{"id":1205,"date":"2009-12-18T19:55:26","date_gmt":"2009-12-18T21:55:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1205"},"modified":"2009-12-20T23:51:42","modified_gmt":"2009-12-21T01:51:42","slug":"anthony-quinn-o-bruto-que-ama","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/anthony-quinn-o-bruto-que-ama","title":{"rendered":"ANTHONY QUINN, O BRUTO QUE AMA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Empurrado para pap\u00e9is subalternos, devido \u00e0 sua origem (mexicana com irland\u00eas), Anthony Quinn confirma o que me disse Miguel Ramos: n\u00e3o existe papel coadjuvante. Basta v\u00ea-lo em Viva Zapata (papel que lhe valeu o primeiro de dois Oscar), onde convence que \u00e9 irm\u00e3o de Marlon Brando; ou em Lawrence da Arabia, quando d\u00e1 aquele bocejo espregui\u00e7ado ao lado do reflexo da lua cheia, ou quando mant\u00e9m uma negocia\u00e7\u00e3o guerreira memor\u00e1vel com Peter O&#8217;Toole antes da invas\u00e3o de Akaba.<\/p>\n<p>Quinn \u00e9 o bruto que se arrepende de n\u00e3o ter demonstrado seu amor. Isto est\u00e1 expl\u00edcito em La Strada, de Fellini, quando ele, Zampano, descobre que a maldade era apenas uma m\u00e1scara e que no fundo jamais poderia viver sem ela, Giuleta Masina, que tinha se ido para sempre. Se existe solid\u00e3o verdadeira no mundo, esta \u00e9 a de Quinn na praia desolada, no final do filme, o\u00adnde se comporta como o lobo que uiva para o caos. Em Duelo de Tit\u00e3s, faroeste de John Sturges de 1959, ele \u00e9 o malvado que se arrepende, na hora da morte, de n\u00e3o ter criado direito o filho assassino. O que significa essa queda, essa revers\u00e3o da caratonha, essa l\u00e1grima que sai a muito custo, depois que tudo est\u00e1 perdido? O que \u00e9 Anthony Quinn, o ator que nos assustou com sua gargalhada vinda de uma gruta?<\/p>\n<p>MESTI\u00c7O &#8211; Quinn \u00e9 o bruto que ama. Ele encarnou o papel que lhe impuseram, o do mesti\u00e7o amea\u00e7ador num mundo de branquelos. Fez isso como ningu\u00e9m, em in\u00fameras bobagens, especialmento no in\u00edcio de carreira. Acabou conquistando a filha de Cecil B. De Mille, Katherine, um dos seus tr\u00eas casamentos. O bruto tinha charme e, o que era mais importante e que poucos viam, intelig\u00eancia que valorizava o talento. Tinha carisma, mas isso n\u00e3o lhe bastava. Ele precisava introjetar aquela persona maldita, dar-lhe vida verdadeira, dizer que era um ser injusti\u00e7ado, capaz de uma rea\u00e7\u00e3o violenta, de um gesto que mudasse o destino. Seu sobrolho era o sinal de que a rocha produzia pensamento.<\/p>\n<p>Mas isso tamb\u00e9m n\u00e3o era suficiente. Quinn tamb\u00e9m precisava mostrar que para ser humano n\u00e3o precisava posar de gal\u00e3 nem fingir que era uma criatura privilegiada pela riqueza ou a ra\u00e7a. Poderia ser algu\u00e9m do povo, conformado e fatalista e que oferecia seus servi\u00e7os a um ingl\u00eas empolado. Visto assim, esse interpreta\u00e7\u00e3o poderia ter tudo de caritcatura, mas ele nos deu Zorba, o Grego, sua melhor performance. Ele inventou aquela dan\u00e7a, que tornou-se marca registrada da na\u00e7\u00e3o que representou. Nunca se viu isso antes. Vimos ao vivo como se constr\u00f3i o folclore, que sempre foi uma ci\u00eancia de letrados que reinventam as manifesta\u00e7\u00f5es populares.<\/p>\n<p>Quinn inventou a marca registrada de um povo. Quem n\u00e3o \u00e9 do ramo, acha que aquilo \u00e9 Gr\u00e9cia pura. \u00c9 porque Quinn assim decidiu. Esse \u00e9 o criador magistral que de 1915 a 2001 passou pela terra como uma tempestade no deserto.<\/p>\n<p>VULC\u00c3O &#8211; Hoje, quando vivemos a \u00e9poca da idiotia cultural, em que s\u00f3 h\u00e1 maldade pura e simples (porque os politicamente corretos querem ser verdadeiros), em que tudo \u00e9 p\u00e3o-p\u00e3o-queijo-queijo, em que atores e atrizes s\u00e3o produzidos em massa pelo mercado da carne da moda e da televis\u00e3o, tempo de metrossexuais e g\u00e2ngsters em todos os neg\u00f3cios, Anthony Quinn se sobressai como a imagem completa de uma arte que n\u00e3o sucumbiu \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es do tempo, apesar de fazer parte dele (ningu\u00e9m est\u00e1 na frente ou atr\u00e1s da sua \u00e9poca). Sua sofistica\u00e7\u00e3o se agiganta diante dos maneirismos cool da atualidade, em que todos se parecem e nada tem mais do que um mil\u00edmetro de profundidade.<\/p>\n<p>Quinn fechava uma geladeira com os p\u00e9s, batia em todo mundo, rosnava, e foi assim que mostrou todas as nuances do humano, sem se render \u00e0 pasteuriza\u00e7\u00e3o, \u00e0 modorra. Ele era um lugar comum: um vulc\u00e3o em cena. Contracenou com todos os grandes atores e tornou-se um deles. Duvido que seus parceiros de tela n\u00e3o tremessem diante da sua f\u00faria. Foi assim que ele tornou-se inesquec\u00edvel, com seu grande cora\u00e7\u00e3o oculto sob uma avalanche de granito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anthony Quinn \u00e9 o bruto que ama. Ele encarnou o papel que lhe impuseram, o do mesti\u00e7o amea\u00e7ador num mundo de branquelos. Fez isso como ningu\u00e9m, em in\u00fameras bobagens, especialmento no in\u00edcio de carreira. Acabou conquistando a filha de Cecil B. De Mille, Katherine, um dos seus tr\u00eas casamentos. O bruto tinha charme e, o que era mais importante e que poucos viam, intelig\u00eancia que valorizava o talento. Tinha carisma, mas isso n\u00e3o lhe bastava. Ele precisava introjetar aquela persona maldita, dar-lhe vida verdadeira, dizer que era um ser injusti\u00e7ado, capaz de uma rea\u00e7\u00e3o violenta, de um gesto que mudasse o destino. 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