{"id":1190,"date":"2009-12-18T18:25:06","date_gmt":"2009-12-18T20:25:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1190"},"modified":"2009-12-20T20:36:14","modified_gmt":"2009-12-20T22:36:14","slug":"bumba-meu-boi-de-mamao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/bumba-meu-boi-de-mamao","title":{"rendered":"BUMBA MEU BOI DE MAM\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>O boi desperta no Ver\u00e3o. Sua dan\u00e7a \u00e9 a criatura liberta da canga, do rodeio, do la\u00e7o, da vida determinada pelo destino. Ao vivo, salta sobre os espectadores. Avan\u00e7a e roda, porque extrapola e quer revanche pelo tempo que ficou absorto, im\u00f3vel, hibernando, sendo criado para a morte. Mas sua insurrei\u00e7\u00e3o, feita desse pulo sobre a plat\u00e9ia, desse rodopio que dribla o jugo, precisa enfrentar os ciclos a que todos est\u00e3o acostumados. Por isso cumpre sua sina e morre no meio do espet\u00e1culo, para desespero do narrador. Desta vez, n\u00e3o era para acontecer esse desenlace. Deveria sobreviver, j\u00e1 que do boi guardou apenas a mem\u00f3ria, pano que n\u00e3o oferece carne, chifres sem fa\u00edsca de perigo.<\/p>\n<p>Ele cai no palco para que apare\u00e7am os urubus, que desistem, pois encontram fruta no lugar de sangue, ainda verde antes do maduro espanto. Longe do matadouro, sua morte \u00e9 o desperd\u00edcio de um sonho. A queda chama os ursos em preto e branco, representa\u00e7\u00e3o do frio que esgotou a chance. O vaqueiro pede um doutor, que deve existir no meio do p\u00fablico. Longe do curral e das cercas, o boi \u00e9 quase humano. \u00c9 alegoria em busca de medicina, que o ressuscita, como se a ci\u00eancia oculta em cada olhar tivesse poder de cura.<\/p>\n<p>O boi ent\u00e3o volta num pulo para que surjam os personagens dessa coreografia de temperatura c\u00edclica, de altos e baixos. Entra em cena a Maricota, ultimato feminino aos homens que fogem do compromisso &#8211; no momento, a dan\u00e7a, mais tarde, o casamento. E a Bern\u00fancia, o monstro que devora a inf\u00e2ncia, que s\u00f3 se manifesta quando sente a amea\u00e7a. Todos viram brincantes, para que n\u00e3o suma pela goela do bicho a natureza que nos fez crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Descobrimos que o boi bate o bumbo no cora\u00e7\u00e3o exausto de mundo. Ele gera vento enquanto passa e revela uma vida fora das caixas de vidro. Os aparelhos eletr\u00f4nicos s\u00e3o o curral que aprisiona todas as paisagens. Acostumada a ver em casa, sob o comando de bot\u00f5es, o que \u00e9 mostrado como compromisso comercial ou ideol\u00f3gico, a popula\u00e7\u00e3o desperta agora junto com o boi e lamenta ter ficado tanto tempo longe do que \u00e9 simples (e por isso foi negado) e profundo (e por isso sempre sobe \u00e0 tona).<\/p>\n<p>A dan\u00e7a das bonecas altas de olhos arregalados e a liberdade assustadora do boi inundam o desespero de quem nunca consegue ver o que est\u00e1 sempre dispon\u00edvel. As pessoas se entregam porque s\u00e3o seduzidas pelo que dizem ser apenas uma brincadeira. Mas se algu\u00e9m decidir chorar por ter sintonizado a l\u00e1grima no avan\u00e7o do boi sobre o fim de tarde, \u00e9 sinal que algo mudou para sempre. Que for\u00e7a \u00e9 essa que sobe para a borda dos olhos como um mist\u00e9rio, essa falta de nome para o que deveria ser reconhecido num relance?<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos perdidos, meu boi. Est\u00e1vamos certos de que nada mais poderia nos atingir. Fomos testemunhas de o\u00adndas gigantes, massacres de todos os tipos, crueldades sem fim. Olh\u00e1vamos o mundo j\u00e1 sem emo\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o ser aquela preparada pelos narradores emplumados, investidos de bezerros de ouro. Mas eis que voc\u00ea morre e ressuscita na minha frente e desata essas figuras que deveriam j\u00e1 estar enterradas. Mas elas est\u00e3o mais vivas do que em qualquer outro final de ano.<\/p>\n<p>Sou de um tempo, meu boi, em que meu pai, no \u00faltimo dia de dezembro, quando a meia-noite aparecia como uma constela\u00e7\u00e3o de fogos, tirava o rev\u00f3lver da cintura e descarregava o tambor no c\u00e9u. Ele est\u00e1 matando o ano velho, dizia eu. E todos riam.<\/p>\n<p>O tempo estava matando o que deixamos para tr\u00e1s. Mas voc\u00ea veio, meu boi, e sem machucar ningu\u00e9m, nem amea\u00e7ar, nos levou junto para essa corporifica\u00e7\u00e3o que lava, que nos livra do Mal e nos joga no redemoinho do que sabemos ser vida, e que tantos poderes insistem em transformar no fim dos tempos.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 tempo final se voc\u00ea consegue reviver, meu boi. N\u00e3o h\u00e1 dor que resista \u00e0 tua dan\u00e7a. Por isso entro na roda, obediente ao teu exemplo, seguindo o clar\u00e3o da voz de um narrador. Bumba meu boi de mam\u00e3o. Que o Ver\u00e3o promete, e nossa determina\u00e7\u00e3o, cumpre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Est\u00e1vamos perdidos, meu boi. Est\u00e1vamos certos de que nada mais poderia nos atingir. Fomos testemunhas de ondas gigantes, massacres de todos os tipos, crueldades sem fim. Olh\u00e1vamos o mundo j\u00e1 sem emo\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o ser aquela preparada pelos narradores emplumados, investidos de bezerros de ouro. Mas eis que voc\u00ea morre e ressuscita na minha frente e desata essas figuras que deveriam j\u00e1 estar enterradas. Mas elas est\u00e3o mais vivas do que em qualquer outro final de ano. (Cr\u00f4nica publicada dia 31\/12\/2005 no caderno Donna DC, do Di\u00e1rio Catarinense).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1190"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1190"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1190\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1392,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1190\/revisions\/1392"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1190"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1190"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1190"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}