{"id":1200,"date":"2009-12-18T19:12:47","date_gmt":"2009-12-18T21:12:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1200"},"modified":"2009-12-20T19:20:23","modified_gmt":"2009-12-20T21:20:23","slug":"o-falso-cinema-de-autor","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-falso-cinema-de-autor","title":{"rendered":"O FALSO CINEMA DE AUTOR"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Brian de Palma e Martin Scorcese &#8211; e sua vers\u00e3o ainda mais perversa, Quentin Tarantino &#8211; substitu\u00edram o espa\u00e7o criado nos anos 60 e 70 por inventores como Arthur Penn e Sam Peckinpah, e por meio de um cinema vazio e apelativo tentam assumir a postura de autores, quando n\u00e3o passam de comerciantes da pior qualidade com pose de pais da mat\u00e9ria. Enquanto isso, a linhagem que tem Nickolas Ray como estrela maior encontra em Clint Eastwood sua mais bem acabada realiza\u00e7\u00e3o. J\u00e1 David Lean e Fred Zinnemann continuam s\u00f3s, ocupando a olimpo da genialidade sem terem deixado descendentes.<\/p>\n<p>TUDO DES\u00c1GUA NELE &#8211; Scorcese costuma pontificar na televis\u00e3o como uma esp\u00e9cie de historiador do cinema, com um detalhe: o de que toda a maravilhosa produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica italiana, de Vittorio de Sica a Fellini, de Rosselini a Visconti, acaba redundando na pr\u00f3pria obra dele, Scorcese. N\u00e3o \u00e9 muita pretens\u00e3o? Basta aturar o horrendo Taxi Driver, um filme que confunde transgress\u00e3o est\u00e9tica com a instaura\u00e7\u00e3o de uma ind\u00fastria da maldade e da pervers\u00e3o, para ver que tipo de mente doentia tem esse sujeito. O cinema dele suga o espectador para devolver nossa alma em farrapos, e isso n\u00e3o pode ser encarado com um elogio (\u00e9 moda aplaudir o horror como se fosse vanguarda). Tem sua por\u00e7\u00e3o italianinha com os Bons Companheiros, que ele tenta misturar com\u00e9dia com trag\u00e9dia, tentando imitar o &#8220;truque &#8221; (na vers\u00e3o dele) de De Sica, esse sim um g\u00eanio, que criou in\u00fameras obras-primas, como Ladr\u00f5es de bicicleta e Casamento \u00e0 italiana (inteiramente chupado por Silvio de Abreu numa dessas novelas globais). Scorcese adora usar esse canastr\u00e3o de marca maior, Robert de Niro, que n\u00e3o serve nem para engraxar os sapatos de Al Pacino e acha que fazer careta \u00e9 arte de primeira grandeza. De Niro se presta a in\u00fameras performances que s\u00f3 intensificam sua falta de jeito e talento para esse ramo. Basta um mil\u00e9simo de Sean Penn, um cord\u00e3o de sapato de Tim Robbins para desmascarar essa fraude. Scorcese n\u00e3o faz cinema de den\u00fancia (j\u00e1 que \u00e9 sabujo do sistem\u00e3o) como Arthur Penn, que em Ca\u00e7ada Humana ou Bonnie and Clyde consegue fazer um retrato da Am\u00e9rica fora do c\u00edrculo de giz do autismo ideol\u00f3gico dessa na\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que encontraram em Scorcese o ant\u00eddoto perfeito para o impacto causado por Penn, um cineasta como poucos. Al\u00e9m disso, Scorcese est\u00e1 longe de contribuir para o cinema como fez Sam Peckinpah, que colocou sangue na tela (o que era proibido pela censura est\u00e9tica conservadora) e filmou pela primeira vez a morte em c\u00e2mara lenta (o que agora \u00e9 usado at\u00e9 o infinito) sem se dobrar aos maneirismos &#8220;de autor&#8221;, apenas criando novas solu\u00e7\u00f5es visuais para tra\u00e7ar o perfil da Am\u00e9rica violenta. Cineastas originais precisam ser corajosos, o que n\u00e3o \u00e9 o caso de Scorcese.<\/p>\n<p>ENGULHOS &#8211; Nem tampouco Brian de Palma, essa contrafa\u00e7\u00e3o do suspense, que, em princ\u00edpio, odeia mulher. Est\u00e1 passando na HBO Femme Fatale, uma palha\u00e7ada com o execr\u00e1vel Antonio Banderas (o pior ator do mundo) e uma fauna de preconceitos (o negr\u00e3o fac\u00ednora, a loura vagabunda e cruel, a morena coitadinha, as l\u00e9sbicas exibicionistas). Tudo provoca engulhos. O roteiro \u00e9 rid\u00edculo, a apela\u00e7\u00e3o \u00e9 extrema. O pior \u00e9 que de Palma (e isso o aproxima de Scorcese) come\u00e7a o filme transcrevendo um cl\u00e1ssico do cinema noir, com Fred McMurray, como se essa cita\u00e7\u00e3o o encaminhasse para a gl\u00f3ria da autoria, como se fizesse parte do seleto grupo de criadores. Sua vers\u00e3o an\u00f3dina de Os Intoc\u00e1veis tinha essa mesma ilus\u00e3o. O resultado foi um filme cheio de falsidades (como a tentativa de reproduzir a c\u00e9lebre cena de Eisenstein em Outubro, a do carrinho de beb\u00ea que desce a escada), al\u00e9m de um rid\u00edculo, como sempre, Kevin Kostner, o pseudo gal\u00e3 exilado de qualquer carisma. A cena do assassinato de Angie Dickinson em Vestida para matar \u00e9 uma sucess\u00e3o de barbaridades, a declarar o \u00f3dio que o autor devota ao sexo que ele deveria admirar. Acham essa cena o m\u00e1ximo, mas \u00e9 apenas uma maneira de marcar o cinema com momentos de alta voltagem comercial, no pior sentido. Tudo n\u00e3o passa de com\u00e9rcio. N\u00e3o h\u00e1, nesses filmes, sinceridade que poderia at\u00e9 gerar muito dinheiro. H\u00e1 apelo, como se o espectador fosse um s\u00e1dico igual aos cineastas que produzem esse tipo de porcaria. E voc\u00eas notam a cara s\u00e9ria que eles fazem quando d\u00e3o entrevistas sobre sua &#8220;arte&#8221;? Como se todos fossem obrigados a acreditar nas mentiras que contam.<\/p>\n<p>RA\u00cdZES &#8211; O tal de Tarantino, que nos explode a paci\u00eancia com suas intermin\u00e1veis arengas recheadas de viol\u00eancia gratuita, \u00e9 ainda pior. Ter sido convidado para ser jurado em Cannes \u00e9 puro deboche. Ele faz parte de uma camada de nulidades o\u00adnde despontam coisas como o &#8220;diretor&#8221; Mel Gibson, o rei da patriotada barata. O novo filme de Gibson sobre Cristo deve ser uma besteira s\u00f3. Sabe-se que ele, claro, apela para a viol\u00eancia est\u00fapida que caracteriza toda a sua obra de ator e diretor. Gente desse quilate merece rep\u00fadio. Eles infestam o mundo do cinema e exercem p\u00e9ssima influ\u00eancia. Quando sabemos que David Lean se fez num caldo de cultura o\u00adnde tinha Alexander Korda e Noel Coward, e que Glauber Rocha bebeu em Visconti de Terra Trema para fazer seu Barravento, e que Walter Salles seguiu os passos de Gloria, de John Cassavetes (autor de verdade) para compor sua obra-prima, Central do Brasil, notamos que o g\u00eanio nasce, mas precisa de ambiente para evoluir e se expressar. Num espa\u00e7o tomado por inutilidades, fica dif\u00edcil despontar os autores que mere\u00e7am ser vistos e respeitados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Brian de Palma e Martin Scorcese &#8211; e sua vers\u00e3o ainda mais perversa, Quentin Tarantino &#8211; substitu\u00edram o espa\u00e7o criado nos anos 60 e 70 por inventores como Arthur Penn e Sam Peckinpah, e por meio de um cinema vazio e apelativo tentam assumir a postura de autores, quando n\u00e3o passam de comerciantes da pior qualidade com pose de pais da mat\u00e9ria. 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