{"id":1236,"date":"2009-12-18T20:46:47","date_gmt":"2009-12-18T22:46:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1236"},"modified":"2009-12-21T20:25:50","modified_gmt":"2009-12-21T22:25:50","slug":"jam-session-em-kansas-city","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/jam-session-em-kansas-city","title":{"rendered":"JAM SESSION EM KANSAS CITY"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>No filme de Robert Altmann, Kansas City (1996) a narrativa \u00e9 composta de v\u00e1rios rios paralelos de a\u00e7\u00e3o que se encaminham para o desfecho. O assalto do ladr\u00e3ozinho que se faz passar por negro \u00e9 a Depress\u00e3o econ\u00f4mica de 1930, setor desemprego. O cabar\u00e9 onde se desenrola a deten\u00e7\u00e3o do meliante e a jam session inesquec\u00edvel de v\u00e1rios m\u00fasicos de primeira grandeza, \u00e9 a cultura criada a partir da concentra\u00e7\u00e3o de renda permitida pelo crime organizado; o seq\u00fcestro da amante (Miranda Richardson, sonsa e assassina) do pol\u00edtico influente como forma de libertar o assaltante, bolado pela mulher deste (Jennifer Jason Leigh, escrachada e perfeita no papel da mulher desesperada), \u00e9 o cinema dos anos 30, em que a\u00e7\u00e3o e paix\u00e3o se enla\u00e7am num pacto mortal.<\/p>\n<p>LOUCURA &#8211; H\u00e1 seq\u00fc\u00eancias memor\u00e1veis, como a vingan\u00e7a do gangster (Harry Belafonte, em performance totalmente inspirada em Marlon Brando do Godfather) contra seu taxista. Enquanto os asseclas esfaqueiam a v\u00edtima ao fundo, em primeiro plano Belafonte conta a piada de um judeu, um negro e um branco. O g\u00eanio da garrafa apareceu para os tr\u00eas e disse que poderiam fazer um pedido cada um. Quero todo o meu povo de volta para a \u00c1frica, disse o negro. Quero meu povo inteiro nas terras sagradas de Israel, disse o judeu. Todos os negros na \u00c1frica e todos os judeus na Terra Santa? perguntou o branco para o g\u00eanio, que confirmou. Ent\u00e3o quero um Martini. Existem tomadas que \u00e9 pura metalinguagem, como a lenta e indecisa sa\u00edda do cinema das duas mulheres, a que seq\u00fcestrou e a que est\u00e1 \u00e0 merc\u00ea do rev\u00f3lver da outra. Elas saem, praticamente de costas, olhando para a tela onde est\u00e3o Clarck Gable e Jean Harlow. O amor se torna imposs\u00edvel pelas circunst\u00e2ncias de viol\u00eancia. O voto de cabresto no bar lotado de b\u00eabados, a imensa casa da fam\u00edlia negra que acolhe a menina gr\u00e1vida, a tensa rela\u00e7\u00e3o entre a mal amada e a enlouquecida de tes\u00e3o, s\u00e3o pontos de tens\u00e3o que parecem levar um grand finale de loucura coletiva. Espera-se que aquele dia de elei\u00e7\u00f5es, em que uma grande personalidade pol\u00edtica est\u00e1 em apuros tentando salvar a amante, em que os pol\u00edticos est\u00e3o de plant\u00e3o para garantir a vit\u00f3ria, em que os pobres fazem propaganda dos democratas, acabar\u00e1 num tiroteio, numa barafunda, numa apoteose. Mas todas as armadilhas se desatam, para restar uma s\u00f3: a do casal que caiu na trama social da mis\u00e9ria, diante da pr\u00f3pria ousadia de tentar remendar seus erros.<\/p>\n<p>REDEN\u00c7\u00c3O &#8211; Todo filme \u00e9 sobre cinema e Kansas City n\u00e3o escapa desse destino. A mulher apaixonada que quer salvar o marido que cometeu um erro da m\u00e3o dos bandidos quer ser a estrela de cinema, pois \u00e9 na sala escura que ela aprendeu a amar. Seu amor \u00e9 idealizado pela s\u00e9tima arte e foi l\u00e1 que encontrou sua reden\u00e7\u00e3o. Bem oposta \u00e0 sua vitima, que optou pelo \u00f3pio, a cacatonia, a indiferen\u00e7a e a crueldade. O cen\u00e1rio que ap\u00f3ia e envolve a narrativa \u00e9 a idealiza\u00e7\u00e3o de um passado tomado pela insanidade, o jogo, o alcoolismo e a ambi\u00e7\u00e3o. O acaso, representa\u00e7\u00e3o dos detalhes que fazem a diferen\u00e7a (um item forte no cinema de Altmann) nos leva para o assalto ao posto de gasolina, que permite o roubo de alguns litros de combust\u00edvel por parte de quem s\u00f3 estava passando por ali, ou ao testemunho inocente de um Charlie Parker ainda menino, que carrega a menina gr\u00e1vida para a casa da m\u00e3e. O liberalismo, a explos\u00e3o criativa, o amor alucinado chocam-se com as facas, os rev\u00f3lveres, os telefonemas sinistros, as arma\u00e7\u00f5es, e o cassetete.<\/p>\n<p>LIMITES &#8211; O filme vale pelo que sonha: a vida que chega \u00e0 divindade pelo jazz pode medrar num po\u00e7o de amargura e destrui\u00e7\u00e3o; o amor que se manifesta numa situa\u00e7\u00e3o terminal, \u00e9 inspirado no cinema que foi feito para alienar, mas acaba levando o espectador para o sentimento, imposs\u00edvel de se realizar na vida di\u00e1ria. Por isso Kansas City \u00e9 pura transfigura\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 um filme de gangsters, \u00e9 sobre a reflex\u00e3o que o crime faz sobre seus pr\u00f3prios limites. N\u00e3o \u00e9 um filme rom\u00e2ntico, j\u00e1 que um abd\u00f4men em tiras e um tiro na cabe\u00e7a selam o destino dos amantes. N\u00e3o \u00e9 um filme de \u00e9poca, pois essas Kansas City \u00e9 uma arma\u00e7\u00e3o do diretor alimentado pela mem\u00f3ria (ele nasceu l\u00e1), mas tra\u00eddo pela necessidade de fazer o seu cinema. N\u00e3o \u00e9 um filme de vanguarda, pois sua narrativa \u00e9 fiel ao roteiro que ruma para o desenlace. N\u00e3o \u00e9 um filme retr\u00f3grado, pois n\u00e3o h\u00e1 concess\u00f5es para o pesadelo da Am\u00e9rica. \u00c9 um filme, como todos, sobre cinema: o que a tela iluminada pode fazer na sala repleta de sonhadores, que aponta armadilhas dentro do pr\u00f3prio filme. L\u00e1, na Kansas City de Altmann, as pessoas saem da sess\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 derrota. Aqui, de onde vemos a obra, encontramos esse choque entre o que parece ser real e o que foi inventado para a nossa revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todo filme \u00e9 sobre cinema e Kansas City, de Robert Altmann (1996) n\u00e3o escapa desse destino. 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