{"id":1209,"date":"2009-12-18T19:57:44","date_gmt":"2009-12-18T21:57:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1209"},"modified":"2009-12-20T19:20:02","modified_gmt":"2009-12-20T21:20:02","slug":"polanski-a-gangorra-do-mal","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/polanski-a-gangorra-do-mal","title":{"rendered":"POLANSKI, A GANGORRA DO MAL"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 luta do Bem contra o Mal em Roman Polanski, h\u00e1 apenas a revela\u00e7\u00e3o de todas as nuances do Mal. Desde sua estr\u00e9ia em <em>A Faca na \u00c1gua<\/em>, em que personagens prisioneiros se defrontam com a falta de solu\u00e7\u00e3o e sa\u00eddas, passando pela investiga\u00e7\u00e3o criminosa que mostra o quanto o poder p\u00fablico \u00e9 protagonista da trag\u00e9dia da cidadania, e chegando ao desfecho da busca desesperada de Harrisson Ford por Paris, o\u00adnde procura a mulher e se envolve com a dama de vermelho que o seduz e acaba sacrificada, Polanski \u00e9 esse cineasta intrag\u00e1vel que n\u00e3o faz concess\u00f5es \u00e0 ilus\u00e3o do que entendemos por humano. Por ser brilhante, jamais faz do seu cinema uma instala\u00e7\u00e3o em preto e branco, ou um pastiche de formas que sucumbem ao que traz \u00e0 tona. Com ele, o Mal sobe e desce na nossa percep\u00e7\u00e3o como gangorra sinistra.<\/p>\n<p>MONSTRO &#8211; Somos v\u00edtimas de seus jogos mortais, pois nos seduzimos pelo thriller policial que faz Jack Nicholson entender como funciona o abastecimento de \u00e1gua em Los Angeles, pelas pistas deixadas pela esposa desaparecida at\u00e9 ser trocada num resgate \u00e0 beira do Sena. Ele usa a narrativa para nos enredar na sua maldi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o satisfeito com essa performance, ainda \u00e9 capaz de nos surpreender fazendo o vil\u00e3o s\u00e1dico que corta o nariz do her\u00f3i que procura a verdade ou ainda pior, incorporando um delegado no meio de um temporal perdido no ermo, quando faz o lento e doloroso balan\u00e7o da vida do escritor que pensa ainda estar vivo. Polanski nos humilha porque coloca barreiras indevass\u00e1veis entre o espectador e o criador da obra. Nunca chegaremos aos seus redutos. Eles apenas usa o que nos ilude para decifrar o c\u00f3digo que nos mant\u00e9m vivos e bate nesse brinquedo caro com os p\u00e9s. Desde o dia em que os vampiros desceram do teto para sugar sua esposa mais tarde assassinada por fan\u00e1ticos, ele consegue ser o que detestamos admitir. O que guardamos como ossos de um ba\u00fa sem chave ele retira com a gargalhada de uma crian\u00e7a precocemente amaldi\u00e7oada. Queremos dist\u00e2ncia desse baixinho, mas ele insiste, e descerra a brutalidade da Hist\u00f3ria para nos fazer resvalar precip\u00edcio abaixo. Quando estamos vendo um filme de Polanski, nossas convic\u00e7\u00f5es caem junto com o nosso corpo, e o olhar que t\u00ednhamos perde o sentido. Resta Polanski pronto para rasgar o ventre da superf\u00edcie da \u00e1gua e retirar do fundo do rio as v\u00edsceras de um monstro que n\u00e3o queremos ver.<\/p>\n<p>PROFECIA &#8211; Seu cinema divide o Tempo. Polanski j\u00e1 sabia o que nos esperava no s\u00e9culo 21 e resolveu compartilhar suas alegorias cevadas em pesadelo para que nos prepar\u00e1ssemos. Jamais estaremos prontos para tanta crueza. Queremos colo, sorvete, footing na pra\u00e7a. Mas basta caminhar um pouco pela rua vazia de um ver\u00e3o antigo para lembramos que foi sempre assim nos filmes que marcaram \u00e9poca. Aquele John Wayne irreconhec\u00edvel de John Ford que quer matar a sobrinha que sobreviveu ao massacre dos \u00edndios; aquele Alan Ladd que some no horizonte ferido enquanto a crian\u00e7a que somos n\u00f3s grita por Shane; aquele Mois\u00e9s de que desce da montanha com a t\u00e1buas da lei transfigurado de pavor por ter visto Deus; aquele salto triplo de Tony Curtis quando dedica o \u00faltimo suspiro ao abismo, para cair no punho de um Burt Lancaster at\u00e9 ali perdedor; aquele violinista no telhado; aquele arco \u00edris que n\u00e3o chega no caminhar sem fim rumo a Oz e \u00e0 casa paterna; aquela dan\u00e7a de Russ Tamblin, o maior dan\u00e7arino do cinema de todos os tempos, tentando fazer rir pelo exagero suicida do corpo quebrado; aquela morte de Maria\/ Natalie Wood em <em>West Side Story<\/em>; aquela sombra de Dusseldorf; aquele barco de Limite e de Aurora; aquela decep\u00e7\u00e3o da florista que reconhece seu benfeitor; aquele peda\u00e7o de circo deixado no ch\u00e3o antes de Chaplin partir para a estrada sem fim; essa dor que \u00e9 a s\u00e9tima arte, a que nos fez maiores do que jamais ser\u00edamos, arte que partiu e \u00e0s vezes volta em alguns filmes poderosos, mas que sabemos ter ido embora como as dilig\u00eancias perdidas no deserto, como o capit\u00e3o Ahab amarrado a Moby Dick, como o Capit\u00e3o Kurz mortalmente ferido pela sombra, como o Godfather sussurrando o poder para o filho.<\/p>\n<p>ADEUS &#8211; Quando partirmos, os anjos nos perguntar\u00e3o: o que fizeram de suas vidas? <em>Fomos ao cinema<\/em>, diremos, e Deus talvez se apiede de nossas almas pecadoras. O Mal ent\u00e3o, sair\u00e1 do caminho, pois n\u00e3o seremos mais humanos, e Polanski poder\u00e1 estar entre n\u00f3s, sem se aproximar, sem se aproximar, sem se aproximar&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o h\u00e1 luta do Bem contra o Mal em Roman Polanski, h\u00e1 apenas a revela\u00e7\u00e3o de todas as nuances do Mal. Desde sua estr\u00e9ia em A Faca na \u00c1gua, em que personagens prisioneiros se defrontam com a falta de solu\u00e7\u00e3o e sa\u00eddas, passando pela investiga\u00e7\u00e3o criminosa que mostra o quanto o poder p\u00fablico \u00e9 protagonista da trag\u00e9dia da cidadania, e chegando ao desfecho da busca desesperada de Harrisson Ford por Paris, o\u00adnde procura a mulher e se envolve com a dama de vermelho que o seduz e acaba sacrificada, Polanski \u00e9 esse cineasta intrag\u00e1vel que n\u00e3o faz concess\u00f5es \u00e0 ilus\u00e3o do que entendemos por humano. 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