{"id":1243,"date":"2009-12-18T20:58:24","date_gmt":"2009-12-18T22:58:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1243"},"modified":"2009-12-20T23:48:55","modified_gmt":"2009-12-21T01:48:55","slug":"o-jornalismo-dublado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-jornalismo-dublado","title":{"rendered":"O JORNALISMO DUBLADO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>A fala que deveria imperar na m\u00eddia \u00e9 a do jornalista. Ele \u00e9 quem precisa tecer o texto, soma e s\u00edntese de linguagens alheias, que passam pela sele\u00e7\u00e3o dos crit\u00e9rios e fundamentos do of\u00edcio. Quando isso n\u00e3o ocorre, outros poderes se intrometem e decidem a hierarquia das falas. O caminho mais curto para esse equ\u00edvoco \u00e9 engessar a reda\u00e7\u00e3o numa camisa de for\u00e7a, quando impede-se a publica\u00e7\u00e3o de estilos, mata-se a voca\u00e7\u00e3o autoral em nome de regras que est\u00e3o a servi\u00e7o do enterro do jornalismo. N\u00e3o pode haver dissid\u00eancia entre o articulista e o rep\u00f3rter. Ambos assinam e portanto precisam estar liberados para o estilo. Vale para os dois o enxugamento da frase, a objetividade, a clareza e a transpar\u00eancia. Sem isso o jornalismo \u00e9 como filme dublado, em que tudo se parece com a obra original, mas h\u00e1 um trope\u00e7o fundo quando os personagens abrem a boca com a l\u00edngua errada, a entona\u00e7\u00e3o artificial, o timbre deslocado.<\/p>\n<p>ATROZES &#8211; Numa reportagem sobre a dublagem brasileira, destacou-se que esta seria a melhor do mundo. Como poder\u00e3o saber disso os outros povos, que n\u00e3o falam portugu\u00eas? Na mesma mat\u00e9ria, fizeram o que sempre imaginei que fazem quando h\u00e1 gritaria nos filmes: juntam o porteiro, o iluminador, o entregador de pizza e os atores para berrar uma algaravia sem nexo, muito comum nas dublagens. A rep\u00f3rter ent\u00e3o proferia a revela\u00e7\u00e3o: eles est\u00e3o atuando! N\u00e3o, n\u00e3o est\u00e3o, est\u00e3o fazendo uma contrafa\u00e7\u00e3o do som original (que \u00e9 a metade da obra). Tenho a mesma sensa\u00e7\u00e3o quando leio os jornais ou vejo o notici\u00e1rio na TV. Vozes atrozes se interp\u00f5em no trabalho da informa\u00e7\u00e3o e tudo fica por isso mesmo. Vejam como se gera emprego, como o emprego aumenta, como a renda per capita sobe, como essa-gente consegue ocupa\u00e7\u00e3o de gar\u00e7on, diarista, passeador de cachorro. Os \u00e2ncoras assinam, ou fazem de conta com a caneta no final do telejornal, para dizer que escrevem, que possuem uma caligrafia pessoal, um estilo de caras e bocas, e que portanto se diferenciam dos outros, o povo, t\u00e3o essa-gente que nem sabe escrever.<\/p>\n<p>HORRORES &#8211; Nem a Abril, que na \u00e9poca contava com grandes jornalistas, nem Mino Carta, que foi expulso da TV pelo Antonio Carlos Magalh\u00e3es, nem o Jornal do Brasil, que era o ve\u00edculo impresso mais importante e influente do pa\u00eds, conseguiram entrar para a televis\u00e3o. A TV foi cair nas garras de Gargalhada, o Palha\u00e7o Sinistro. Ou do Genro daquele poderoso e seus descendentes. Ou dos edulcorados sanguessugas da na\u00e7\u00e3o. Ou do Pastor, o voz fina mel\u00edfluo que arrecada zilh\u00f5es dos seus cultos. A poderosa rede evang\u00e9lica que toma conta de todos os hor\u00e1rios, s\u00e3o os dubladores dessa televis\u00e3o \u00e0 deriva. Todos os dias e a toda hora a mesma coisa. A na\u00e7\u00e3o de escravos a tudo engole, sem tugir nem mugir. Ermos de cultura, arte, conhecimento, que foram erradicados da TV, ficamos plantados diante do aparelhos como Garfields sem verve. Sa\u00edmos da TV e vamos ler um livro, ler alguma coisa. Mas chega uma hora que precisamos voltar \u00e0 imagem, descobrir algo. As emissoras estrangeiras da TV a cabo se locupletam na publicidade sem fim e no repeteco dos programas. Enquanto isso, geme de dor o talento n\u00e3o descoberto, o g\u00eanio desconhecido, o escritor sem editora, o cantor perdido na noite. Somos assim. Poder\u00edamos ser melhores.<\/p>\n<p>FUNDA\u00c7\u00c3O &#8211; O jornalismo dublado \u00e9 aquele que copia grava\u00e7\u00f5es, se ajoelha diante dos manuais, fica quieto depois das demiss\u00f5es, difunde as porcarias da TV sem jamais denunci\u00e1-la. \u00c9 o que aposta apenas em figurinhas carimbadas, que ocupam vastos espa\u00e7os sem oposi\u00e7\u00e3o nenhuma. Que todo ano faz a mesma mat\u00e9ria. Que acha gra\u00e7a sempre das mesmas coisas. Que p\u00f5e plant\u00e3o quando neva em S\u00e3o Joaquim, quando faz frio em Campos de Jord\u00e3o (puxa, como est\u00e1 frio aqui!), que denuncia e depois esquece (e para dizer que n\u00e3o esquece diz que est\u00e1 de olho), que n\u00e3o ajuda a mudar nada, que entrevista os bandidos pixadores que sempre falam do que n\u00e3o entendem, ou seja, da tal adrenalina, e por a\u00ed vai. O jornalismo dublado \u00e9 aquele que pergunta como \u00e9 que voc\u00ea se sente, como \u00e9 que \u00e9 essa coisa, e se com certeza voc\u00ea tem algo triste para confessar diante das c\u00e2maras, como perdi tudo, fiquei sem nada e todo mundo se p\u00f5e a chorar. O jornalismo dublado \u00e9 o monop\u00f3lio da comunica\u00e7\u00e3o brasileira, que impera no caos como um abutre. Olha, m\u00e3e, \u00e9 um avi\u00e3o, um p\u00e1ssaro, o Super-Homem. N\u00e3o, \u00e9 mais mat\u00e9ria sobre a alta e a baixa do d\u00f3lar, o \u00edndice Bovespa, o Dow Jones, o seguro sa\u00fade que nunca prestou e que s\u00f3 agora prestaram aten\u00e7\u00e3o nisso. Poder\u00edamos ser melhores..<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A fala que deveria imperar na m\u00eddia \u00e9 a do jornalista. Ele \u00e9 quem precisa tecer o texto, soma e s\u00edntese de linguagens alheias, que passam pela sele\u00e7\u00e3o dos crit\u00e9rios e fundamentos do of\u00edcio. Quando isso n\u00e3o ocorre, outros poderes se intrometem e decidem a hierarquia das falas. O caminho mais curto para esse equ\u00edvoco \u00e9 engessar a reda\u00e7\u00e3o numa camisa de for\u00e7a, quando impede-se a publica\u00e7\u00e3o de estilos, mata-se a voca\u00e7\u00e3o autoral em nome de regras que est\u00e3o a servi\u00e7o do enterro do jornalismo. (Texto publicado originalmente no Di\u00e1rio da Fonte em 30\/abril\/2004)<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1243"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1243"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1243\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1495,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1243\/revisions\/1495"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1243"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1243"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1243"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}