{"id":1249,"date":"2009-12-18T21:08:15","date_gmt":"2009-12-18T23:08:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1249"},"modified":"2009-12-20T21:31:02","modified_gmt":"2009-12-20T23:31:02","slug":"crime-e-castigo-em-javier-cercas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/crime-e-castigo-em-javier-cercas","title":{"rendered":"CRIME E CASTIGO EM JAVIER CERCAS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Dostoievski est\u00e1 na raiz de O Motivo (Editora Francis, 118 pgs.), novela escrita na juventude (1987) pelo espanhol Javier Cercas, autor do best-seller Soldados de Salamina, lan\u00e7ado em 2004 em portugu\u00eas pela mesma editora, que vendeu 500 mil exemplares na Europa e virou filme de David Trueba. Surpreende que na minuciosa an\u00e1lise do posf\u00e1cio, acusado de paneg\u00edrico pela imprensa espanhola, Francisco Rico nem cite o autor russo. Mas o livro \u00e9 puro Crime e Castigo: um homem solit\u00e1rio premedita um crime, o assassinato de uma pessoa idosa que tem dinheiro guardado em casa, e rem\u00f3i seus argumentos a favor e contra esse desenlace.<\/p>\n<p>Embalado pela desconstru\u00e7\u00e3o do romance feita pelas vanguardas do s\u00e9culo 20, Cercas no fundo parece querer desmascarar seu mestre, pois no lugar de refletir o pa\u00eds onde vive com seus personagens atormentados, tudo se reduz \u00e0 literatura, como se esta se bastasse e fosse um c\u00edrculo de ferro onde o leitor fica encarcerado para sempre, j\u00e1 que o final do livro \u00e9 exatamente igual ao seu in\u00edcio. Como em Dostoievski, o que importa n\u00e3o \u00e9 desvendar o crime (quem matou? Est\u00e1 claro que foi o escritor, esse Raskholnikov de gravata, esse personagem clonado do pr\u00f3prio autor). O que vale s\u00e3o os motivos que levam ao assassinato, aqui uma representa\u00e7\u00e3o da trama da novela que est\u00e1 sendo lida.<\/p>\n<p>\u00c9 um jogo que serve para refletir sobre os mecanismos da literatura, essa arte que leva crian\u00e7as crescidas a um of\u00edcio duro, quase sempre n\u00e3o recompensado devidamente. O paradoxo da profiss\u00e3o \u00e9 que ela s\u00f3 pode ser reconhecida se o escritor abrir m\u00e3o da humanidade que sustenta uma pessoa e atirar-se ao nada que a tudo devora. \u00c9 preciso coragem para voar vestido apenas de uma capa vermelha, como um super-homem da primeira inf\u00e2ncia, e acreditar que ser\u00e1 salvo pelas circunst\u00e2ncias ou por seus super-poderes (ou, na pior das hip\u00f3teses, pela ajuda providencial dos pais). \u00c9 uma empreitada dif\u00edcil, pois, para n\u00e3o parecer rid\u00edculo, o escritor opta pela crueldade (on veut bien \u00eatre m\u00e9chant, mais on ne veut pas \u00eatre ridicule, diz a cita\u00e7\u00e3o recorrente do livro). Nem sempre funciona. Todo livro est\u00e1 a um passo do fracasso, e sua perman\u00eancia tem a ver mais com o destino do que com a l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Javier Cercas sabe o risco que corre. Por isso cerca sua novela de todos os cuidados. Par\u00e1grafos curtos conseguem grande intensidade narrativa, como a do preparo do protagonista no jogo do xadrez, artimanha usada para penetrar nos segredos do velho que vira v\u00edtima. Como um Dostoievski que n\u00e3o se ilude com a pr\u00f3pria compet\u00eancia da arte de narrar, Cercas reduz \u00c1lvaro, o escritor fict\u00edcio, a todas as veleidades de Raskholnikov, sem seus principais motivos. No livro russo, o assassino queria ajudar a pr\u00f3pria fam\u00edlia e era contra a velha judia usur\u00e1ria que explorava suas v\u00edtimas. Na novela espanhola, o motivo era um s\u00f3: escrever um romance de verdade, que ocupasse um lugar decente na hist\u00f3ria da literatura e que redimisse o autor de suas tentativas frustradas anteriores, em que tentou em v\u00e3o a poesia l\u00edrica e \u00e9pica. Sua op\u00e7\u00e3o teria sido Flaubert, mas isso \u00e9 mais uma cortina de fuma\u00e7a em cima de sua mais profunda inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Trata-se de um jogo de esconde-esconde que serve para ludibriar os leitores e a cr\u00edtica. Javier Cercas especializou-se numa arte da guerra, que \u00e9 a simula\u00e7\u00e3o. Talvez ele acredite verdadeiramente que possa enganar a todos o tempo todo, sen\u00e3o poderia ser confundido (como de fato foi) apenas como um art\u00edfice capaz de ludibriar que tentar encontrar nos seus textos a chave do cofre mais \u00edntimo. Seu truque \u00e9 levar o leitor a acreditar que \u00c1lvaro \u00e9 realmente um escritor que fica gravando as conversas dos vizinhos que ele manipula, e assim tirar dos conflitos material valioso para o romance. O leitor fica encantado com esse labirinto de detalhes s\u00f3rdidos que exp\u00f5em o escritor, que \u00e9 sempre o alvo de todas as invejas.<\/p>\n<p>Ele avan\u00e7a no seu jogo mortal, ao fazer os personagens manipulados entender que \u00c1lvaro est\u00e1 ficando louco com suas obsess\u00f5es. Leva assim o leitor a acreditar que tem raz\u00e3o ao descobrir o \u00f3bvio, de que tudo n\u00e3o passa de perda de tempo de um estreante solit\u00e1rio em busca a gl\u00f3ria. Mas a loucura do escritor fict\u00edcio \u00e9 apenas uma composi\u00e7\u00e3o de cenas bem urdidas e jamais chegam ao centro do drama, que \u00e9 Javier Cercas perguntar-se para que serve escrever, se nenhum proveito \u00e9 tirado disso. Tudo j\u00e1 foi escrito e dito, j\u00e1 sabemos quem somos, para que repetir o recado? Mas ele insiste. N\u00e3o existem bons sentimentos, apenas maldade. N\u00e3o existe amor, apenas rancor e vontade de explorar os outros. N\u00e3o existe harmonia social, apenas desemprego, briga conjugal, solid\u00e3o. N\u00e3o existe prazer, apenas o esp\u00edrito de porco \u00e0 espreita, para pilhar os contempor\u00e2neos de seus tesouros.<\/p>\n<p>Nesse aspecto, a literatura \u00e9 um crime sem perd\u00e3o. O motivo que leva Cercas a construir sua novela bandida \u00e9 estrear na literatura. Mas ele guarda um trunfo: tentar reescrever Dostoievski pegando o mote de Crime e Castigo para gerar uma novela como Mem\u00f3rias do subsolo do autor russo: o solit\u00e1rio compulsivo sente-se injusti\u00e7ado pela sociedade e precisa encontrar nisso os motivos para o seu isolamento. Descobre que essa doen\u00e7a \u00e9 geral, todos est\u00e3o confinados em suas vidas med\u00edocres. Ent\u00e3o se vinga da concorr\u00eancia rejeitando-a: escrever um romance \u00e9 sair \u00e0 luz para denunciar o que est\u00e1 oculto e que parece n\u00e3o ter solu\u00e7\u00e3o. \u00c9 um anacronismo: no s\u00e9culo 19, era justific\u00e1vel existir um personagem como Raskholnikov, mas e agora, nesta \u00e9poca de tanta comunica\u00e7\u00e3o e presen\u00e7a maci\u00e7a de gente conectada? \u00c1lvaro, o escritor inventado, \u00e9 um anacr\u00f4nico que, por sua exist\u00eancia, ir\u00e1 livrar Javier Cercas da mesma maldi\u00e7\u00e3o. O autor real desova seu protagonista (clonado nele mesmo) para n\u00e3o sucumbir ao que leva todos ao desaparecimento.<\/p>\n<p>Foi dito que esta novela jamais viria \u00e0 luz n\u00e3o fosse o sucesso de Soldados de Salamina. \u00c9 o t\u00edpico coment\u00e1rio da cr\u00edtica farta de ler profissionalmente. Quando se l\u00ea livros demais para gerar pensamento for\u00e7ado, \u00e9 comum entregar-se \u00e0s id\u00e9ias prontas. Especialmente quando se trata de desfazer um autor consagrado. Como, ao escrever seu best-seller, Cercas tornou-se intoc\u00e1vel, pela maestria com que levou a narrativa a confrontar a hist\u00f3ria recente do seu pa\u00eds e os desafios liter\u00e1rios do nosso tempo, fica mais f\u00e1cil atac\u00e1-lo pelas costas. Ou seja, desmerecer seu livro da juventude. Mas Cercas est\u00e1 bem escudado. Invocou Dostoievski fingindo que ia atr\u00e1s de Flaubert. Faz sentido: no autor franc\u00eas, &#8220;o real, para o homem, \u00e9 um efeito do uso da palavra&#8221;, como notaram Eug\u00eanio Bucci e Maria Rita Kehl num texto sobre Roland Barthes. Uma abordagem que tem tudo a ver com O Motivo. Mas Cercas bate o bumbo num degrau mais abaixo, ao optar pelo papel do romancista apesar de tudo ter sido j\u00e1 desmascarado. L\u00e1 onde existe a maldi\u00e7\u00e3o absoluta, que \u00e9 a do homem e, portanto, for\u00e7osamente a do of\u00edcio, h\u00e1 lugar para o escritor exposto em suas v\u00edsceras, mas vocacionado para a reden\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m melhor do que o mestre russo para denunciar o que tem todo aspecto de uma fraude.<\/p>\n<p>At\u00e9 o posf\u00e1cio parece fazer parte da fic\u00e7\u00e3o, talvez para fazer uma defesa pr\u00e9via, ou n\u00e3o dar trabalho \u00e0 cr\u00edtica, ou desmoralizar os cr\u00edticos profissionais, j\u00e1 que se trata de an\u00e1lise excelente. Em qualquer cen\u00e1rio, ele se sai muito bem. Javier Cercas \u00e9 um escritor raro, que tem o principal motivo para fazer literatura: contar toda a verdade, mesmo que isso pare\u00e7a ser apenas um sinistro parque de divers\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dostoievski est\u00e1 na raiz de O Motivo (Francis, 118 p\u00e1gs.), novela escrita na juventude (1987) pelo espanhol Javier Cercas, autor do best-seller Soldados de Salamina, lan\u00e7ado em 2004 em portugu\u00eas pela mesma editora, que vendeu 500 mil exemplares na Europa e virou filme de David Trueba. Surpreende que na minuciosa an\u00e1lise do posf\u00e1cio, acusado de paneg\u00edrico pela imprensa espanhola, Francisco Rico nem cite o autor russo. Mas o livro \u00e9 puro Crime e Castigo: um homem solit\u00e1rio premedita um crime, o assassinato de uma pessoa idosa que tem dinheiro guardado em casa, e rem\u00f3i seus argumentos a favor e contra esse desenlace. (Resenha publicada dia 30\/07\/05, no caderno Cultura do Di\u00e1rio Catarinense)<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1249"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1249"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1249\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1432,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1249\/revisions\/1432"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1249"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1249"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1249"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}