{"id":1207,"date":"2009-12-18T19:56:39","date_gmt":"2009-12-18T21:56:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1207"},"modified":"2010-05-26T14:00:31","modified_gmt":"2010-05-26T17:00:31","slug":"o-vendedor-de-morangos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-vendedor-de-morangos","title":{"rendered":"O VENDEDOR DE MORANGOS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong>&#8211;<\/p>\n<p>Vou matar o vendedor de morangos &#8211; disse ela, j\u00e1 pegando a bolsa e saindo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 esquina em frente ao pr\u00e9dio. Tentei evitar aquele gesto, mas era tarde demais. Ela sumira escada abaixo. T\u00ednhamos tentado conversar a tarde toda sobre um projeto, mas o cara l\u00e1 embaixo n\u00e3o parava um segundo. Era pior do que o vendedor de mega-sena acumulada, que triplicava o pre\u00e7o e o tom de voz durante horas.<\/p>\n<p>\u00c9 que o vendedor de morangos tinha um diferencial: ele estava h\u00e1 dias com sua arenga, ao contr\u00e1rio do seu colega de profiss\u00e3o, que nos atormentou s\u00f3 por algum tempo. Na nossa conversa, eu procurava argumentos positivos para justificar o bord\u00e3o repetido sem parar naquela melodia vocal criada para nos enlouquecer. Disse que dever\u00edamos entender a falta de emprego, e que \u00e9 um direito repassar papeizinhos nas ruas, abordar com alguma demanda. Falei do capitalismo de farol das grandes cidades, que existe h\u00e1 tanto tempo que muita gente est\u00e1 requerendo aposentadoria. Nesses casos, tudo volta ao normal quando chegamos em casa. Basta ligar a televis\u00e3o para nos expor a duras noites de comerciais com alguns minutos de programa no meio. Mas mesmo a tev\u00ea disp\u00f5e de zap e podemos ent\u00e3o relaxar. O que n\u00e3o conseguimos dominar \u00e9 esse craquejar incontorn\u00e1vel do vendedor de morangos.<\/p>\n<p>Nossa colega estava surtada porque n\u00e3o conseguira explicar direito o objetivo do seu projeto. Sab\u00edamos s\u00f3 que o tro\u00e7o agregava valor. Ou tinha algo a ver com qualidade de vida e meio ambiente. Parece que o importante era a transpar\u00eancia e n\u00e3o sei mais o qu\u00ea. Concord\u00e1vamos com ela, apesar de n\u00e3o entendermos patavina, s\u00f3 pelo al\u00edvio que poderia gerar nosso assentimento diante do seu nervosismo. A assessora (este era seu cargo) come\u00e7ara a falar de maneira pausada, sacudindo a cabe\u00e7a afirmativamente depois do fim de cada frase. Conhe\u00e7o o expediente: as pessoas fazem isso porque aguardam a velocidade do ouvinte chegar \u00e0s alturas da autoria da locu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o vendedor de morangos n\u00e3o dava tr\u00e9gua. Ela ent\u00e3o come\u00e7ou a ficar fanha. A estrid\u00eancia alcan\u00e7ou decib\u00e9is insuport\u00e1veis e, de repente, quem estava em volta, decidiu atender o celular. O celular trouxe o escrit\u00f3rio e o lar para qualquer canto do miser\u00e1vel planeta. Todos resolvem seus pepinos por meio da conversa sem fio. N\u00e3o conseguimos captar o fio da meada, mas sabemos sempre que se trata de algo intranspon\u00edvel, uma entrega que foi parar em Jacarta e n\u00e3o em S\u00e3o Francisco do Sul, que talvez a repeti\u00e7\u00e3o de palavras como &#8220;t\u00e1, estou chegando&#8221; poder\u00e1 resolver. Mas nada resolve.<\/p>\n<p>Certamente os usu\u00e1rios de celular chegar\u00e3o em casa e o cachorrinho Bob j\u00e1 deve ter mastigado mesmo o sof\u00e1, o\u00adnde o marido tenta ver o jogo, mas parece que vai ser repetido, pois foi roubado. O problema \u00e9 que temos todas as solu\u00e7\u00f5es \u00e0 m\u00e3o, mas tudo fica num impasse. Vemos pelo notici\u00e1rio que basta voc\u00ea acoplar um chip amig\u00e1vel wireless na banda super larga da infonet viabilizada pela Nasa que poder\u00e1 ent\u00e3o trabalhar remotamente, vivendo numa ilha do Pac\u00edfico. Se n\u00e3o houver tsunami, nem furac\u00e3o, voc\u00ea poder\u00e1 desfrutar a vida colhendo lagostin com sua rede de nylon com qualidade ISO um milh\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 perigo de aparecer um vendedor de morangos.<\/p>\n<p>Foi s\u00f3 falar nisso para lembrar da minha colega de trabalho, que voltou suada, toda vermelha, da cabe\u00e7a aos p\u00e9s. &#8211; O que aconteceu? &#8211; perguntei, assombrado, j\u00e1 cavocando com o polegar o n\u00famero da Emerg\u00eancia. &#8211; Falei para ir vender em outro lugar &#8211; disse ela, decidida. &#8211; E&#8230;? &#8211; perguntaram todos. &#8211; O cara falou que j\u00e1 tinha vendido tudo. S\u00f3 estava ali para segurar o ponto. Se um concorrente aparecesse, ele daria uma rasteira competitiva. Perguntei como funcionava. Ele fez uma demonstra\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Fiquei vermelha, de raiva, e n\u00e3o pelo tombo em cima dos restos de morango que estragaram com o morma\u00e7o de hoje. Rasteira competitiva foi a mesma coisa que aprendi no curso da consultoria, especializada em informa\u00e7\u00f5es privilegiadas para assessores da diretoria. S\u00f3 n\u00e3o me disseram que a gente ia encontrar esse tipo de encrenca na rua.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nossa colega estava surtada porque n\u00e3o conseguira explicar direito o objetivo do seu projeto. Sab\u00edamos s\u00f3 que o tro\u00e7o agregava valor. Ou tinha algo a ver com qualidade de vida e meio ambiente. Parece que o importante era a transpar\u00eancia e n\u00e3o sei mais o qu\u00ea. Concord\u00e1vamos com ela, apesar de n\u00e3o entendermos patavina, s\u00f3 pelo al\u00edvio que poderia gerar nosso assentimento diante do seu nervosismo. (Cr\u00f4nica pubicada dia 6\/11\/2005 no caderno Donna, do Di\u00e1rio Catarinense)<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1207"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1207"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1207\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2113,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1207\/revisions\/2113"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1207"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1207"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1207"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}