{"id":1192,"date":"2009-12-18T18:25:47","date_gmt":"2009-12-18T20:25:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1192"},"modified":"2009-12-20T22:45:27","modified_gmt":"2009-12-21T00:45:27","slug":"linho-branco-na-cidade-antiga","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/linho-branco-na-cidade-antiga","title":{"rendered":"LINHO BRANCO NA CIDADE ANTIGA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Todo dia era dia de solid\u00e3o. Colocar a roupa branca de linho, passar uma escova no sapato, pentear o cabelo, sair olhando para os lados. Quatro quarteir\u00f5es me separavam do cinema e da pra\u00e7a. Ainda era cedo para o footing. Podia pegar um filme. Quando n\u00e3o estava lotado, entrava j\u00e1 com a sess\u00e3o adiantada. Sentava s\u00f3, numa poltrona no fundo, ou \u201cl\u00e1 em cima\u201d, longe da tela e perto do projetor.<\/p>\n<p>SORTE &#8211; Depois da sess\u00e3o, sa\u00eda junto com um rio de gente. Meus irm\u00e3os tinham partido, as irm\u00e3s casado, os irm\u00e3os menores estavam perto, mas distantes. Os amigos se dispersaram. Punha as m\u00e3os no bolso e tentava a sorte. Passava pelo corredor entre os bancos e os carros parados. Cumprimentava algu\u00e9m, todos enturmados. Eu andava pela pra\u00e7a, passava para a quadra seguinte (que hoje \u00e9 um cal\u00e7ad\u00e3o), ia direto para ver a vitrine da casa Jacques (que agora vai ser shopping) e terminava no Campana, que um dia tinha sido do meu tio Nico, \u00fanico irm\u00e3o da minha m\u00e3e. Era um enorme restaurante, com in\u00fameras mesas, todas com o a\u00e7ucareiro em cima, pois serviam cafezinho n\u00e3o s\u00f3 no balc\u00e3o, servi\u00e7o feito por gar\u00e7ons uniformizados. Antes dessa fase de solid\u00e3o (j\u00e1 tinha uns 16 anos), quando era pequeno, \u00edamos ao Campana tomar guaran\u00e1, crush, soda laranja, sorvete e picol\u00e9. Eram os ver\u00f5es gloriosos dos anos 50. Do flerte com as gurias mais bonitas. A persegui\u00e7\u00e3o f\u00edsica aos amores jamais correspondidos. Mex\u00edamos com algu\u00e9m e sa\u00edamos correndo. \u00c0s vezes, para casa.<br \/>\nMas agora eu estava muito alto e muito grande para fazer essas coisas. Voltava do Campana com um giro nos calcanhares. Decidia ent\u00e3o atravessar a pra\u00e7a na diagonal. L\u00e1 estava a est\u00e1tua do Bar\u00e3o (que vi recentemente, com a mesma impon\u00eancia, um Rio Branco imortal num pedestal de m\u00e1rmore naquela regi\u00e3o da fronteira), a Branca de Neve com os an\u00f5es, a pontezinha sobre o lago onde um dia haviam patos. A pra\u00e7a estava lotada, mas eu continuava s\u00f3.<\/p>\n<p>TURMAS &#8211; Decidia ent\u00e3o parar na passarela do footing para ver as meninas de m\u00e3os dadas que passavam. Mas passavam tamb\u00e9m as turmas, as do viol\u00e3o, as do que capotam (filhinhos de papai que tinham carros), a dos que tomavam grandes fogos e a dos chatos. Estes, estavam tamb\u00e9m sempre s\u00f3s, mas eu j\u00e1 tinha aprendido a me livrar deles. Quem se cria em cidade pequena n\u00e3o tem chance de se esconder. Precisa enfrentar a barra da humana presen\u00e7a cara a cara. Ou voc\u00ea tolera ou expulsa. Aprendi cedo a dizer n\u00e3o. Mas quando a solid\u00e3o batia, sempre tinha jeito de escutar hist\u00f3rias intermin\u00e1veis sobre a segunda guerra mundial (assunto que sempre detestei), sobre m\u00fasicas sem import\u00e2ncia. Muitas vezes, sentava eu quieto no canto do quiosque para tomar uma intermin\u00e1vel coca-cola gelad\u00edssima. Ocupava a mesa por mais de uma hora. O dinheiro dava s\u00f3 para um refrigerante. Os gar\u00e7ons n\u00e3o gostavam. De l\u00e1, acompanhava as decep\u00e7\u00f5es: aquela garota que eu estava de olho sucumbia diante do charme de algu\u00e9m. Desistindo do passeio mon\u00f3tono, passava em frente ao Clube Comercial. L\u00e1 estava o eterno porteiro, a olhar feio para a classe m\u00e9dia para baixo. Como meu pai era s\u00f3cio, \u00e0s vezes eu for\u00e7ava a barra e entrava, peitando a m\u00e1 vontade do porteiro, pois eu n\u00e3o me vestia adequadamente.<br \/>\n&#8211; Sempre branco, me diziam. Eu vestia linho, o mesmo todo dia. O cabelo curto, o corpo curvado . Chegava em casa, estava praticamente vazia. Tudo tinha ido embora. Chegava minha vez tamb\u00e9m de partir. Tendo completado o segundo cient\u00edfico, me preparava para ir \u00e0 capital tentar o vestibular. Levaria ruas percorridas sem amigos, levaria meus sapatos pretos, minha cal\u00e7a de brim coringa (o jeans antigo), minhas blusas de l\u00e3, minha campeira (o casaco grosso que enfrentava o inverno que estava por chegar). Logo logo despontaria mar\u00e7o e voltariam as aulas, quando enfim, teria chance de conviver com bastante gente. O ver\u00e3o era o deserto daquele fim de adolesc\u00eancia. Eu j\u00e1 era muito antigo, j\u00e1 tinha tido uma vida inteira na cidade que me vira crescer.<br \/>\nQuando chega o ver\u00e3o, minha mem\u00f3ria passeia pelas largas cal\u00e7adas. Um assobio insistente de outro solit\u00e1rio, longe. Risadas em frente de alguma casa. O barulho dos passos \u00e0s onze da noite. O c\u00e9u muito estrelado.<br \/>\nO Cruzeiro do Sul despencava como uma flecha em dire\u00e7\u00e3o ao rio.<br \/>\nEu j\u00e1 estava pronto. Tinha virado adulto. Mas levaria a crian\u00e7a que insistia em caminhar raspando a sola do sapato na cal\u00e7ada. Ou, como fazia um irm\u00e3o meu, raspando o lado esquerdo do sapato no canto da parede das casas (que ficam rentes, grudadas nas cal\u00e7adas).<br \/>\nUm dia, ele deu um chute num monte de moedas, perdidas por ali.<br \/>\n\u00c9 assim o passeio de ver\u00e3o: um golpe de sorte e voc\u00ea est\u00e1 de novo no centro do mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todo dia era dia de solid\u00e3o. Colocar a roupa branca de linho, passar uma escova no sapato, pentear o cabelo, sair olhando para os lados. Quatro quarteir\u00f5es me separavam do cinema e da pra\u00e7a. Ainda era cedo para o footing. Podia pegar um filme. Quando n\u00e3o estava lotado, entrava j\u00e1 com a sess\u00e3o adiantada. Sentava s\u00f3, numa poltrona no fundo, ou \u201cl\u00e1 em cima\u201d, longe da tela e perto do projetor.(Cr\u00f4nica publicada na edi\u00e7\u00e3o n\u00famero 2 da Revista Fronteira Livre, de Uruguaiana)<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1192"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1192"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1192\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1444,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1192\/revisions\/1444"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1192"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1192"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1192"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}