{"id":1198,"date":"2009-12-18T18:43:46","date_gmt":"2009-12-18T20:43:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1198"},"modified":"2009-12-20T21:06:12","modified_gmt":"2009-12-20T23:06:12","slug":"qual-o-livro-da-sua-vida","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/qual-o-livro-da-sua-vida","title":{"rendered":"QUAL O LIVRO DA SUA VIDA?"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Podem ser v\u00e1rios, pode ser o mais relido, pode ser o perdido para sempre em alguma viagem, pode ser o traduzido pelo amigo, pode ser o que faltam as \u00faltimas p\u00e1ginas, pode ser o que sempre tivemos vontade de ler e perdemos todas as oportunidades. Pode ser aquele que voc\u00ea aplaude de p\u00e9 no final, mesmo que esteja sozinho, desempregado, nos anos 60, encerrado numa rep\u00fablica vazia e tenha fechado aquela p\u00e1gina derradeira que diz sobre o mundo &#8220;que nunca acaba de se acabar&#8221; como aconteceu comigo diante de Cem anos de solid\u00e3o, do maior escritor do mundo.<\/p>\n<p>NONADA &#8211; O romance \u00e9 o invent\u00e1rio de uma guerra, qualquer guerra. O \u00fanico compromisso \u00e9 com a literatura, que veste o que chamam verdade, ou mem\u00f3ria, ou mesmo poesia. O que faz o romance \u00e9 decidir o que existe de \u00e9pico do fato reconstitu\u00eddo pela soma de linguagens atiradas no ch\u00e3o do tempo. Minha cena favorita de Lord Jim, de Joseph Conrad, traduzido de uma vers\u00e3o francesa pela m\u00fasica de M\u00e1rio Quintana, \u00e9 quando o anti-her\u00f3i joga a tocha acesa no rio e, ao apagar-se, revela todas as estrelas. Ou a cena de O cora\u00e7\u00e3o das trevas em que Marlowe cruza com seu barco o meio do nada chamado Tamisa e come\u00e7a a narrar para quem o cerca, prendendo-os numa rede irresist\u00edvel a que chamam hist\u00f3ria, mas que \u00e9 pura magia. O romance pode ficar na sala da espera mas jamais humilha-se para uma entrevista. \u00c9 o ato mais corajoso que o isolamento pode empreender, afora o fato de escapar de um seq\u00fcestro com as m\u00e3os amarradas e isto j\u00e1 seria insumo para novo romance. O texto intrincado, como em Guimar\u00e3es Rosa de Grande Sert\u00e3o (e t\u00e3o cl\u00e1ssico em Sagarana) \u00e9 a prova dos nove da leitura que se deixa abater depois de algumas investidas. Lembro que fiquei meses paralisado diante da palavra inicial Nonada, que Rosa usa para afugentar os pregui\u00e7osos.<\/p>\n<p>O livro da sua vida \u00e9 como o momento diante da morte: majestoso, irrevers\u00edvel, humano e prec\u00e1rio; n\u00e3o h\u00e1 nada igual. Por um tempo, quando era foca na reda\u00e7\u00e3o da Folha da Tarde da Caldas Junior em 1970, andava com os Quatro Quartetos do Eliot embaixo do bra\u00e7o. Nunca entendi o verso &#8220;abril \u00e9 o mais cruel dos meses&#8221;, j\u00e1 que abril \u00e9 um dos mais belos meses do ano, quando o Rio Grande do Sul d\u00e1 uma tr\u00e9gua aos rigores do frio e do calor e aposta na amenidade da meia esta\u00e7\u00e3o. Mas aquela edi\u00e7\u00e3o antiga e brasileira de Eliot me encheu de boas fuma\u00e7as para o exerc\u00edcio da escrita, naquele tempo em que enfrentei uma reda\u00e7\u00e3o de feras e fui tratado com a generosidade que se presta aos viajantes sedentos e ainda jovens demais para pensar no pior.<\/p>\n<p>SOBRA DE GUERRA &#8211; Conhe\u00e7o d\u00fazias de pessoas sideradas por Os Thibault, de Roger Martin du Gard, que saiu em edi\u00e7\u00e3o primorosa pela Editora Globo (gra\u00e7as, claro, \u00e0 gest\u00e3o Wagner Carelli) e que ainda deve estar dando sopa nas livrarias. Monteiro Lobato servia para inventarmos o verbo requeteler, pois era isso que faz\u00edamos especialmente no inverno, quando o Sitio do Picapau Amarelo nos embalava a paz antes do sono e nos despertava para mais literatura. Tem livro inesquec\u00edvel considerado cient\u00edfico que se l\u00ea com o prazer de um romance como \u00e9 o caso de Ra\u00edzes do Brasil ou Caminhos e Fronteiras, de Sergio Buarque de Holanda. Tem livro que assombra pela genialidade de sua s\u00edntese como As Brasinas, de J.A. Pio de Almeida. E livro que serve para marcar para sempre nossas vidas como Paris \u00e9 uma festa, de Hemingway ou Seis contos da era do jazz, de Scott Fitzgerald. Tem livros impressionantes que li uma vez e jamais me recuperei como Metamorfose, de Kafka, O Conceito rosacruz do cosmo, de Max Heindel ou O Evangelho segundo o espiritismo, de Alan Kardec. Ou A magia do verbo, um pequeno op\u00fasculo que mostrava a natureza divina de cada letra, representa\u00e7\u00e3o de uma divindade que era evocada a cada enuncia\u00e7\u00e3o do som que ela encerrava. Acredito na palavra m\u00e1gica, no abracadabra. N\u00e3o faz outra coisa o escritor do que ir atr\u00e1s desse poder que abre portas e derruba muros. Tem livros que voc\u00ea n\u00e3o acredita n\u00e3o ser suficientemente conhecido como Sobra de Guerra, de Jos\u00e9 Onofre, o mais radical romance policial de todos os tempos.<\/p>\n<p>O livro da sua vida \u00e9 aquele que voc\u00ea cita cada p\u00e1gina como se fosse sua e tem certeza que o escreveu em outras vidas, quando Deus foi bem mais misericordioso e distribuiu com mais igualdade suas gra\u00e7as. Pois o talento \u00e9 um mist\u00e9rio que o universo guarda no cofre e de vez em quando abre para nos assustar. Ficar imune a essa provoca\u00e7\u00e3o \u00e9 perder o sentido da vida. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O romance \u00e9 o invent\u00e1rio de uma guerra, qualquer guerra. O \u00fanico compromisso \u00e9 com a literatura, que veste o que chamam verdade, ou mem\u00f3ria, ou mesmo poesia. O que faz o romance \u00e9 decidir o que existe de \u00e9pico do fato reconstitu\u00eddo pela soma de linguagens atiradas no ch\u00e3o do tempo. Minha cena favorita de Lord Jim, de Joseph Conrad, traduzido de uma vers\u00e3o francesa pela m\u00fasica de M\u00e1rio Quintana, \u00e9 quando o anti-her\u00f3i joga a tocha acesa no rio e, ao apagar-se, revela todas as estrelas. 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