{"id":125,"date":"2005-05-15T14:36:18","date_gmt":"2005-05-15T16:36:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=125"},"modified":"2009-12-21T00:46:33","modified_gmt":"2009-12-21T02:46:33","slug":"o-gol-extremo-de-alex","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-gol-extremo-de-alex","title":{"rendered":"O GOL EXTREMO DE ALEX"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Futebol \u00e9 fic\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o quer dizer que seja irreal. Pel\u00e9, por exemplo, \u00e9 um personagem, e nada mais real do que o Rei. Sempre relembro, a meu modo, e com minhas imagens e conclus\u00f5es, o que os outros descreveram com suas certezas. Ou imagino, como qualquer torcedor comum, campeonatos que nunca existiram, jogadas inveross\u00edmeis, campanhas memor\u00e1veis que n\u00e3o sa\u00edram do quarto do sonho. Um lance tem me perseguido nos \u00faltimos dias, parecido com tantos outros, mas \u00fanico nos seus desdobramentos. Trata-se do momento decisivo de um campeonato. Os times n\u00e3o interessam. O certo \u00e9 que Alex est\u00e1 parado, exausto, no \u00faltimo segundo do jogo empatado, pronto para bater uma falta com barreira. Ele deixar\u00e1 o desfecho a cargo do destino, a bola.<br \/>\n<strong><br \/>\nPROFECIA<\/strong> &#8211; Noto que Alex toma impulso arqueando os dois cotovelos. Sempre faz isso e agora far\u00e1 como nunca. Mas antes deixem-me falar de seus m\u00fasculos transfigurados pelo cansa\u00e7o e o suor. As pernas j\u00e1 n\u00e3o lhe obedecem e ele fica numa posi\u00e7\u00e3o parecida com aqueles que teimam em ir para certo lugar mas o corpo insiste em tomar outra dire\u00e7\u00e3o. Apenas vislumbro esse gesto potencial, pois ele est\u00e1 im\u00f3vel, de cabe\u00e7a baixa, mas com os olhos superpostos, saindo das \u00f3rbitas, que \u00e9 o jeito de os vision\u00e1rios enxergarem o invis\u00edvel. Ele sabe que n\u00e3o pode mais confiar na sua intelig\u00eancia, derrubada pela tens\u00e3o de in\u00fameros toques que n\u00e3o tiveram repercuss\u00e3o merecida, passes que conseguiram colocar atacantes cara a cara com o gol mas n\u00e3o cumpriram a profecia das arquibancadas, que sempre se antecipam a favor da sorte. Alex sabe, nesse instante supremo, que tamb\u00e9m n\u00e3o poder\u00e1 contar com sua precis\u00e3o de g\u00eanio, pois o p\u00e9 certamente n\u00e3o vai chegar no impulso certo para conseguir o que ele gostaria que acontecesse. Sua \u00fanica sa\u00edda \u00e9 acreditar que a bola, ao ser tocada pela gra\u00e7a do seu chute, poder\u00e1 tomar vida pr\u00f3pria, como aconteceu tantas vezes. A bola, logo que \u00e9 colocada em jogo, aprende r\u00e1pido que deve se dirigir \u00e0s goleiras, mas h\u00e1 v\u00e1rios caminhos poss\u00edveis. Sua ferramenta mais conhecida para chegar a essa conclus\u00e3o \u00e9 o cruzamento em diagonal, j\u00e1 que as paralelas s\u00e3o um passe mon\u00f3tono e burocr\u00e1tico da zaga para atrair atacantes e assim abrir um claro no meio do campo. A diagonal \u00e9 a transmuta\u00e7\u00e3o da linha reta que sonha com o c\u00edrculo e por isso corta caminhos e vira jogos com extrema compet\u00eancia. Mas Alex n\u00e3o pensa nisso nem em nada parecido. Ele desistiu de pensar e quer que a bola tome o seu lugar.<br \/>\n<strong><br \/>\nSURPRESA<\/strong> &#8211; O goleiro, do lado de l\u00e1 da barreira, n\u00e3o v\u00ea Alex, que n\u00e3o tem altura para se sobressair naquela dist\u00e2ncia. Pressente apenas que o chute vir\u00e1 como uma visita surpresa e poder\u00e1 chegar em qualquer canto, de qualquer dire\u00e7\u00e3o e em qualquer velocidade. Prepara-se e confia tamb\u00e9m na sorte, porque nenhum treinamento poder\u00e1 prepar\u00e1-lo para o que vir\u00e1 a seguir. O goleiro sabe que a bola alcan\u00e7a a velocidade da luz e no momento em que o p\u00e9 do atacante tocar na crian\u00e7a, ela j\u00e1 estar\u00e1 ao alcance dele, goleiro, ou ent\u00e3o se perder\u00e1 pela linha de fundo ou beijar\u00e1 a rede. Alex conhece aquele goleiro e prefere apostar que n\u00e3o poder\u00e1 surpreend\u00ea-lo, pois esse advers\u00e1rio deve estar preparado. Por isso puxa os cotovelos, coloca um p\u00e9 atr\u00e1s e com o outro firma a coluna que vai segurar o templo do chute. O p\u00e9 recuado ent\u00e3o viaja pela perna em movimento e quando chega perto da bola entrega-se para n\u00e3o mais ter outra chance. O p\u00e9 desiste de chutar quando decisivamente chuta. Por isso o lance parece, no in\u00edcio, que n\u00e3o ir\u00e1 acontecer de verdade. Mas o p\u00e9 de Alex, o jogador que desistiu de pensar nesse instante extremo, serve de fa\u00edsca para a bola que enfim arranca em dire\u00e7\u00e3o ao nada. A bola adquire vida pr\u00f3pria e projeta-se por cima da barreira como se quisesse atingir as cabines de r\u00e1dio, como se quisesse pipocar no meio do caos popular, como se quisesse tamb\u00e9m desistir do que lhe deram de bandeja e que ela jamais poder\u00e1 recusar. Depois do chute, Alex vira-se para o lado, como se estivesse saindo em dire\u00e7\u00e3o ao vesti\u00e1rio. Estava entregue e o jogo terminara. Nem tinha for\u00e7as para decidir o campeonato nos penaltys. N\u00e3o arriscaria seus companheiros e toda aquela torcida.<br \/>\n<strong><br \/>\nP\u00c2NICO<\/strong> &#8211; Mas a bola sabe que n\u00e3o tem impulso para cruzar a linha de fundo. Tomou altura demais e v\u00ea-se no p\u00e2nico da descida. O goleiro troca de pernas para adivinhar o canto que ela vai decidir a partida e esse segundo \u00e9 a sua perdi\u00e7\u00e3o. Pois a bola, acompanhando a loucura da jogada, desfaz-se em v\u00e1cuo tomando um t\u00fanel que algo construiu em torno, talvez a expectativa do p\u00fablico, talvez a ansiedade dos jogadores, talvez o terror dos telespectadores, que est\u00e3o longe demais para acompanhar todos os cacos daquela ru\u00edna de tempo. A bola desiste de ir longe, mas tamb\u00e9m n\u00e3o permite que acabe encaixada num goleiro qualquer de um time qualquer. Ela precisa mostrar que recebeu o toque como um presente e que poder\u00e1 desembrulh\u00e1-lo antes que digam acabou. Ela, que gosta de quicar na frente dos goleiros para impressionar a cr\u00f4nica esportiva com ilus\u00f5es, como a do morrinho artilheiro, prepara agora o gesto final. E descamba, como um arm\u00e1rio, como o segundo Gilmar diante de uma falta batida pelo Neto no Maracan\u00e3, como um saco de batatas que se espatifa. S\u00f3 que o impulso inicial tinha levado a bola longe demais. Por isso ela lambe o travess\u00e3o e faz aquele chiado horr\u00edvel para os goleiros, o do ro\u00e7ar imperdo\u00e1vel na rede. A bola ent\u00e3o jaz no fundo do gol como um objeto sem vida. E Alex, que chegou a virar o pesco\u00e7o para ver o\u00adnde a bola tinha se enfiado, levanta apenas um bra\u00e7o antes que a torcida, que estava muda, comece a levantar-se como o Mar Vermelho diante de Mois\u00e9s. Foi assim que vi essa jogada nesses dias. Algo que nunca existiu ou existir\u00e1, talvez. Mas serve para me dizer o quanto o futebol \u00e9 apenas linguagem e que a intelig\u00eancia suprema dos jogadores exige que os jornalistas estejam \u00e0 altura do jogo que os sustenta, do futebol que os transcende, do grito que expressa a gl\u00f3ria que ningu\u00e9m nos tira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Futebol \u00e9 fic\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o quer dizer que seja irreal. Pel\u00e9, por exemplo, \u00e9 um personagem, e nada mais real do que o Rei. 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