","date_gmt":"2009-12-18T20:24:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1188"},"modified":"2009-12-20T23:46:36","modified_gmt":"2009-12-21T01:46:36","slug":"bertolucci-a-queda-invade-o-paraiso","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/bertolucci-a-queda-invade-o-paraiso","title":{"rendered":"BERTOLUCCI: A QUEDA INVADE O PARA\u00cdSO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Bernardo Bertolucci \u00e9 a pervers\u00e3o que se instaura como arte, \u00e9 a Queda que senta sem ser convidada numa poltrona do Para\u00edso, \u00e9 o sadismo como \u00fanica representa\u00e7\u00e3o humana, \u00e9 uma trai\u00e7\u00e3o que se enxerga como c\u00e2none. Ele inventou a n\u00e3o humanidade de Marlon Brando para definir a falta de rosto do cidad\u00e3o do mundo, o horror que a imagina\u00e7\u00e3o inventa para revelar a caratonha urbana do pesadelo anti-familiar. Ele tortura John Malkovitch &#8211; essa arrog\u00e2ncia de boquitas t\u00famidas, esse indiferente megaloman\u00edaco, esse carisma torpe &#8211; pelo deserto de lua lil\u00e1s, de areia lunar, de por-de- sol de fim de mundo. Vai nos bra\u00e7os do g\u00eanio Storaro, que lhe deu um universo paralelo, capaz de identific\u00e1-lo, com seus chap\u00e9us de Dick Tracy a la Andy Warhol, suas gabardines sem Bogart, seus biotipos de cera por cen\u00e1rios de uma guerra est\u00e9tica, sem sentido, perdida antes de ser deflagrada.<\/p>\n<p>Bertolucci \u00e9 capaz de ensinar imperador chin\u00eas a usar o vaso, s\u00f3 pelo prazer de nos desviar da rota, de transformar manteiga em debate, de usar Kurosawa e William Wyler no \u00faltimo imperador s\u00f3 para poder brincar de teatro de marionetes, o\u00adnde sua especialidade s\u00e3o os fundos de pano hipercoloridos, que voam a esmo pelo ar do cinema enfim perdido de suas origens. Bernardo \u00e9 mau porque se vinga, usa o dinheiro a rodo para lambuzar de sangue menstrual a cara dos jovens atores no seu filme quase recente sobre a descoberta do cinema em Paris.<\/p>\n<p>Ele jamais chegar\u00e1 \u00e0 genialidade que reporta, de Fuller a Nick Ray, portanto lhe resta a mem\u00f3ria plena de mentira, o escancaramento da sua incompatibilidade com o grande cinema. Bertolucci \u00e9 a oportunidade que os ressentidos t\u00eam de tentar a genialidade, por isso seu cinema n\u00e3o conforta, suas hist\u00f3rias n\u00e3o levam a nada, seu lance maior \u00e9 a mistifica\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica, sua loucura \u00e9 mostrar aos pobres mortais que uma vida hedionda medra perto deles e que jamais atingir\u00e3o esse plano, pois a elite verdadeira deixa a todos de olhos vendados, como ensinou Kubrick no seu filme final.<\/p>\n<p>Como ele consegue impressionar os que lhe s\u00e3o id\u00eanticos, pois sobra gente que jamais foram possu\u00eddos pelos deuses que precisam entender o g\u00eanio que lhes escapa, Bernardo faz um sucesso razo\u00e1vel na m\u00eddia \u00e1vida por grandes cineastas. Mas n\u00e3o existem mais os kurosawas, ent\u00e3o Bertolucci se destaca num lix\u00e3o de tarantinos, com seu toque de maestro, sua contrafa\u00e7\u00e3o de Visconti, sua incompatibilidade com Fellini, seu namoro com o impressionismo, seus afrescos em murais gigantescos de uma capital inexistente, o\u00adnde ele reina, com suas crian\u00e7as que se masturbam de verdade em frente \u00e0s c\u00e2maras, como se o cinema de vanguarda tivesse nascido do festim e n\u00e3o da reflex\u00e3o e da den\u00fancia.<\/p>\n<p>Por ser essa mistifica\u00e7\u00e3o, Bertolucci abriu as comportas para que os med\u00edocres pudessem posar de autores. Mas ele ficou \u00e0 parte do entulho que permitiu existir.<\/p>\n<p>Tornou-se cult pela insist\u00eancia, memor\u00e1vel por ter dado o recado mais direto poss\u00edvel numa \u00e9poca de mudan\u00e7as profundas, por ter desprezado o que pensavam ser real e por ter dividido com a equipe o cinema que conseguiu fazer, nem t\u00e3o importante quanto pensam seus admiradores, nem t\u00e3o hediondo quanto pensam seus detratores, nem t\u00e3o genial como ele gostaria que fosse. Mas igualmente vivo, apesar dessa paisagem morta. Mas igualmente forte, apesar dessa fraqueza de car\u00e1ter. Mas igualmente fundo diante da imbecilidade que tomou conta da s\u00e9tima arte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bernardo Bertolucci tornou-se cult pela insist\u00eancia, memor\u00e1vel por ter dado o recado mais direto poss\u00edvel numa \u00e9poca de mudan\u00e7as profundas, por ter desprezado o que pensavam ser real e por ter dividido com a equipe o cinema que conseguiu fazer, nem t\u00e3o importante quanto pensam seus admiradores, nem t\u00e3o hediondo quanto pensam seus detratores, nem t\u00e3o genial como ele gostaria que fosse. Mas igualmente vivo, apesar dessa paisagem morta. Mas igualmente forte, apesar dessa fraqueza de car\u00e1ter. 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