{"id":1247,"date":"2009-12-18T21:01:47","date_gmt":"2009-12-18T23:01:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1247"},"modified":"2009-12-21T20:12:06","modified_gmt":"2009-12-21T22:12:06","slug":"nao-ha-respostas-apenas-encantamento","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/nao-ha-respostas-apenas-encantamento","title":{"rendered":"N\u00c3O H\u00c1 RESPOSTAS, APENAS ENCANTAMENTO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Todo romance \u00e9 sobre literatura. Todos os que contam, pelo menos, como nos lembra Shosha, de Isaac Bashevis Singer (Francis, 300 p\u00e1gs.), lan\u00e7ado originalmente em 1978, o mesmo ano em que o autor ganhou o Pr\u00eamio Nobel. A linhagem \u00e9 conhecida. O Quixote que se debru\u00e7a sobre si mesmo na segunda parte do texto de Cervantes \u00e9 o exemplo can\u00f4nico da fic\u00e7\u00e3o com autoconsci\u00eancia. O jogo n\u00e3o tem fim e chegou ao auge com as experi\u00eancias do s\u00e9culo 20, de Joyce a Guimar\u00e3es Rosa.<\/p>\n<p>Mas, longe de amea\u00e7ar a sobreviv\u00eancia da arte, monumentos da conflagra\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria como Ulisses e Grande Sert\u00e3o beberam na fonte dos cl\u00e1ssicos, sinal de que a cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, h\u00e1 tempos, alimenta-se da reflex\u00e3o sobre o que se escreve e dela faz sua principal trama. Nas Mil e Uma Noites, o n\u00facleo do drama n\u00e3o s\u00e3o as hist\u00f3rias contadas por Sherazade, mas sim o fato de cont\u00e1-las, o que representava a anula\u00e7\u00e3o da pena de morte decretada pelo rei. Em Rosa, o livro \u00e9 o confronto entre o contador e o ouvinte fict\u00edcio. O objetivo \u00e9 nobre. A arquitetura da narra\u00e7\u00e3o, por mirar-se no espelho, torna-se real, s\u00f3 para contaminar os personagens. Riobaldo e Diadorim tornam-se de carne e osso, enquanto acontece o reverso no projeto, pois n\u00e3o existe nada mais inventado do que o doutor que chega de longe para escutar o velho jagun\u00e7o. Esse \u00e9 o segredo do romance, que jamais se entrega ao que quer contar, antes denuncia a sua impossibilidade. Ao desistir (sem se entregar) ele consegue atingir a ess\u00eancia da produ\u00e7\u00e3o de um escritor de verdade.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 disfarce maior do que o romancista confessar que \u00e9 apenas um contador de hist\u00f3rias. A cr\u00edtica costuma embarcar nessa canoa, achando que o inventor deixou para os outros o principal da obra. N\u00e3o \u00e9 preciso ler um ensaio para conhecer as inten\u00e7\u00f5es de um romancista e a certeza que ele tem de n\u00e3o conseguir enganar ningu\u00e9m com seus truques. A n\u00e3o ser que desvie a aten\u00e7\u00e3o do leitor para as paragens do mural que constr\u00f3i, at\u00e9 lev\u00e1-lo pela m\u00e3o para ver o que existe atr\u00e1s da parede pintada (quando acontece, ent\u00e3o, a revela\u00e7\u00e3o). Quem conta uma hist\u00f3ria diz como e por que conta, pois todo escritor aspira \u00e0 eternidade, e n\u00e3o h\u00e1 alma imortal na literatura que se enrede na pr\u00f3pria teia. O escritor sabe: quando o livro acabar e a v\u00edtima acordar de seu devaneio, e tardiamente descobrir a cama-de-gato preparada, voltar\u00e1 as costas para a obra (essa \u00e9 a origem dos livros datados e esquecidos). Mas se o pr\u00f3prio livro disser do que se trata, ent\u00e3o a fidelidade \u00e9 absoluta. Amor ou amizade precisam da verdade, e a verdade s\u00e3o letras sobre papel. \u00c0 parte isso, Moby Dick nos espera para nos engolir.<\/p>\n<p>As ci\u00eancias da linguagem fizeram uma abordagem d\u00fabia sobre essa voca\u00e7\u00e3o, pois descobrir o truque implicava, muitas vezes, dissecar a cobaia. O romance seguiu em frente gra\u00e7as \u00e0 insist\u00eancia do g\u00eanio de autores como Jorge Luis Borges, que reinstaurou a magia do livro dentro do livro, do autor fict\u00edcio, do narrador que terceiriza a autoria para deflagrar o eterno retorno do maior dos encantamentos, o da leitura. No fundo, os livros inventados dentro dos livros reais s\u00e3o o que pensam ser a literatura, enquanto a pr\u00f3pria vai sendo desenrolada, como um novelo de surpresas, enquanto avan\u00e7amos nas p\u00e1ginas.<\/p>\n<p>Singer, em Shosha, tem a seu favor um tempo espec\u00edfico, a Vars\u00f3via dos anos 1930, antes da invas\u00e3o de Hitler. Uma cultura que se presta a todos os equ\u00edvocos, a dos judeus, e que em Shosha revela toda a grandeza da sua universalidade, j\u00e1 que nada escapa ao olho cl\u00ednico e cr\u00edtico dos pr\u00f3prios judeus, n\u00e3o s\u00f3 sobre Deus, o mundo e o universo, mas sobre os limites da viv\u00eancia inspirada nos textos sagrados. Com esses instrumentos, Singer nos brinda com o pesadelo do escritor que tentou viver de seu of\u00edcio enquanto o mundo desmoronava.<\/p>\n<p>O umbigo desse mundo \u00e9 a Rua Krochmalna, o\u00adnde o narrador, inventado, passou a inf\u00e2ncia. A met\u00e1fora dessa \u00e9poca \u00e9 a pequena Shosha, o esp\u00edrito infantil que se recusou a crescer e a amadurecer e que funciona como um \u00edm\u00e3 para o escritor, que tenta escapar da \u00e9tica (que num tempo de chacais \u00e9 a maior das maldi\u00e7\u00f5es, mas a \u00fanica que leva \u00e0 grandeza). A obra inveross\u00edmel, que sustenta as aspira\u00e7\u00f5es do escritor-personagem, \u00e9 uma pe\u00e7a i\u00eddiche, encomendada por um milion\u00e1rio americano, casado com uma artista judia e desencantada. N\u00e3o s\u00e3o as inten\u00e7\u00f5es do autor que fazem fracassar o projeto, \u00e9 o seu destino. O embate entre o que est\u00e1 escrito e o livre-arb\u00edtrio \u00e9 a linha que costura o livro. Conseguir\u00e1 o escritor o sucesso para escapar da amea\u00e7a de invas\u00e3o de Hitler? Poder\u00e1 mentir e fazer concess\u00f5es o suficiente para tornar-se um profissional do ramo? Ou ter\u00e1 que arrostar seu pecado original (a voca\u00e7\u00e3o leg\u00edtima) como um fardo, como quem carrega uma crian\u00e7a doente nos bra\u00e7os, com a qual assume n\u00fapcias criticadas por todos?<\/p>\n<p>Singer tenta nos seduzir com seu jogo de infinitas possibilidades para o jovem escritor que tem estrela e pode sair rico da empreitada. Mas nos carrega de volta para a rua da inf\u00e2ncia, o\u00adnde tudo est\u00e1 condenado, n\u00e3o apenas os mortos que assombram os s\u00f3t\u00e3os, mas os vivos que aguardam o Holocausto. A maestria do autor, o verdadeiro, constr\u00f3i n\u00e3o s\u00f3 uma rua, inesquec\u00edvel, mas uma cidade, impressionante pela diversidade, e um mundo, em colapso evidente. Dever\u00edamos j\u00e1 conhecer essa hist\u00f3ria, mas \u00e9 como se fosse contada pela primeira vez. O escritor fict\u00edcio derrama-se em literatura verdadeira enquanto tenta compor a pe\u00e7a ditada pelos interesses financeiros. Um outro romance irreal entra pelas frestas da sua escrivaninha como um fantasma que se desdobra em mist\u00e9rios.<\/p>\n<p>Poderia ser uma hist\u00f3ria sem surpresas, mas essa \u00e9 a parte principal da leitura. O morto que continuou dando comida aos pobres, a irm\u00e3 defunta que visita a casa materna, a neve seca iluminada em meio ao ermo de uma viagem de trem convivem com seus opostos: os prazeres com muitas mulheres, os restaurantes de mesas fartas. As limita\u00e7\u00f5es religiosas chocam-se com o deboche, a modernidade penetra as escrituras, o Mal rola na cama com a Inoc\u00eancia.<\/p>\n<p>Ao assumir suas origens, o escritor que quase caiu na tenta\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar recomp\u00f5e a humanidade que perdeu, mas descobre que a vida s\u00e3o p\u00e1ginas de um livro que jamais voltam para tr\u00e1s. As cenas continuam l\u00e1, escritas, mas n\u00e3o podem ser revisitadas. O universo simult\u00e2neo cerca Singer com suas garras de ferro e s\u00f3 h\u00e1 um jeito de escapar de tantas fronteiras: o deixar-se levar pelo inevit\u00e1vel e assim descobrir que n\u00e3o h\u00e1 respostas quando a consci\u00eancia est\u00e1 desperta.<\/p>\n<p>O que fica n\u00e3o s\u00e3o as perguntas, mas um livro que abra\u00e7amos porque n\u00e3o mente. E que deveria ser sobre uma cidade ainda viva o\u00adnde podemos aportar. Mas sabemos que jamais chegaremos \u00e0 Vars\u00f3via recriada por Singer. Ele nos diz com todas as palavras que isso \u00e9 imposs\u00edvel. A \u00fanica coisa que nos resta \u00e9 entender o poder da literatura, a que serve a refei\u00e7\u00e3o depois de nos mostrar a feira. E que acende a vela sem chama suficiente para resistir ao sopro misterioso do divino.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Shosha, Isaac Bashevis Singer nos brinda com o pesadelo do escritor que tenta viver do seu of\u00edcio enquanto o mundo desmorona \u00e0 sua volta Quem conta uma hist\u00f3ria diz como e por que conta, pois todo escritor aspira \u00e0 eternidade, e n\u00e3o h\u00e1 alma imortal na literatura que se enrede na pr\u00f3pria teia. O escritor sabe: quando o livro acabar e a v\u00edtima acordar de seu devaneio, e tardiamente descobrir a cama-de-gato preparada, voltar\u00e1 as costas para a obra (essa \u00e9 a origem dos livros datados e esquecidos). Mas se o pr\u00f3prio livro disser do que se trata, ent\u00e3o a fidelidade \u00e9 absoluta.(Resenha publicada no caderno Cultura, do Di\u00e1rio Catarinense, de 27 de agosto de 2005)<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1247"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1247"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1247\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1587,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1247\/revisions\/1587"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1247"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1247"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1247"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}