{"id":1194,"date":"2009-12-18T18:42:11","date_gmt":"2009-12-18T20:42:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1194"},"modified":"2009-12-20T23:53:27","modified_gmt":"2009-12-21T01:53:27","slug":"o-puxao-da-primavera","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-puxao-da-primavera","title":{"rendered":"O PUX\u00c3O DA PRIMAVERA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Fico em frente ao passo do p\u00e1ssaro praiano. Ele tem aquele movimento que parece ser monitorado por flashes, com as pernas andando para todos os lados enquanto o bico enxerga o que jamais veremos. A cabe\u00e7a gira e seus olhos n\u00e3o se importam comigo. O que chama a aten\u00e7\u00e3o da criatura \u00e9 uma sombra, vizinha ao sol que tenta grudar na praia, mas \u00e9 empurrado pelo vento. O brilho intenso na areia \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o de um deus desconhecido. Esse contraste intrigante \u00e9bano-ouro atrai o bico arisco, que se aproxima para puxar o risco negro, limite da sombra debru\u00e7ada sobre a luz. Mas ao experimentar a resist\u00eancia daquele material, resolve soltar tudo, fazendo o len\u00e7ol escuro voltar ao local de origem.<\/p>\n<p>CORA\u00c7\u00c3O &#8211; Descobri esse deus que n\u00e3o revela o nome ao visitar o que devia ser um por- de-sol. O inverno ia alto e o chumbo do fim do dia fechava o c\u00e9u num tom decisivo. Ent\u00e3o, numa brecha acima do \u00faltimo morro, brilhou intensamente a presen\u00e7a dessa divindade, a querer nos mostrar a sua for\u00e7a, a nos dizer que n\u00e3o iria dormir naquela hora e n\u00e3o obedecia aos ditames do tempo e das esta\u00e7\u00f5es. Descobri que ele iluminava o granito do morro em frente, de contornos majestosos, res\u00edduos de uma \u00e9poca assombrosa, que aqui existiu antes que vi\u00e9ssemos nos refugiar com nossas vestes rotas, nosso semblante ca\u00eddo, nossos ombros exaustos, nosso cora\u00e7\u00e3o ainda esperan\u00e7oso. Tudo foi constru\u00eddo pelos poderes daquelas pessoas que nem eram humanas e nem podem agora se revelar em sonhos, a n\u00e3o ser que ou\u00e7amos seus passos nas noites sem fim de vento sul. Querem saber o que pega em Floripa, nome pr\u00f3prio que vem de flor. O que pega \u00e9 um inverno intenso, que congela a maresia. De repente, \u00e0s cinco da tarde, cai vertiginosamente a noite, para sempre. T\u00ednhamos planos, mas vamos nos recolher junto com as corujas, empalhados que somos diante dos vidros luminosos que s\u00e3o as janelas de nossa alma torcida em espirais. No dia seguinte, participo da vida coletiva da cidade espalhada em praias, morros, ruas antigas, avenidas limp\u00edssimas. H\u00e1 pressa e anonimato na capital que cresce. Os edif\u00edcios, da janela o\u00adnde trabalho, escondem o mar e possuem o brilho futurista da fic\u00e7\u00f5es da minha inf\u00e2ncia. Vejo Comando Cody vestir sua roupa met\u00e1lica, seu capacete tecnol\u00f3gico, depois de receber uma mensagem transmitida por um bot\u00e3o no seu peito. Ele voa e quem ouviu falar em Comando Cody? O v\u00f4o mais recente que fiz foi para Sampa, nome pr\u00f3prio que veio da Bahia.<\/p>\n<p>COL\u00c9GIO &#8211; Cruz de prata, pano preto sobre o ch\u00e3o de m\u00e1rmore: os padres entoam na hora da ave-maria a soberba queda da noite. Eles deslizam com seu cantoch\u00e3o, sua reza infinita que ecoa em mim at\u00e9 hoje. O col\u00e9gio em frente \u00e9 mal assombrado. L\u00e1 est\u00e3o os ex-alunos a sentir saudades. L\u00e1 estou eu de cabelinho engomado, camiseta azul e amarela do Santana, morrendo de medo do primeiro dia de aula, com os olhos grandes como os de um pequeno coelho branco. Em volta de mim aquele monte de caras, de todas as idades, a impor presen\u00e7as. Abro o caderno e cheiro o livro novo. Minha caneta tinteiro, meu l\u00e1pis e borracha, minha carteira que tinha tampa. Eram mais de 50 alunos numa sala de aula. Distribuem as cadernetas. Teremos avalia\u00e7\u00e3o todas as semanas. Cada dever feito conta pontos, a soma dos pontos te d\u00e1 uma classifica\u00e7\u00e3o. Comportamento e aplica\u00e7\u00e3o fazem parte do sistema. Se voc\u00ea tirar dez nesses dois itens, ganhar\u00e1 um diploma no fim do ano. Todos me olham. Nunca gostei de ser observado. No pr\u00e9-prim\u00e1rio, sentava num canto, numa mesa oval, que abra\u00e7ava com meus longos bra\u00e7os finos. No pr\u00e9, cheguei atrasado no primeiro dia. Todos faziam barulho, numa brincadeira coletiva. Pararam de repente mal coloquei o p\u00e9 na porta. Fizeram s\u00fabito sil\u00eancio. Fui para o canto e s\u00f3 sa\u00ed dali no ano seguinte, quando a professora decidiu que eu n\u00e3o seria mais aquele cara recluso. No Santana, entrei na multid\u00e3o. Faz\u00edamos fila antes de entrar. Era mar\u00e7o, era abril, era maio. A vida era uma promessa luminosa. Entr\u00e1vamos e rez\u00e1vamos. Depois, estudos, quatro aulas com intervalos. Latim, franc\u00eas, ingl\u00eas, Hist\u00f3ria, Portugu\u00eas, Trabalhos Manuais. O professor dizia: de p\u00e9 quem est\u00e1 conversando. E quem estava conversando, ficava de p\u00e9. Juro.<\/p>\n<p>SOMOS &#8211; Quando montaram a banda, fui tocar p\u00edfaro, depois clarim. Us\u00e1vamos uniformes azuis com penacho no chap\u00e9u. \u00cdamos para as cidades vizinhas e as meninas ficavam encantadas. Quem pode com tanta lembran\u00e7a? O tempo puxa a sombra do inverno que nos deixava de cama. Com seu bico afiado, o tempo n\u00e3o largava a sombra mais, at\u00e9 o inverno ir embora. Vinha ent\u00e3o setembro e march\u00e1vamos. Quando chegava outubro, \u00e9ramos outras pessoas. \u00c9ramos as crian\u00e7as felizes daquele pa\u00eds soberano. Minha m\u00e3e me esperava na porta. Eu chegava em casa, cheio de amigos. Fal\u00e1vamos de meninas, de p\u00e1ssaros, de futebol. \u00c9ramos ent\u00e3o, como sempre somos, eternos. Hoje visito o mar, ainda frio, da primavera. Chegam as pessoas cercadas por edif\u00edcios. Comando Cody, her\u00f3i met\u00e1lico, os trouxe. Eles s\u00e3o os brasileiros confinados quem fazem a primeira visita deste in\u00edcio de temporada. O Brasil, com seu mar, seus morros, seu c\u00e9u, abra\u00e7a a todos. O Brasil continua aqui, o\u00adnde mora a P\u00e1tria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fico em frente ao passo do p\u00e1ssaro praiano. Ele tem aquele movimento que parece ser monitorado por flashes, com as pernas andando para todos os lados enquanto o bico enxerga o que jamais veremos. A cabe\u00e7a gira e seus olhos n\u00e3o se importam comigo. O que chama a aten\u00e7\u00e3o da criatura \u00e9 uma sombra, vizinha ao sol que tenta grudar na praia, mas \u00e9 empurrado pelo vento. 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