{"id":121,"date":"2005-05-15T14:32:01","date_gmt":"2005-05-15T16:32:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=121"},"modified":"2009-12-21T00:50:11","modified_gmt":"2009-12-21T02:50:11","slug":"a-mutacao-dos-espacos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-mutacao-dos-espacos","title":{"rendered":"A muta\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O impressionante cl\u00e1ssico (tudo aquilo que merece ser estudado em classe) de quarta-feira, 22, entre Santos e Flamengo, foi t\u00e3o intenso e cheio de eventos que a pressa em escrever cai na tenta\u00e7\u00e3o de deixar de lado suas principais revela\u00e7\u00f5es. Mas, para n\u00e3o perder o mote, podemos definir a pauta da seguinte maneira: a bola disputada nos m\u00ednimos detalhes multiplicou o que mais falta no futebol, espa\u00e7o para fazer a jogada e chutar em gol; o passe de calcanhar pode ser feito seriamente e n\u00e3o expressar apenas uma firula; o comando coletivo flamenguista (Junior e Ricardo Gomes) contrastava com a estrat\u00e9gia do artista solo (Vanderlei Luxemburgo); a composi\u00e7\u00e3o rand\u00f4mica de craques veteranos e novatos, em ambos os lados, descreve uma solu\u00e7\u00e3o eficaz para a crise do futebol brasileiro; e o gol de Deivid aos 46 minutos e meio do segundo tempo confirma a tautologia de espantosa profundidade do grande cartola corintiano, Vicente Matheus, de que o jogo s\u00f3 acaba quando termina.<br \/>\nSuperf\u00edcie<\/p>\n<p>O que \u00e9 um campo de futebol? &#8220;O vazio dos est\u00e1dios depois dos jogos&#8221;, j\u00e1 disse o poeta Marco Celso Viola. Um gramado n\u00e3o \u00e9 nada, a n\u00e3o ser que os jogadores fa\u00e7am dele um volume de possibilidades. O drible \u00e9 a inven\u00e7\u00e3o da clareira; um passe \u00e9 o perigoso movimento de uma placa tect\u00f4nica (que na geografia \u00e9 uma teoria que n\u00e3o me convence); o resgate da bola no extremo canto \u00e9 um atentado \u00e0 verossimilhan\u00e7a. Esse cruzamento de coisas faz com que, na maior parte do tempo, a guerra se manifeste pelo choque entre os ossos, os agarr\u00f5es na camisa, o debru\u00e7ar-se sobre o cangote alheio para fazer um cabeceio imposs\u00edvel. Tudo levaria \u00e0 morte se o futebol fosse um jogo de verdade. Mas como \u00e9 o fino da representa\u00e7\u00e3o do conflito, uma brincadeira adotada pela divindade, tudo fica mais f\u00e1cil de entender: o futebol \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o de destinos e a gl\u00f3ria suprema de her\u00f3is que se retiram ainda mo\u00e7os para uma vida intranq\u00fcila. Por isso tor\u00e7o por Maradona em sua nova fase em Cuba. E acho brilhante a aposentadoria do Rei Pel\u00e9, que vai doar para a caridade seu sal\u00e1rio. Eles continuam jogando cada vez melhor. Basta rever qualquer um dos seus gols, feitos neste mundo sem gra\u00e7a, a n\u00e3o ser que Robinho ponha na gaveta o p\u00eanalty precioso de uma classifica\u00e7\u00e3o. Ou que os goleiros Mauro, pelo Santos, e Julio C\u00e9sar , pelo flamengo, interponham limites \u00e0 muta\u00e7\u00e3o constante de espa\u00e7os gerados pelo movimento dos atacantes.<\/p>\n<p><strong>F\u00f4lego<\/strong><\/p>\n<p>De onde os jogadores tiram tanto ar? Como conseguem fazer do fole dos pulm\u00f5es o instrumento de uma capacidade infinita? \u00c9 f\u00e1cil entender isso entre os mais jovens, mas o que dizer dos que nasceram muito antes? O que deu gra\u00e7a, for\u00e7a e gana no jogo foi o equil\u00edbrio entre idades diferentes, que deveria ser o perfil de todo time que se preze. No jogo de ontem, t\u00ednhamos, pelo Flamengo, Zinho e Junior Baiano (que limpou sua biografia nos noventa minutos em que disputou com ra\u00e7a todas as bolas e ainda foi decisivo num dos gols do seu time) ao lado de Ibson (que comeu a bola) e Felipe (sempre craque). E do Santos, t\u00ednhamos Ricardinho distribuindo bolas para Robinho e o resto da meninada, incluindo Bas\u00edlio, n\u00e3o t\u00e3o jovem assim. Todos iam buscar, ningu\u00e9m desistia de nada. Era um jogo de decis\u00e3o da Copa Sul-americana, que encerrava um conflito nos bastidores. A Globo teria pressionado o Santos a participar da Copa, o que fez correr o boato de que Luxemburgo e a diretoria do time estavam fazendo corpo mole para a competi\u00e7\u00e3o. No desabafo de ontem, quando terminou a maravilhosa peleja, Luxemburgo falou em linguagem cifrada, para todos os microfones, menos o da Globo. Disse que nunca quis boicotar nada, apenas pediu um pouco de profissionalismo, reclamando do poder de quem est\u00e1 fora do futebol e que vivem mandando em tudo. Luxemburgo \u00e9 mestre do conflito. Suas entrevistas nunca s\u00e3o tranq\u00fcilas, \u00e9 sempre um embate de palavras. E palavra foi o que n\u00e3o faltou ontem. Basta ver Ricardo Gomes falando de modo contundente para Dill, que entraria no lugar de Zinho. O jogo terminou nos p\u00eanaltis, com a vit\u00f3ria do Santos. Mas o resultado real e justo foi o empate de dois a dois.<\/p>\n<p><strong>Vers\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>O lance mais incr\u00edvel foi o primeiro gol do Flamengo. Junior Baiano chutou a falta e a bola caiu nos p\u00e9s de Ibson, que esperava o biro\u00e7o j\u00e1 com o p\u00e9 torcido para desvi\u00e1-la para o gol. Junior Baiano saiu comemorando, mas a certa altura ficou sozinho. A\u00ed virou-se e viu Ibson sendo cumprimentado por todos. Houve ent\u00e3o uma pol\u00eamica entre os comentaristas: a bola bateu no p\u00e9 de Ibson, portanto o gol era de Junior; ou Ibson conscientemente colocou a bola para dentro do gol, o que lhe dava a autoria do feito. Todos deram sua opini\u00e3o, at\u00e9 consultarem a fonte verdadeira, o pr\u00f3prio Ibson. E a\u00ed, a bola bateu em voc\u00ea ou voc\u00ea bateu na bola? As duas coisas, revelou, num insight supremo, o craque. Isso \u00e9 o futebol: um desafio da percep\u00e7\u00e3o, pois trata-se de encaixar uma esfera em espa\u00e7os retangulares, selecionar curvas e retas e brincar com a percep\u00e7\u00e3o alheia para poder vencer. Uma jogada filmada, repetida, vista por milhares, teve que ser debatida e s\u00f3 foi resolvida pela palavra. Futebol \u00e9 uma arte qu\u00e2ntica, com v\u00e1rias possibilidades de realidade. O bom \u00e9 que o jogo foi transmitido pelo Luciano do Vale, o n\u00famero 1, pela Record. Luciano faz de um zero a zero um espet\u00e1culo inesquec\u00edvel. Imaginem o que fez no jogo de ontem. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de dotes oper\u00edsticos (da melhor \u00f3pera), mas suas ferramentas, como a repeti\u00e7\u00e3o da mesma frase para definir melhor a emo\u00e7\u00e3o da jogada; sua voca\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica para focar o que \u00e9 mais importante e pedir a opini\u00e3o de todos os envolvidos; e seu incendi\u00e1rio entusiasmo que a tudo contamina, como o canto esperan\u00e7oso de um p\u00e1ssaro que anuncia uma esta\u00e7\u00e3o mais amena.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O impressionante cl\u00e1ssico (tudo aquilo que merece ser estudado em classe) de quarta-feira, 22, entre Santos e Flamengo, foi t\u00e3o intenso e cheio de eventos que a pressa em escrever cai na tenta\u00e7\u00e3o de deixar de lado suas principais revela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[8],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/121"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=121"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/121\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1529,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/121\/revisions\/1529"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=121"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=121"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=121"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}