{"id":1218,"date":"2009-12-18T20:35:23","date_gmt":"2009-12-18T22:35:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1218"},"modified":"2009-12-20T23:50:12","modified_gmt":"2009-12-21T01:50:12","slug":"lua-vespera-de-praia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/lua-vespera-de-praia","title":{"rendered":"LUA, V\u00c9SPERA DE PRAIA"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: x-small;\"><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>No horizonte, \u00e0 esquerda, massa compacta de nuvens nos lembra o quanto choveu nesta primavera. Mas acima do teto, fiapos de algod\u00e3o s\u00e3o incendiados pela lua quase cheia. As estrelas s\u00e3o diamantes fixos e espa\u00e7ados, que o perfil de uma menina transparente, alta como o c\u00e9u, recolhe numa cesta de vime. O lento rolar das pequenas nuvens fazem uma das estrelas vagar como um aster\u00f3ide, um sat\u00e9lite, uma nave. Depois, na alta madrugada, saio para ver o cachorro que late. A luz intensa debate-se na varanda. Tudo est\u00e1 quieto no territ\u00f3rio das corujas. O manto quase azul promete mar na manh\u00e3 seguinte. Amanhe\u00e7o acordado na vasta faixa de areia e l\u00e1 est\u00e1 mar, claro, manso, t\u00e9pido. Ao longe, contei 18 barcos de pesca, em prontid\u00e3o diante dos cardumes. Tudo come\u00e7a a fazer sentido depois de tanto inverno, tanta luta e tanta certeza de n\u00e3o pertencer a nada, a n\u00e3o ser a esta paisagem nem sempre am\u00e1vel, mas que sabe mostrar seus encantos quando o mesmo equil\u00edbrio que mant\u00e9m a lua no c\u00e9u espalha-se pelos morros verdes.<\/p>\n<p>LUGAR &#8211; N\u00e3o perten\u00e7o \u00e0 literatura, ocupada por tantos luminares. N\u00e3o perten\u00e7o \u00e0 pol\u00edtica, com tanta gente se manifestando. N\u00e3o perten\u00e7o ao sul ou ao norte, exilado do ambiente que me encara. N\u00e3o perten\u00e7o \u00e0s gentes, migrante eterno no pa\u00eds em obras. N\u00e3o perten\u00e7o \u00e0 rede, cheia de tudo e todos. Nenhuma profiss\u00e3o me comove, a n\u00e3o ser esse of\u00edcio com palavras, gratuito como um peda\u00e7o de p\u00e3o abandonado. N\u00e3o perten\u00e7o aos sonhos que se realizam, quando ent\u00e3o emergem as caras satisfeitas dos bem resolvidos. Nem aos pesadelos definidos em bastidores escuros.<\/p>\n<p>Dizem que o planeta est\u00e1 mais quente, mas s\u00f3 vi frio nos \u00faltimos meses. Que existe seca, mas a \u00e1gua n\u00e3o parou de correr. N\u00e3o fa\u00e7o parte da metereologia, do notici\u00e1rio, dos rankings, das opini\u00f5es, das posi\u00e7\u00f5es, dos esgares, dos luxos e das mis\u00e9rias. Algu\u00e9m me fala como fui h\u00e1 tempos e n\u00e3o me reconhe\u00e7o. Nada sei de mim e minha biografia, se \u00e9 que existe uma. Perten\u00e7o apenas \u00e0 mem\u00f3ria e ao presente pontuado de dias e noites. Tardes que se derramam de potes imagin\u00e1rios, amargos momentos de desesperan\u00e7a, vestes gastas, cabe\u00e7a em frangalhos. Textos cr\u00f4nicos que me servem de sentinela. Acenos, raros, na multid\u00e3o com pressa.<\/p>\n<p>Perten\u00e7o \u00e0quela cal\u00e7ada varrida pelas mulheres antigas, pela terra lavada de chuva, pelo rio que desce e sobe conforme a esta\u00e7\u00e3o que se avizinha. Fa\u00e7o parte desse territ\u00f3rio sem hist\u00f3ria, o\u00adnde medra o capim ralo, a flor prec\u00e1ria, a vida escassa. Estou por toda a parte porque nenhum lugar me recebe.<\/p>\n<p>POESIA &#8211; N\u00e3o h\u00e1 cr\u00e9dito, h\u00e1 na\u00e7\u00e3o de menos, h\u00e1 medo demais. Desfilamos diante do nada como cidad\u00e3os sem rosto. Mas h\u00e1 poesia quando a crian\u00e7a se deslumbra com o v\u00f4o das gaivotas. H\u00e1 o poema, que vem em socorro do que perdemos. H\u00e1 livros que chegam, companheiros de uma viagem absurda. Algumas mensagens, sinais de vida longa, que jamais se cumpre. Quem somos n\u00f3s, criaturas que Deus acolhe em seu rega\u00e7o e atende s\u00faplicas e preces para continuar o caminho? N\u00e3o fazemos parte do calend\u00e1rio, nem dos eventos, nem das homenagens. Passamos pela terra como o vento. O tempo enfim se mostra, com seu acervo de possibilidades. Colocamos a coura\u00e7a e vamos para o trabalho. L\u00e1, desistimos de ser o que plantamos. Viramos espigas ao sol, que deita sementes sem nenhuma prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>C\u00f3digos passam em v\u00e3o por nossas m\u00e3os em brasa. Ningu\u00e9m nos conhece, n\u00f3s que arrumamos espa\u00e7o nestes dois s\u00e9culos que nos tingem de algo jamais decifrado. Vivo o minuto como quem recebe uma b\u00ean\u00e7\u00e3o. H\u00e1 barulho de cascos, espadas retinindo em noite de lua quase cheia. O cachorro late para o infinito. Abro a porta e vejo. Deus est\u00e1 atento e dorme. O luar \u00e9 seu espelho. Quando some, o mar assoma sua imensid\u00e3o sagrada. Mergulho contra a o\u00adnda e o corpo se move. Volto como um filho \u00e0 casa materna que nos recolhe.<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o h\u00e1 cr\u00e9dito, h\u00e1 na\u00e7\u00e3o de menos, h\u00e1 medo demais. Desfilamos diante do nada como cidad\u00e3os sem rosto. Mas h\u00e1 poesia quando a crian\u00e7a se deslumbra com o v\u00f4o das gaivotas. H\u00e1 o poema, que vem em socorro do que perdemos. H\u00e1 livros que chegam, companheiros de uma viagem absurda. Algumas mensagens, sinais de vida longa, que jamais se cumpre. 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