{"id":123,"date":"2005-05-15T14:34:46","date_gmt":"2005-05-15T16:34:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=123"},"modified":"2009-12-20T23:48:38","modified_gmt":"2009-12-21T01:48:38","slug":"eclipse-na-grande-area","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/eclipse-na-grande-area","title":{"rendered":"Eclipse na Grande \u00e1rea"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A bola branca rolava por tr\u00e1s dos morros quando voltei o\u00adntem para casa. Era uma dama que se olhava no espelho p\u00e1lido do entardecer. Depois, tornou-se um bal\u00e3o de g\u00e1s subindo na noite limpa.O evento come\u00e7aria a\u00ed pela hora do jogo. Sempre espero que a sombra comece a desenhar as imagens dos jornais e revistas, a l\u00f3gica padr\u00e3o da terra projetada que vai engolindo elegantemente a luz da lua cheia. Mas o que eu vi foi um borr\u00e3o de sangue. Bem no z\u00eanite, o sol das 22 horas maquiava-se de marrom e ocre para a visita da Ceifeira. A luz do est\u00e1dio nem toca a t\u00fanica da Visitadora. Ela olha para o c\u00e9u, e espera que o Destino d\u00ea o alarme apagando o jorro iluminado que vem de cima. Ent\u00e3o, um minuto depois, vibra a Foice e colhe o zagueiro na grande \u00e1rea. Ele se debru\u00e7a sobre os joelhos e cai. O futebol despenca, ferido de morte.Rodada Como um saco de pedras que se descostura, como a estrela que cai em si para formar um buraco negro, como cascata de um rio de chuva \u00e1cida, o jogo perde a for\u00e7a da sua representa\u00e7\u00e3o. Deixa de ser um acordo de ferimentos leves e entusiasmos descart\u00e1veis. Foge do corpo dos jogadores que ent\u00e3o se v\u00eaem a s\u00f3s, vestidos de sua pr\u00f3pria humanidade, que tinha ficado no vesti\u00e1rio para que o espet\u00e1culo como rotina se confirmasse mais uma vez. Eles cercam o fruto tombado. Os anjos da medicina descem a rua da fatalidade com suas respira\u00e7\u00f5es boca a boca, suas massagens, num lance extremo de remediar o que tinha sido esgar\u00e7ado para sempre. Ningu\u00e9m mais joga a arma\u00e7\u00e3o das mentiras em volta da lua branca que deveria ir para as redes. N\u00e3o h\u00e1 mais bola, foi esquecida. Na beira do est\u00e1dio desce o som inaud\u00edvel do eclipse mortal. Paulo S\u00e9rgio de Oliveira Silva, o Serginho do S\u00e3o Caetano, aos 30 anos \u00e9 carregado para seu \u00faltimo quarto de hora. Ainda havia esperan\u00e7a, uma ambul\u00e2ncia fechada, um aparelho desligado, um socorro supremo, um esfor\u00e7o de driblar aquela que n\u00e3o treina e quando joga, \u00e9 definitiva. Quem estava diante da televis\u00e3o viu que a rodada tinha se transformado numa fogueira de horror. Mas se aquele jogo terminou, os outros continuaram. Vi como o amigo que chorava demais com a camisa do Corinthians fez um gesto de que iria continuar. Mas os p\u00e9s tinham vestido chumbo. N\u00e3o houve mais gols. A lua sumia no c\u00e9u impass\u00edvel, para retornar mais tarde, na madrugada, quando se retirou para tr\u00e1s dos morros novamente.<br \/>\n<strong><br \/>\nP\u00e2nico<\/strong> &#8211; Amanhe\u00e7o com o vermelh\u00e3o do dia anunciado. Antes que seus dardos finquem a parede da casa, um jato come\u00e7a a cruzar em diagonal o c\u00e9u sem nenhuma nuvem, neste final de outubro que enfim p\u00e1ra de ventar. A dupla fuma\u00e7a que sai das turbinas vem lentamente riscando a minha aten\u00e7\u00e3o. Vejo essa manifesta\u00e7\u00e3o desde tempos sem mem\u00f3ria, naquele lugar perdido de o\u00adnde um dia sa\u00ed. Esses avi\u00f5es v\u00e3o para Montevid\u00e9u, me diziam. Eles saem de S\u00e3o Paulo e em poucas horas est\u00e3o j\u00e1 no Prata. Hoje parece o mesmo tipo de jato, como se o tempo estivesse passando por um daqueles n\u00f3s da espiral do tempo, em que tudo se repete. Lembro Serginho, o que foi ferido de morte, jogador que eu desconhecia, eventual telespectador de futebol que sou. O zagueiro tinha levantado um bra\u00e7o pedindo tiro de meta, gesto t\u00edpico de quem defende o gol, seu patrim\u00f4nio. Depois deu alguns passos. O advers\u00e1rio ainda trope\u00e7a nele e arruma a meia que saiu do lugar com a queda do outro que come\u00e7a a embarcar para a travessia. Andando de costas, atr\u00e1s de Serginho, o \u00e1rbitro se interpunha numa briga de pernas entre dois advers\u00e1rios. De repente, tudo muda. As pessoas assumem seu verdadeiro p\u00e2nico, o de estar vivo sem poder representar nada a n\u00e3o ser o pr\u00f3prio desespero.<br \/>\n<strong><br \/>\nViagem<\/strong> &#8211; O c\u00e9u est\u00e1 intoc\u00e1vel e o jato avan\u00e7a at\u00e9 aquele ponto o\u00adnde a lua estava o\u00adntem. N\u00e3o se v\u00ea nenhum rastro do eclipse. Serginho olha pela janela e talvez pense que est\u00e1 participando de mais uma etapa no exerc\u00edcio do seu of\u00edcio. Mas \u00e9 sua derradeira viagem. Seu bra\u00e7o tinha se erguido pela \u00faltima vez. A terra atravessou o umbral e tenta pousar a in\u00fatil sombra em algum campo perdido do cosmo. A lua cheia escondeu-se. Com que cara voltar\u00e1 hoje, quando novamente a noite cair sobre nossas vidas? Colocaremos os bra\u00e7os na cintura e olharemos firmes para ela. Lua que fica atr\u00e1s do espelho, qual o teu mist\u00e9rio? Talvez fique im\u00f3vel penteando seus invis\u00edveis cabelos. Afasta de n\u00f3s esse press\u00e1gio e traga de volta o ver\u00e3o, que tarda. Mergulhe pelo menos uma vez no mar gelado da nossa presen\u00e7a, para que possamos abra\u00e7ar o calor que nos conforta, a solidariedade que some. Precisamos nos despedir dessa dor que est\u00e1 na \u00e1rea e ningu\u00e9m v\u00ea, a n\u00e3o ser que um zagueiro anuncie a trag\u00e9dia, ao tombar na grama indiferente, como um anjo tomba. Ele se foi, sob o fardo da inoc\u00eancia e de um cora\u00e7\u00e3o que se recusa a repetir o jogo marcado de uma civiliza\u00e7\u00e3o sem rosto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A bola branca rolava por tr\u00e1s dos morros quando voltei o\u00adntem para casa. Era uma dama que se olhava no espelho p\u00e1lido do entardecer. 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