{"id":1212,"date":"2009-12-18T19:59:53","date_gmt":"2009-12-18T21:59:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1212"},"modified":"2009-12-20T23:31:53","modified_gmt":"2009-12-21T01:31:53","slug":"o-brasil-que-perdemos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-brasil-que-perdemos","title":{"rendered":"O BRASIL QUE PERDEMOS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>Se a Hist\u00f3ria \u00e9 pura representa\u00e7\u00e3o, como quer Hayden White e seu inesquec\u00edvel livro <em>Tr\u00f3picos do Discurso<\/em>; se os fatos jamais poder\u00e3o ser resgatados em toda a sua complexidade, mas podem ser entendidos em parte gra\u00e7as \u00e0 pesquisa e \u00e0 conceitua\u00e7\u00e3o, como quer Weber e seu Tipo Ideal; e se a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa n\u00e3o passa de uma vers\u00e3o genial de Michelet constru\u00edda 40 anos depois da Queda da Bastilha (em que seus desdobramentos, a ditadura imperial e a restaura\u00e7\u00e3o mon\u00e1rquica, fatos, foram deixados em segundo plano em benef\u00edcio da id\u00e9ia de hero\u00edsmo popular), ent\u00e3o a Hist\u00f3ria n\u00e3o pode ser vista a olho nu. Cai por terra, assim, o lugar-comum &#8220;testemunha ocular da Hist\u00f3ria&#8221;, t\u00e3o cara ao jornalismo brasileiro, at\u00e9 hoje vigente, tanto \u00e9 que os rep\u00f3rteres de TV costumam repetir que &#8220;estamos presenciando um momento hist\u00f3rico&#8221;.<\/p>\n<p>Mas a sofistica\u00e7\u00e3o te\u00f3rica n\u00e3o costuma se implantar automaticamente, e toda a mudan\u00e7a de paradigma, como defendeu Thomas Kuhn e sua obra <em>A estrutura das revolu\u00e7\u00f5es cient\u00edficas<\/em>, se imp\u00f5e for\u00e7ada pelo Tempo e n\u00e3o pela L\u00f3gica, ou seja, s\u00f3 quando as carreiras acad\u00eamicas fundadas nos par\u00e2metros consagrados desaparecerem da Terra \u00e9 que h\u00e1 alguma chance das novas teorias serem aceitas definitivamente. Foi assim com Newton, como exemplifica Kuhn, e se foi com Newton, o quanto ser\u00e1 com outros menos importantes?<\/p>\n<p>Estar\u00e3o fadados a longo ex\u00edlio, especialmente no Brasil, o\u00adnde o deslocamento entre teoria e pr\u00e1tica dita o perfil da na\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica, como provou Roberto Schwarz no cl\u00e1ssico sobre Machado de Assis <em>Um mestre na periferia do capitalismo<\/em>, livro de leitura obrigat\u00f3ria e que deveria ser debatido em pra\u00e7a p\u00fablica para implantar no pa\u00eds a no\u00e7\u00e3o da democracia das id\u00e9ias. Seria exatamente ao contr\u00e1rio da atual situa\u00e7\u00e3o, em que cristaliza\u00e7\u00f5es do imagin\u00e1rio se digladiam num estado de ruptura permanente, em que tudo fica pior, fruto da vontade jamais alcan\u00e7ada de mudan\u00e7a sem o apoio da verdadeira ilumina\u00e7\u00e3o das leituras, a que nos transforma pela ess\u00eancia e pelo detalhe e jamais pela imagem que se faz de um livro ou autor. Mas se enganar o povo n\u00e3o tem voca\u00e7\u00e3o para o eterno, como determinou Abraham Lincoln, h\u00e1 chances de chegar ao fim o ex\u00edlio a que foram condenados fatos e vers\u00f5es.<\/p>\n<p>Dois autores, de gera\u00e7\u00f5es opostas, nos iluminam pela constru\u00e7\u00e3o de um resgate profundo do que continua oculto no pa\u00eds do eterno presente. Um \u00e9 o romance <em>Quando alegre partiste &#8211; Melodrama de um delirante golpe militar<\/em> (Francis, 287 p\u00e1ginas), de <strong>Moacir Japiassu<\/strong>, romancista maior (autor de <em>Concerto para paix\u00e3o e desatino<\/em> e <em>A Santa do Cabar\u00e9<\/em>), veterano e considerado jornalista que desde os anos 1960 percorreu as reda\u00e7\u00f5es brasileiras com o brilho do seu talento e a acidez ilustrada da sua escrita. O outro \u00e9 a biografia <em>75kg de m\u00fasculos e f\u00faria &#8211; Tarso de Castro, a vida de um dos mais pol\u00eamicos jornalistas brasileiros <\/em>(Editora Planeta, 268 p\u00e1ginas), de <strong>Tom Cardoso<\/strong>, representante da nova e brilhante gera\u00e7\u00e3o de jornalistas que, apesar de todas as dificuldades, se destaca pelo inconformismo e o trabalho duro. Tom \u00e9 filho de Jary Cardoso, um dos mais importantes jornalistas culturais do pa\u00eds, o profissional que trabalhou v\u00e1rias vezes com Tarso de Castro e \u00e9 contempor\u00e2neo de Japiassu. Nesse enlace de protagonistas, podemos detectar, tanto na fic\u00e7\u00e3o quanto na representa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica (j\u00e1 que a biografia de Tarso escrita por Tom \u00e9 o concerto breve e demolidor de um tempo que se foi), uma na\u00e7\u00e3o interrompida no auge da sua criatividade e grandeza e que deixou marcas, que hoje nos cabe incorporar.<\/p>\n<p>Japiassu recomp\u00f5e o trajeto de alguns personagens, a maioria militando na imprensa carioca e mineira, que se deparam com o pesadelo: o golpe de 1964, que encerrou a carreira de um Brasil orgulhoso de suas lutas e inaugurou a na\u00e7\u00e3o que temos hoje, dividida e violenta, ap\u00e1tica e com a soberania amea\u00e7ada. A profiss\u00e3o, na \u00e9poca, e antes da sedi\u00e7\u00e3o, era exercida com as contradi\u00e7\u00f5es normais de empresas ligadas \u00e0 sobreviv\u00eancia econ\u00f4mica, mas a popula\u00e7\u00e3o que a habitava, formada na excel\u00eancia da escola p\u00fablica ainda n\u00e3o sucateada, impunha seu estilo por meio da coragem e da teimosia. J\u00e1 existiam, na \u00e9poca, os grandes jornalistas, que fizeram Hist\u00f3ria e que mantinham a linhagem, mais tarde interrompida, de gera\u00e7\u00f5es formadas no front, na escola da m\u00e1quina de escrever e das ruas, sem as imposi\u00e7\u00f5es da forma\u00e7\u00e3o especializada. Eram generalistas talentosos, envolvidos num vendaval de fatos e situa\u00e7\u00f5es que os empurrava para a trag\u00e9dia. Mas Japiassu escreve com a liberdade dos criadores. N\u00e3o comp\u00f5e um pano de fundo para a Hist\u00f3ria, antes denuncia a contrafa\u00e7\u00e3o imposta pelo golpe, por meio de cita\u00e7\u00f5es de trechos publicados na imprensa, que ficou sob morda\u00e7a. Cada cap\u00edtulo \u00e9 precedido por um peda\u00e7o dessa empulha\u00e7\u00e3o, o que d\u00e1 liberdade para o estrategista do texto reverter a situa\u00e7\u00e3o, pois seu objetivo \u00e9 estocar a ferida e v\u00ea-la sangrar.<\/p>\n<p>Para que isso aconte\u00e7a, ele \u00e9 impiedoso com todo mundo. N\u00e3o libera os jornalistas da \u00e9poca, hoje sob a aura do hero\u00edsmo, das iniq\u00fcidades comuns do humano, como o v\u00edcio e a covardia. Mas esse jogo limpo com os personagens o deixa livre para entender a grandeza desses grupos colhidos pelo Mal. Como todo grande romancista, Japiassu n\u00e3o presta tributo ao bom comportamento e sua virul\u00eancia s\u00f3 nos liberta, antes de nos incomodar. \u00c9 crua a narra\u00e7\u00e3o cheia de \u00e1lcool, tabaco e coca\u00edna, tortura e fuga, humor e desespero. Mas \u00e9 nesse rio tormentoso que nos lan\u00e7amos sem nos afogar, para navegar n\u00e3o s\u00f3 na perfei\u00e7\u00e3o da obra, como nas revela\u00e7\u00f5es liberadas pelo pesadelo. A partir do que ele narra, \u00e9 poss\u00edvel entender melhor o Brasil que perdemos, mas que ainda pulsa, soberano, no cora\u00e7\u00e3o dos habitantes vivificados pelo testemunho dos sobreviventes.<\/p>\n<p>Tom Cardoso estoca fundo essa ferida aberta no romance de Japiassu. Seu livro come\u00e7a em 1968, quando Tarso de Castro, o jornalista fundador do Pasquim, entre outros jornais de radical inova\u00e7\u00e3o, irrompe na \u00daltima Hora do Rio na coluna <em>Na Hora H<\/em>, confrontando os personagens da ditadura antes do desfecho do Ato Institucional N\u00ba 5. O carisma de Tarso e o fasc\u00ednio que exerce em seus contempor\u00e2neos s\u00e3o reconstru\u00eddos por Tom num texto que Tarso de Castro n\u00e3o s\u00f3 aprovaria, mas provocaria nele uma das suas c\u00e9lebres gargalhadas. Nos detalhes, somos conquistados por revela\u00e7\u00f5es surpreendentes: Tarso \u00e9 o cabeludo que aparece na rua da amante na can\u00e7\u00e3o de Roberto Carlos, Detalhes, j\u00e1 que os dois disputavam a mesma mulher; Paulo C\u00e9sar Pereio, o ator amigo de Tarso, foi o autor da letra do hino da Legalidade, o movimento que impediu um golpe de Estado em 1961, liderado por Leonel Brizola, e foi definitivo para a carreira de toda uma gera\u00e7\u00e3o de jornalistas, n\u00e3o s\u00f3 do Rio Grande do Sul; Tarso abandonou a musa de Hollywood, Candice Bergen (depois se arrependeu); o <em>Folhetim<\/em>, encarte da Folha que duplicou as vendas do jornal em 1977-1978, foi criado por Tarso e Octavio Frias de Oliveira, patr\u00e3o da Folha, numa mesa do Rodeio, sem o conhecimento do diretor de Reda\u00e7\u00e3o, Cl\u00e1udio Abramo, que estava doente; <em>O Panfleto<\/em>, jornal trabalhista fechado pelo golpe de 64, foi uma pr\u00e9-estr\u00e9ia, regida por Tarso, do Pasquim, tabl\u00f3ide carioca que chegou a vender mais de 200 mil exemplares por semana, foi esvaziado pela ditadura, mas marcou a imprensa brasileira para sempre.<\/p>\n<p>Os dois livros trabalham a mat\u00e9ria-prima de maneira diferente e em graus variados. Japiassu \u00e9 o mestre de um texto admirado por talentos como Augusto Nunes (autor do pref\u00e1cio, que faz o balan\u00e7o da carreira liter\u00e1ria do autor). Tom \u00e9 um estreante com gana de vencedor, com texto limpo e transparente, que n\u00e3o perde tempo explicando demais, j\u00e1 que confia na intelig\u00eancia do leitor. Ambos, separados por d\u00e9cadas na certid\u00e3o de nascimento, nos garantem leitura fundamental para o Brasil, que precisa ser reconstru\u00eddo em toda a sua grandeza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois autores, de gera\u00e7\u00f5es opostas, nos iluminam pela constru\u00e7\u00e3o de um resgate profundo do que continua oculto no pa\u00eds do eterno presente. Um \u00e9 o romance Quando alegre partiste &#8211; Melodrama de um delirante golpe militar (Francis, 287 p\u00e1ginas), de Moacir Japiassu, romancista maior (autor de &#8220;Concerto para paix\u00e3o e desatino&#8221; e &#8220;A Santa do Cabar\u00e9&#8221;), veterano e considerado jornalista que desde os anos 1960 percorreu as reda\u00e7\u00f5es brasileiras com o brilho do seu talento e a acidez ilustrada da sua escrita. O outro \u00e9 a biografia 75kg de m\u00fasculos e f\u00faria &#8211; Tarso de Castro, a vida de um dos mais pol\u00eamicos jornalistas brasileiros (Editora Planeta, 268 p\u00e1ginas), de Tom Cardoso, representante da nova e brilhante gera\u00e7\u00e3o de jornalistas que, apesar de todas as dificuldades, se destaca pelo inconformismo e o trabalho duro. (Resenha publicado no caderno Cultura, do Di\u00e1rio Catarinense, dia 29\/10\/2005)<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1212"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1212"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1212\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1214,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1212\/revisions\/1214"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1212"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1212"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1212"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}