{"id":1239,"date":"2009-12-18T20:56:48","date_gmt":"2009-12-18T22:56:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1239"},"modified":"2009-12-21T20:27:30","modified_gmt":"2009-12-21T22:27:30","slug":"ventos-demais","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/ventos-demais","title":{"rendered":"VENTOS DEMAIS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 excesso de ventos, mesmo para quem faz parte deles, como os pescadores. Foi-se o tempo da vira\u00e7\u00e3o, quando ventos conhecidos mudavam de lugar. Aragem sobre a varanda faz parte da mem\u00f3ria familiar, quando era comum abrir a casa para dissipar o morma\u00e7o. P\u00e9- de-vento que guardava saci ou levantava saia, quando ainda existiam sacis e saias. Que subitamente fazia o chap\u00e9u tomar um elevador, quando se usava chap\u00e9u.<\/p>\n<p>Talvez os ventos tenham se revoltado com a pouca import\u00e2ncia que os novos contornos urbanos lhes reservaram. N\u00e3o fazem mais parte da paisagem, a n\u00e3o ser em terras privilegiadas de ilha e pampa, mesmo assim sem a conviv\u00eancia pr\u00f3xima com os habitantes, como costumava acontecer. Decidiram ent\u00e3o unir for\u00e7as para que possamos entend\u00ea-los. Ou, pelo menos, enxerg\u00e1-los. Ampliaram ou corromperam suas rotas originais e, confederados em ciclones, lambem a costa galopando as mar\u00e9s.<\/p>\n<p>Ares de tempestades caem com granizo aproveitando o choque entre massas frias e quentes, espiralando-se em f\u00faria e fazendo soar a trombeta em cidades famosas pela m\u00fasica que produziam. Levam por diante esse objeto permanente de desejo, o autom\u00f3vel, empilhando-o de maneira assustadora. Conluiados com as \u00e1guas, os ventos confederados assomam em lugares in\u00e9ditos, aterrorizando popula\u00e7\u00f5es cevadas nas calmarias, que agora se debatem, tentando chamar a aten\u00e7\u00e3o para a novidade tenebrosa, enquanto a metereologia ainda confia em sat\u00e9lites, previs\u00f5es, algoritmos.<\/p>\n<p>Os ventos resolveram fazer n\u00f3s gigantescos em forma de tornados, atirando-se sobre as plagas que nunca tinham experimentado nada igual. Eles chegam revelados pelo raio xis das nuvens transfiguradas de pavor, fazendo um pacto entre o ch\u00e3o desesperado e o c\u00e9u pr\u00f3ximo demais. Arrastam correntes de coisas, como se constitu\u00edssem um sinal b\u00edblico jamais captado pelos profetas.<\/p>\n<p>O que nos dizem os ventos nesta hora em que a inoc\u00eancia perde a batalha em seus \u00faltimos redutos? Quando nada mais h\u00e1 esconder, quando sabemos o tamanho do estrago, quando temos no\u00e7\u00e3o exata do que foi feito de n\u00f3s e do mundo em volta, todos os ventos resolveram se manifestar, livres de velhas amarras. N\u00e3o h\u00e1 mais obst\u00e1culos para os ventos outrora represados pela consci\u00eancia, a cultura, a esperan\u00e7a, que por um longo tempo aprisionaram essas for\u00e7as que agora se desatam.<\/p>\n<p>Vemos a assembl\u00e9ia de \u00e1rvores pedindo socorro. Os galhos s\u00e3o nossos bra\u00e7os e as folhas soltas as palavras que t\u00ednhamos a dizer. Os barcos que estavam ancorados em rod\u00edzios de cais e trapiches, em ba\u00edas mansas, agora se acotovelam nas pequenas ruas das vilas do litoral. O grande calado do nosso espanto atravanca o ex\u00edguo reduto dos h\u00e1bitos acumulados.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos mais adiar a reflex\u00e3o sobre esse desencadear de f\u00farias, que trazem revoltos os cabelos de extintos monstros marinhos. Como aliens for\u00e7ando as frestas, como gigantes destelhando vidas, como deuses drogados que decidem dar uma volta no planeta entregue \u00e0 desfa\u00e7atez, quadrilhas de ventos pilham propriedades e esvaziam os bolsos que estavam repletos de ilus\u00f5es e farsas.<\/p>\n<p>Somos agora retirantes desse sopro que nos acossa por todos os lados. Migramos da surpresa para a fuga e enquanto corremos vemos voando, ao nosso lado, tudo o que estava quieto e sereno. Os peixes se atiram sobre as plan\u00edcies. As montanhas descem suas lavas de detritos. As cidades viram monturos. A vaidade humana descobre que os ventos, aliados das descobertas, voltaram enlouquecidos por um p\u00e2nico ainda indecifr\u00e1vel. Talvez eles tenham cansado de nos mimar com seus balan\u00e7os. E agora nos atormentam para que enfim possamos acordar.<\/p>\n<p>No fundo da barca dorme o deus de que somos feitos. Ele desperta, fica de p\u00e9, adverte quem se entregou ao desgosto e num gesto acalma o vendaval. O nevoeiro se dissipa e a brisa, vento mulher, pousa ao nosso lado como uma pomba.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Somos agora retirantes desse sopro que nos acossa por todos os lados. Migramos da surpresa para a fuga e enquanto corremos vemos voando, ao nosso lado, tudo o que estava quieto e sereno. Os peixes se atiram sobre as plan\u00edcies. As montanhas descem suas lavas de detritos. As cidades viram monturos. A vaidade humana descobre que os ventos, aliados das descobertas, voltaram enlouquecidos por um p\u00e2nico ainda indecifr\u00e1vel. Talvez eles tenham cansado de nos mimar com seus balan\u00e7os. E agora nos atormentam para que enfim possamos acordar. (Cr\u00f4nica publicada domingo, dia 11\/9\/2005 no caderno Donna, do Di\u00e1rio Catarinense).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1239"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1239"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1239\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1600,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1239\/revisions\/1600"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1239"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1239"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1239"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}