{"id":1227,"date":"2009-12-18T20:39:38","date_gmt":"2009-12-18T22:39:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1227"},"modified":"2009-12-20T23:34:10","modified_gmt":"2009-12-21T01:34:10","slug":"o-dia-de-prata-no-meio-do-mato","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-dia-de-prata-no-meio-do-mato","title":{"rendered":"O DIA DE PRATA NO MEIO DO MATO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Sa\u00edmos do acampamento j\u00e1 tarde, depois das dez da noite. Soube do hor\u00e1rio pelas ondas direcionais do grande r\u00e1dio de pilha do funileiro Sadi, companheiro eterno das pescarias da beira do arroio Rodrigues. Fomos em fila indiana, pisando graveto e barro, sendo a\u00e7oitados pela copa dos arbustos espinhentos. Nosso destino era a corredeira, que a madrugada encerrava para l\u00e1 do desconhecido, onde s\u00f3 os mateiros experientes chegam. Ainda me pergunto porque me levaram, se eu j\u00e1 estava pronto para dormir, depois de um dia sendo comido vivo pelos mosquitos e com coceiras por todo o corpo, fruto do ataque de micuins e mutucas. Meu cabelo era uma crosta dura de terra seca. Minhas m\u00e3os em carne viva lamentavam o tempo todo desperdi\u00e7ado em escamas e linhadas cheias de n\u00f3s. No meio da expedi\u00e7\u00e3o, sendo orientado pelo passos dos que iam \u00e0 frente e estocado pelos que vinham atr\u00e1s, desconfiei que todos estavam loucos e me levavam para longe da minha cama.<\/p>\n<p>\u00c1GUA &#8211; Ouvi longe o barulho do rio que naquelas paragens se atira sobre as pedras, caindo mais adiante. O som esperneava em meus ouvidos, mas eu prestava aten\u00e7\u00e3o no territ\u00f3rio complicado onde trafegava, esperando enfim o momento de sentar, descansar, deixar-me levar, entregar-me \u00e0 noite profunda. Olhei para o c\u00e9u. Tudo breu, nenhuma estrela. Havia um certo vento, que em vez de sacudir as folhas, me contava causos escusos, soprava segredos inaud\u00edveis, amedrontava o menino que jamais poderia ter chegado at\u00e9 ali. Quando chegamos na \u00e1gua, onde era imposs\u00edvel molhar os p\u00e9s sem correr o risco de ser levado correnteza abaixo, todos se dispersaram. Cuidavam de seus apetrechos e olhavam como assassinos a toca invis\u00edvel sob a superf\u00edcie. Meu pai sentou-se ao meu lado e preparou o bote. Jogou a linha bem na boca, como diz\u00edamos, com chumbada grossa, para que n\u00e3o perdesse tudo. A pescaria era de dourado, animal predador e arisco, que sai \u00e0 noite para ca\u00e7ar em \u00e1guas turbulentas e que por isso mesmo tinha a carne mais apreciada de todas as outras, al\u00e9m de ser o trof\u00e9u maior de quem pesca no rio Uruguai e seus arroios. Eu segurava um peda\u00e7o de galho e tentava parti-lo, de raiva. Mas o objeto era flex\u00edvel e envergava sem quebrar. Comecei a us\u00e1-lo para bater nas pedras com insist\u00eancia, pois tamb\u00e9m estava furioso por ter esquecido de trazer minha linhada, o que j\u00e1 tinha desencadeado gargalhadas sinistras daquela caravana que mais parecia um pesadelo. O barulho que eu fazia chamou a aten\u00e7\u00e3o do meu pai, normalmente absorto na sua milenar indiferen\u00e7a, que era pontuada sempre pela brasa de um cigarro. Te aquieta que j\u00e1 vem a lua, disse ele.<\/p>\n<p>ARCO &#8211; Olhei para todos os lados e n\u00e3o vi nada. Via apenas a corredeira come\u00e7ando a aparecer, a destacar-se ao meio do breu, como se algu\u00e9m tivesse passado cera brilhante sobre seu dorso e a afagava para que ficasse mais mansa e nos desse logo os peixes sonhados, para que eu pudesse voltar logo e me esconder no fundo da barraca. O rio tornou-se mais claro, insens\u00edvel diante da minha falsa esperteza disfar\u00e7ada em vontade de fugir, e na margem oposta, acima da copa do mato, um risco vermelho em curva e que tomava quase todo o horizonte desenhava um inc\u00eandio que n\u00e3o ardia. Era o lu\u00e3o gordo e vermelho do ver\u00e3o levantando como um arcanjo amea\u00e7ador. Comecei a rezar para livrar-me de todos os pecados, pois imaginava que est\u00e1vamos sendo incendiados sem que ningu\u00e9m atinasse, e eu estava s\u00f3 e indefeso nas m\u00e3os de debochados pescadores do pampa. A ascens\u00e3o continuou lenta e a lua agora tornava-se prata, fazendo com que todos n\u00f3s, que tocai\u00e1vamos dourados, aparecessem com todos os riscos do rosto e volumes do corpo. Podia ver o riso de um sem fazer barulho, outro colocando a m\u00e3o na testa para debochar da lua que imitava o sol. Tudo virou prata e inundou a noite com um dia espl\u00eandido e eu franzi a testa para entender o que se passava. De repente, borbulha o salto do dourado preso no anzol. Cezimbra foi o primeiro a gritar. Sadi chegou a chapinhar na beira de t\u00e3o nervoso. Mas quem tinha pego o bruto era meu pai, que gargalhava seu sorriso vencedor e foi puxando o peixe devagar, gozando com a cara de todos, que tinham medo que o dourado escapasse. Ele ent\u00e3o afundou as pernas na \u00e1gua e pegou o peixe pela guerla. Levantou sua prenda at\u00e9 a altura da cabe\u00e7a e gritou. Os outros quiseram aplaudir, mas a inveja era maior do que o entusiasmo. Houve reclama\u00e7\u00f5es de que o pr\u00eamio era pequeno demais para o alarido feito pelo pescador vitorioso.<\/p>\n<p>INVEN\u00c7\u00c3O &#8211; Mas o dourado \u00e9 manhoso e fingiu-se de morto, arqueando o corpo e abrindo e fechando as guerlas como se estivesse vencido e desesperado. No auge da gritaria e da celebra\u00e7\u00e3o, o animal deu um safan\u00e3o e soltou-se. Antes de sumir de novo, s\u00f3 para humilhar, foi at\u00e9 a beira onde eu estava extasiado e tocou sua boca na ponta do meu p\u00e9. Depois mergulhou e l\u00e1 na boca, bem no meio do arroio, deu um salto de miseric\u00f3rdia. Ouviu-se um ala puta que o bicho \u00e9 brabo. Meu pai ria sem parar, acompanhado pelos outros. A lua, impass\u00edvel, deitava seu esplendor sobre o menino molhado e taciturno que, de repente, pela primeira vez naquela noite, sentiu vontade de rir tamb\u00e9m. Era ver\u00e3o, eu era muito pequeno e aquilo que eu estava vivendo era t\u00e3o absurdamente verdadeiro que decidira inventar tudo. Queria apenas mostrar o quanto aquela expedi\u00e7\u00e3o fora importante para algu\u00e9m como eu, que um dia partiu para nunca mais voltar e tentava trazer de volta o que realmente sentiu naquela \u00e9poca. Soube depois que a viv\u00eancia no mato com meu pai jamais seria resgatada, em toda a sua desenvoltura de lua cheia iluminando o mato sobre a corredeira dos dourados ariscos e guerreiros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sa\u00edmos do acampamento j\u00e1 tarde, depois das dez da noite. Soube do hor\u00e1rio pelas ondas direcionais do grande r\u00e1dio de pilha do funileiro Sadi, companheiro eterno das pescarias da beira do arroio Rodrigues. Fomos em fila indiana, pisando graveto e barro, sendo a\u00e7oitados pela copa dos arbustos espinhentos. Nosso destino era a corredeira, que a madrugada encerrava para l\u00e1 do desconhecido, onde s\u00f3 os mateiros experientes chegam. (Texto publicado na antologia A Terra dos Longos Olhares, da editora Holoedro, 2005, org. de Lucia Silva e Silva)<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6,11],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1227"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1227"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1227\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1485,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1227\/revisions\/1485"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1227"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1227"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1227"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}