{"id":1231,"date":"2009-12-18T20:41:21","date_gmt":"2009-12-18T22:41:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1231"},"modified":"2009-12-20T22:51:00","modified_gmt":"2009-12-21T00:51:00","slug":"a-viagem-do-artifice","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-viagem-do-artifice","title":{"rendered":"A VIAGEM DO ART\u00cdFICE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Um art\u00edfice cuida do seu of\u00edcio e o exerce de forma compulsiva. N\u00e3o tanto para atingir a perfei\u00e7\u00e3o: mais para descobrir a natureza e a estrutura do que faz. Um carpinteiro n\u00e3o mira a casa quando participa de uma constru\u00e7\u00e3o, mas as vigas, o lustro, o talho do form\u00e3o, o resultado da sua participa\u00e7\u00e3o no conjunto. N\u00e3o que n\u00e3o tenha condi\u00e7\u00f5es de saber onde est\u00e1 enfurnado, ou o que \u00e9, afinal, a obra, uma soma de parcerias, talentos e conhecimentos. Ele conhece o fruto de muitas m\u00e3os, mas prefere seu pr\u00f3prio mergulho, feito de outra intensidade. N\u00e3o se trata aqui de definir hierarquias do fazer, mas de tentar entender, pela similitude, o que \u00e9 a literatura que nos cabe decifrar, e definir o perfil da sua irm\u00e3 de viagem, a resenha ou o ensaio. C\u00edcero Galeno Lopes, como todo escritor de verdade, nos mostra o caminho.<\/p>\n<p>Seu novo punhado de contos, batizado de A Viagem (Editora Movimento, 95 p\u00e1ginas), toma emprestado o t\u00edtulo de um dos exemplares dispostos no livro. S\u00e3o textos que o esmero da escrita ensina o ch\u00e3o batido da arte. Pois a vida, ou a imagina\u00e7\u00e3o, se encarrega das hist\u00f3rias, dos conte\u00fados. Ao escritor resta o enredo da palavra, o caminho a percorrer, a teia que nem sempre leva ao desfecho, mas \u00e0 revela\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 sendo dito. Num romance policial, n\u00e3o importa quem \u00e9 o assassino, mas como escritor chega \u00e0 autoria do crime. \u00c0s vezes nem isso. O criminoso apontado nas primeiras p\u00e1ginas deixa livre o espa\u00e7o para compor a conflu\u00eancia que realmente interessa: o percurso da letra, semente que se desdobra numa floresta que parece mato ralo, mas \u00e9 como j\u00f3ia guardada no mineral mais duro.<\/p>\n<p>No caso de C\u00edcero, com seus contos que abordam o povo sofrido da fronteira, do campo e da cidade, o que importa, em sua maior parte, s\u00e3o as arma\u00e7\u00f5es dos que lidam profissionalmente com materiais brutos (madeira, pedra, la\u00e7o, lavoura). O carpinteiro que chega \u00e0 conclus\u00e3o oposta a de Macuna\u00edma, de Mario de Andrade, sobre os males do Brasil (no lugar da sa\u00fava e da pouca sa\u00fade, futebol e televis\u00e3o); o picador de pedra que ao garimpar ametistas transmite o segredo para se diferenciar do pedreiro; a rezadeira que elenca as ervas advertindo que a fala \u00e9 que faz a m\u00e1gica e que o rem\u00e9dio das plantas n\u00e3o funcionam com ela: todos s\u00e3o protagonistas de uma saga oculta, misturada ao p\u00f3 do esquecimento. O escritor cola sua pena ao art\u00edfice exilado na varanda, na hora da conversa, quando est\u00e1 longe dos seus instrumentos. E de l\u00e1 escuta ao seu modo a trama que vale por uma cidade desconhecida, que surpreende os moradores depois de uma tempestade. onde estavam aquelas ruas, pessoas, cenas antes do dil\u00favio? E por que se ocultavam, se s\u00e3o t\u00e3o reais quanto uma fantasmagoria que bate o bumbo para uma comunidade inteira?<\/p>\n<p>Tudo estava dormindo na m\u00e3o do escritor que esculpe a trag\u00e9dia por ter desconfiado, antes de saber, que algo pulsava na margem escura do riacho. O que desperta \u00e9 o pa\u00eds confinado no seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio. N\u00e3o se trata de uma den\u00fancia, pois isso seria contamina\u00e7\u00e3o de discursos conhecidos e gastos. Mas de uma toalha de renda, um boneco de madeira, um cadafalso, uma parede. \u00c9 cria\u00e7\u00e3o assumida como um servi\u00e7o encomendado pelo esp\u00edrito, arrostado por um especialista que palmilha cada frase sem se importar com o papel timbrado dos encargos. Palavras que se escuta ao vivo, como circost\u00e2ncia, adi\u00f4s ou express\u00f5es como j\u00e1 viu outra coisa? vanc\u00ea conjumine, hoje \u00e9 do tal, ganham casa e comida na tenda que C\u00edcero estende no deserto. \u00c9 como um campo de refugiados onde o escritor se instaura como espectador participante, mas sem interferir no di\u00e1logo entre quem fala e quem deveria escutar. Palavra sem passaporte, fugida, surrada, desesperan\u00e7ada, v\u00ea que ali pode descansar o osso, temperar a carne, rodear o mate.<\/p>\n<p>C\u00edcero n\u00e3o comete esse sacril\u00e9gio para exibir artificialismos, mas para reunir o que \u00e9 considerado morto, e transfigurar o material com passos mi\u00fados (as frases curtas, representa\u00e7\u00e3o da prud\u00eancia de quem assombra o sagrado). A confus\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao papel do escritor pode acontecer: nos contos O direito \u00e9 torto ou Maneco Lu, \u00e9 de injusti\u00e7a que se fala; em Cica, Apar\u00edcio, \u00e9 de desperd\u00edcio social; em P\u00f3 de chifre, de manipula\u00e7\u00e3o de consci\u00eancias ; em Pau-de- Arrasto, de insubordina\u00e7\u00e3o; em Prenda minha, de abandono familiar; em Pantale\u00e3o, de racismo; em Arresto, de escravid\u00e3o; em Engr\u00e1cio, de perda de identidade, e assim por diante. Mas seria fatal para ele mudar a natureza de sua escritura. O acervo de brutalidade \u00e9 apenas o resultado, o gado solto que rebenta o alambrado. Ele n\u00e3o cai na armadilha do engajamento, j\u00e1 que prefere permanecer com os pobres. Apontar erros seria apenas uma forma de mostrar-se acima do que v\u00ea. Como o autor est\u00e1 grudado na rede que tece, ele faz parte da paisagem e nela encontra a diversidade necess\u00e1ria, a sabedoria escondida, a grandeza que evita qualquer soberba.<\/p>\n<p>Essa \u00e9tica profundamente identificada com os objetos que usa para conhecer o pr\u00f3prio of\u00edcio faz de C\u00edcero um autor raro entre os contempor\u00e2neos. Nesta \u00e9poca de superficialidades, maquiagem, pose, distor\u00e7\u00f5es, sal\u00f5es enfeitados, C\u00edcero Galeno Lopes prefere o galp\u00e3o. N\u00e3o a senzala, pris\u00e3o de id\u00e9ias e experi\u00eancias. Mas o galp\u00e3o aberto, onde medra a brasa torrencial da popula\u00e7\u00e3o da qual faz parte. O escritor \u00e9 um dos protagonistas, sem reivindicar nada, desse povo, desconhecido por ter sido erradicado do imagin\u00e1rio nacional, que agora anda \u00e0s voltas com a entrega da soberania. Nessa posi\u00e7\u00e3o em que escuta sem ser o personagem que ouve, que escreve sem ser o narrador com a r\u00e9dea, ele encontra sua reden\u00e7\u00e3o. C\u00edcero se salva pela radicalidade que assume. E, como os artes\u00e3os que o orientam na escrita, parece permanecer calado, quando, no fundo, grita. Id\u00eantico aos seus personagens, ele se submete para revelar insurg\u00eancia.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o o escutam, \u00e9 porque a cr\u00edtica est\u00e1 perdida em outras paragens. O analista acha que deve perseguir conte\u00fados e n\u00e3o atentar para o fato de que o escritor \u00e9 o que a popula\u00e7\u00e3o consegue ser: um sobrevivente em dire\u00e7\u00e3o ao nada, que na sua viagem, espalha a luminosidade. O trote em dire\u00e7\u00e3o ao cemit\u00e9rio, como relata no conto A Viagem, n\u00e3o \u00e9 o caminho. Este, obedece apenas ao pensamento. O andar se faz para dizer quem somos: &#8220;A viagem vai ser boa, porque vamos por bem, por n\u00e3o esquecer o que a gente \u00e9 e pode&#8221;. <em>(Resenha publicado no Caderno Cultura, do Di\u00e1rio Catarinense, em 1 de outubro de 2005).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um art\u00edfice cuida do seu of\u00edcio e o exerce de forma compulsiva. N\u00e3o tanto para atingir a perfei\u00e7\u00e3o: mais para descobrir a natureza e a estrutura do que faz. Um carpinteiro n\u00e3o mira a casa quando participa de uma constru\u00e7\u00e3o, mas as vigas, o lustro, o talho do form\u00e3o, o resultado da sua participa\u00e7\u00e3o no conjunto. N\u00e3o que n\u00e3o tenha condi\u00e7\u00f5es de saber o\u00adnde est\u00e1 enfurnado, ou o que \u00e9, afinal, a obra, uma soma de parcerias, talentos e conhecimentos. Ele conhece o fruto de muitas m\u00e3os, mas prefere seu pr\u00f3prio mergulho, feito de outra intensidade. N\u00e3o se trata aqui de definir hierarquias do fazer, mas de tentar entender, pela similitude, o que \u00e9 a literatura que nos cabe decifrar, e definir o perfil da sua irm\u00e3 de viagem, a resenha ou o ensaio. C\u00edcero Galeno Lopes, como todo escritor de verdade, nos mostra o caminho no seu novo livro A Viagem (Editora Movimento, 95 p\u00e1ginas). (Resenha publicado no Caderno Cultura, do Di\u00e1rio Catarinense, em 1 de outubro de 2005)<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1231"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1231"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1231\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1233,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1231\/revisions\/1233"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1231"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1231"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1231"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}