{"id":1241,"date":"2009-12-18T20:57:35","date_gmt":"2009-12-18T22:57:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1241"},"modified":"2009-12-20T21:36:29","modified_gmt":"2009-12-20T23:36:29","slug":"os-escritores-que-a-ditadura-produz-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/os-escritores-que-a-ditadura-produz-2","title":{"rendered":"OS ESCRITORES QUE A DITADURA PRODUZ"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Para que o pa\u00eds continue sendo saqueado, a linguagem precisa se deslocar da nacionalidade, portanto, do sentido. Esse \u00e9 o papel da literatura que se consolida a partir da chamada globaliza\u00e7\u00e3o, ou da entrega do Brasil aos estrangeiros. Insurgir-se contra isso \u00e9 ser acusado de patrioteiro, xen\u00f3fobo e reacion\u00e1rio. Essa \u00e9 a grande armadilha dos escritores not\u00f3rios, que empalmam vastos espa\u00e7os na m\u00eddia (latif\u00fandios de divulga\u00e7\u00e3o, fruto da concentra\u00e7\u00e3o de renda): como tornaram-se uma contrafa\u00e7\u00e3o da vanguarda, sentem-se \u00e0 vontade para exercer a exclus\u00e3o que os compromete at\u00e9 o osso e os enche de dinheiro. Escrever \u00e9 mentir e tirar a m\u00e1scara \u00e9 assumir personagens vazios de realidade. Esse pesadelo \u00e9 justificado pela cr\u00edtica comprometida com o c\u00edrculo vicioso da linguagem artificial, que se alimenta tamb\u00e9m do artificialismo acad\u00eamico, que reproduz indefinidamente as mesmas teorias pretensamente radicais e que no fundo n\u00e3o passam de \u00e1libis para manter os escritores de verdade no ostracismo.<\/p>\n<p>SOBERANIA &#8211; O que s\u00e3o escritores de verdade? Os que n\u00e3o se deixam levar pelos modismos e escrevem com o esp\u00edrito livre. Os mais radicais inovadores da linguagem, os que n\u00e3o fazem parte dessa curriola que se retroalimenta sem parar, compartilham desse ostracismo. Por que n\u00e3o incensam Campos de Carvalho, o genial autor de A Lua vem da \u00c1sia? E J.J. Veiga, de A Hora dos Ruminantes? E Renato Pompeu, de Quatro Olhos? E J.A. Pio de Almeida, da obra-prima As Brasinas? Porque isso n\u00e3o d\u00e1 dinheiro. O que d\u00e1 dinheiro \u00e9 cortejar a falta de escr\u00fapulos dos pseudo-escritores, que fizeram do joguinho de palavras um saco aparentemente sem fundos. Mas o problema \u00e9 que as invencionices ling\u00fc\u00edsticas t\u00eam um limite e eles n\u00e3o se tocam. Ficam ainda experimentando sem parar. A pseudo-vanguarda hoje vitoriosa em todas as m\u00eddias nada tem a ver com a intensifica\u00e7\u00e3o e o aprofundamento experimental e te\u00f3rico que gerou, na m\u00fasica, a bossa nova, e na literatura a poesia praxis e o concretismo. Mas o que foi intenso e realmente transformador serve de insumo dessas vanguardinhas de araque que tomam conta dos cadernos culturais e, for\u00e7as!, ainda se d\u00e3o o luxo de se acharem marginalizados e perseguidos. \u00c9 tudo mentira, claro. A falsidade \u00e9 tamanha que, al\u00e9m de tomar conta da cultura oficial (a bem remunerada pelo dinheiro p\u00fablico) ainda conservam as paran\u00f3ias das persegui\u00e7\u00f5es de gera\u00e7\u00f5es anteriores. Luto aqui pela democratiza\u00e7\u00e3o cultural. Hoje n\u00e3o h\u00e1 interesse em encarar a diversidade cultural brasileira, o pa\u00eds que teve sua nacionalidade transformada em p\u00f3 e que acredita em Patrim\u00f4nio da Humanidade (eles \u00e9 que s\u00e3o a humanidade, d\u00e1 para entender?) e entrega o seu subsolo amaz\u00f4nico a grandes corpora\u00e7\u00f5es. Levaram o ouro e os min\u00e9rios e depois as estatais. Agora \u00e9 o territ\u00f3rio mesmo. Soberania para qu\u00ea?<\/p>\n<p>LUTA &#8211; A falsa literatura (que sobra em exemplos por toda parte) \u00e9 essa que te tira tempo e em nada te retribui. Que te deixa vazio, irritado. E que n\u00e3o passa de um conjunto de poesias p\u00edfias e romancezinhos de araque, tudo fruto do desespero individualista que tomou conta da ex-na\u00e7\u00e3o, hoje um amontoado de indiv\u00edduos. Esse ambiente n\u00e3o aborda mais os princ\u00edpios \u00e9ticos, tornados vil\u00f5es ou meras excresc\u00eancias obsoletas; n\u00e3o cuidam da fam\u00edlia, extinta em favor da celebra\u00e7\u00e3o do Mesmo e sua tempestade l\u00fadica desconectada do destino, da eternidade ou da alegria. \u00c9 um ambiente sinistro e soturno, o dessas palavras que invadem todos os espa\u00e7os, deixando de lado os valores que n\u00e3o possuem incentivo para proliferar. Quantas gavetas amarelam e v\u00e3o para o lixo, quantos escritores assassinam a pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o, desencantados com tanto horror, com tantas luzes e holofotes sobre nulidades tornadas c\u00e9lebres. Vai ler esse cara t\u00e3o incensado, vai ver o que ele escreveu! \u00c9 o reino da baixaria, das palavras sem poder, de \u00e2ncoras que pegam teu pesco\u00e7o de leitor e te jogam para o fundo. E quanto mais escatol\u00f3gicos, mais f\u00f4fos nos seus olhares apertados, a sugerir reflex\u00e3o, suas carinhas de anjo, a sugerir juventude, a sua falta de escr\u00fapulos, a sugerir inova\u00e7\u00e3o. Cada um no seu espa\u00e7o, funcionam como vasos comunicantes da linguagem que serve \u00e0 ditadura civil, formada pelo arrocho financeiro, a exclus\u00e3o social e o voto de cartas marcadas. Esses pseudo- escritores n\u00e3o ser\u00e3o apeados do poder que hoje usufruem (rumo \u00e0 Academia de Letras) a n\u00e3o ser pela luta pol\u00edtica. \u00c9 preciso acabar com o insumo financeiro que os sustenta, para que caiam como um castelo de cartas.<\/p>\n<p>SA\u00cdDA &#8211; O que vale \u00e9 o resgate cl\u00e1ssico do acervo cultural da na\u00e7\u00e3o e o trabalho transformador a partir dessa heran\u00e7a. A l\u00edngua levou s\u00e9culos para se consolidar. Possui todas as chaves e n\u00e3o vai ser demitida assim por qualquer merrequinha cerebral e suas tiradas metidas a besta. Respeite os oito baixos do teu pai.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para que o pa\u00eds continue sendo saqueado, a linguagem precisa se deslocar da nacionalidade, portanto, do sentido. Esse \u00e9 o papel da literatura que se consolida a partir da chamada globaliza\u00e7\u00e3o, ou da entrega do Brasil aos estrangeiros. Insurgir-se contra isso \u00e9 ser acusado de patrioteiro, xen\u00f3fobo e reacion\u00e1rio. Essa \u00e9 a grande armadilha dos escritores not\u00f3rios, que empalmam vastos espa\u00e7os na m\u00eddia (latif\u00fandios de divulga\u00e7\u00e3o, fruto da concentra\u00e7\u00e3o de renda): como tornaram-se uma contrafa\u00e7\u00e3o da vanguarda, sentem-se \u00e0 vontade para exercer a exclus\u00e3o que os compromete at\u00e9 o osso e os enche de dinheiro. Escrever \u00e9 mentir e tirar a m\u00e1scara \u00e9 assumir personagens vazios de realidade.Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Para que o pa\u00eds continue sendo saqueado, a linguagem precisa se deslocar da nacionalidade, portanto, do sentido. Esse \u00e9 o papel da literatura que se consolida a partir da chamada globaliza\u00e7\u00e3o, ou da entrega do Brasil aos estrangeiros. Insurgir-se contra isso \u00e9 ser acusado de patrioteiro, xen\u00f3fobo e reacion\u00e1rio. Essa \u00e9 a grande armadilha dos escritores not\u00f3rios, que empalmam vastos espa\u00e7os na m\u00eddia (latif\u00fandios de divulga\u00e7\u00e3o, fruto da concentra\u00e7\u00e3o de renda): como tornaram-se uma contrafa\u00e7\u00e3o da vanguarda, sentem-se \u00e0 vontade para exercer a exclus\u00e3o que os compromete at\u00e9 o osso e os enche de dinheiro. Escrever \u00e9 mentir e tirar a m\u00e1scara \u00e9 assumir personagens vazios de realidade. Esse pesadelo \u00e9 justificado pela cr\u00edtica comprometida com o c\u00edrculo vicioso da linguagem artificial, que se alimenta tamb\u00e9m do artificialismo acad\u00eamico, que reproduz indefinidamente as mesmas teorias pretensamente radicais e que no fundo n\u00e3o passam de \u00e1libis para manter os escritores de verdade no ostracismo.<\/p>\n<p>SOBERANIA &#8211; O que s\u00e3o escritores de verdade? Os que n\u00e3o se deixam levar pelos modismos e escrevem com o esp\u00edrito livre. Os mais radicais inovadores da linguagem, os que n\u00e3o fazem parte dessa curriola que se retroalimenta sem parar, compartilham desse ostracismo. Por que n\u00e3o incensam Campos de Carvalho, o genial autor de A Lua vem da \u00c1sia? E J.J. Veiga, de A Hora dos Ruminantes? E Renato Pompeu, de Quatro Olhos? E J.A. Pio de Almeida, da obra-prima As Brasinas? Porque isso n\u00e3o d\u00e1 dinheiro. O que d\u00e1 dinheiro \u00e9 cortejar a falta de escr\u00fapulos dos pseudo-escritores, que fizeram do joguinho de palavras um saco aparentemente sem fundos. Mas o problema \u00e9 que as invencionices ling\u00fc\u00edsticas t\u00eam um limite e eles n\u00e3o se tocam. Ficam ainda experimentando sem parar. A pseudo-vanguarda hoje vitoriosa em todas as m\u00eddias nada tem a ver com a intensifica\u00e7\u00e3o e o aprofundamento experimental e te\u00f3rico que gerou, na m\u00fasica, a bossa nova, e na literatura a poesia praxis e o concretismo. Mas o que foi intenso e realmente transformador serve de insumo dessas vanguardinhas de araque que tomam conta dos cadernos culturais e, for\u00e7as!, ainda se d\u00e3o o luxo de se acharem marginalizados e perseguidos. \u00c9 tudo mentira, claro. A falsidade \u00e9 tamanha que, al\u00e9m de tomar conta da cultura oficial (a bem remunerada pelo dinheiro p\u00fablico) ainda conservam as paran\u00f3ias das persegui\u00e7\u00f5es de gera\u00e7\u00f5es anteriores. Luto aqui pela democratiza\u00e7\u00e3o cultural. Hoje n\u00e3o h\u00e1 interesse em encarar a diversidade cultural brasileira, o pa\u00eds que teve sua nacionalidade transformada em p\u00f3 e que acredita em Patrim\u00f4nio da Humanidade (eles \u00e9 que s\u00e3o a humanidade, d\u00e1 para entender?) e entrega o seu subsolo amaz\u00f4nico a grandes corpora\u00e7\u00f5es. Levaram o ouro e os min\u00e9rios e depois as estatais. Agora \u00e9 o territ\u00f3rio mesmo. Soberania para qu\u00ea?<\/p>\n<p>LUTA &#8211; A falsa literatura (que sobra em exemplos por toda parte) \u00e9 essa que te tira tempo e em nada te retribui. Que te deixa vazio, irritado. E que n\u00e3o passa de um conjunto de poesias p\u00edfias e romancezinhos de araque, tudo fruto do desespero individualista que tomou conta da ex-na\u00e7\u00e3o, hoje um amontoado de indiv\u00edduos. Esse ambiente n\u00e3o aborda mais os princ\u00edpios \u00e9ticos, tornados vil\u00f5es ou meras excresc\u00eancias obsoletas; n\u00e3o cuidam da fam\u00edlia, extinta em favor da celebra\u00e7\u00e3o do Mesmo e sua tempestade l\u00fadica desconectada do destino, da eternidade ou da alegria. \u00c9 um ambiente sinistro e soturno, o dessas palavras que invadem todos os espa\u00e7os, deixando de lado os valores que n\u00e3o possuem incentivo para proliferar. Quantas gavetas amarelam e v\u00e3o para o lixo, quantos escritores assassinam a pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o, desencantados com tanto horror, com tantas luzes e holofotes sobre nulidades tornadas c\u00e9lebres. Vai ler esse cara t\u00e3o incensado, vai ver o que ele escreveu! \u00c9 o reino da baixaria, das palavras sem poder, de \u00e2ncoras que pegam teu pesco\u00e7o de leitor e te jogam para o fundo. E quanto mais escatol\u00f3gicos, mais f\u00f4fos nos seus olhares apertados, a sugerir reflex\u00e3o, suas carinhas de anjo, a sugerir juventude, a sua falta de escr\u00fapulos, a sugerir inova\u00e7\u00e3o. Cada um no seu espa\u00e7o, funcionam como vasos comunicantes da linguagem que serve \u00e0 ditadura civil, formada pelo arrocho financeiro, a exclus\u00e3o social e o voto de cartas marcadas. Esses pseudo- escritores n\u00e3o ser\u00e3o apeados do poder que hoje usufruem (rumo \u00e0 Academia de Letras) a n\u00e3o ser pela luta pol\u00edtica. \u00c9 preciso acabar com o insumo financeiro que os sustenta, para que caiam como um castelo de cartas.<\/p>\n<p>SA\u00cdDA &#8211; O que vale \u00e9 o resgate cl\u00e1ssico do acervo cultural da na\u00e7\u00e3o e o trabalho transformador a partir dessa heran\u00e7a. A l\u00edngua levou s\u00e9culos para se consolidar. Possui todas as chaves e n\u00e3o vai ser demitida assim por qualquer merrequinha cerebral e suas tiradas metidas a besta. 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