{"id":1251,"date":"2009-12-18T21:09:08","date_gmt":"2009-12-18T23:09:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1251"},"modified":"2009-12-21T20:30:43","modified_gmt":"2009-12-21T22:30:43","slug":"o-segundo-inverno","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-segundo-inverno","title":{"rendered":"O SEGUNDO INVERNO"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 12pt; font-family: 'Times New Roman';\"><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O Inverno voltou e me trouxe o in\u00edcio de um resgate: o h\u00e1bito de conviver com o frio que chega com vento, o gelo que acumula casacos nas paradas de \u00f4nibus, as m\u00e3os que se esfregam, os rostos vermelhos, as frestas escondidas, as manh\u00e3s e noites geladas. Ainda \u00e9 s\u00f3 o come\u00e7o, mas agrade\u00e7o que desta vez ele tenha chegado na hora datada, pois no ano passado o frio deu as caras em maio e s\u00f3 saiu l\u00e1 por dezembro.<\/p>\n<p>INF\u00c2NCIA &#8211; A presen\u00e7a em casa da minha neta Maria Clara intensifica o resgate. Ela est\u00e1 plena de si com seu casaquinho tricotado pela bisav\u00f3, a touca de l\u00e3 cobrindo toda a cabe\u00e7a e as m\u00e3os segurando agora os pezinhos (excelente exerc\u00edcio, que experimentei imitando-a, e que d\u00e1 grande al\u00edvio \u00e0 coluna). A voz j\u00e1 articula melodias completas, v\u00e9spera da linguagem, e os gestos inquietos experimentam o derrubar de coisas, o pegar transit\u00f3rio, tudo acompanhado por um olhar atento. H\u00e1 seriedade em beb\u00eas, um of\u00edcio que n\u00e3o \u00e9 essa festa que imaginam. Os dentinhos que rasgam as gengivas por longas horas do dia, o arroto dif\u00edcil de sair, a elabora\u00e7\u00e3o de mist\u00e9rios como a chegada da noite (u\u00e9, n\u00e3o estava tudo claro at\u00e9 h\u00e1 pouco?).<\/p>\n<p>Lembro da minha inf\u00e2ncia na cidade do pampa, que cruzava a fam\u00edlia como um evento definitivo, que nos embrulhava em grandes pul\u00f4veres de l\u00e3, tricotados por minha m\u00e3e, sempre maiores do que \u00e9ramos, pois cresc\u00edamos como palmeiras e n\u00e3o havia energia para acompanhar o ritmo. Quando a roupa enfim cabia nos bra\u00e7os longos e finos, o pul\u00f4ver j\u00e1 era. Come\u00e7ava endomingado, para ir ao cinema, acabava na cama para arredar a friaca e terminava num canto qualquer, exausto do uso. As coisas eram feitas para durar.<\/p>\n<p>Lembro de um sapato que usei por dois anos e que n\u00e3o acabava nunca. Acabei jogando futebol com ele e o bicho, firme. Era s\u00f3 dar um lustro e j\u00e1 servia para ir ao col\u00e9gio. Acabei abandonando o par indestrut\u00edvel no p\u00e1tio chuvoso, pois queria ganhar sapato novo.<\/p>\n<p>Maria Clara segue o ritmo dos nen\u00eas de hoje: roupa de um ano aos cinco meses, corpo que espicha e embochecha sem parar, o meio sorriso evoluindo para a gargalhada, a festa quando acorda e o sil\u00eancio de todos para faz\u00ea-la dormir. A inf\u00e2ncia \u00e9 quando o tempo \u00e9 a palavra cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>CAF\u00c9 &#8211; Implico com as id\u00e9ias prontas sobre o Inverno: vinho caro, lareira, passeio na Serra. O Inverno popular \u00e9 feito de outra natureza. A continuidade da abnega\u00e7\u00e3o diante dos rigores da vida, a necess\u00e1ria concentra\u00e7\u00e3o para se aprofundar em alguma coisa, o estudo como companheiro e o sol t\u00edmido que \u00e9 sempre uma celebra\u00e7\u00e3o, salpicando no p\u00e1tio a claridade maravilhosa pontuada de folhas e algumas flores que resistem. \u00c9 tempo de mirar nos olhos e no rosto, nas falas e nos pensamentos, nas leituras e nos projetos. O frio sempre chega e n\u00f3s, deste peda\u00e7o de terra, sabemos que nada pode contra ele. Agradecemos o calorzinho que fez em maio e junho, que chegou at\u00e9 a dar praia em alguns dias.<\/p>\n<p>Mas agora \u00e9 hora de esfregar as pernas, de pensar muito antes de lavar o cabelo, de perseguir chocolate quente e caf\u00e9 feito na hora, de abordar caldos enfuma\u00e7ados e de tirar da vista as defesas grudentas geradas pela noite. Um acolchoado pesado, um cobertor fino de l\u00e3 pura, umas orelhas que jamais esquentam e l\u00e1 vamos n\u00f3s, ano adentro, em comunh\u00e3o com esses raios que nos chegam em diagonal da estrela-dia. o\u00adnde se esconde teu cora\u00e7\u00e3o neste Inverno que come\u00e7a e n\u00e3o sabemos quando termina?<\/p>\n<p>FUTURO &#8211; Quando as nuvens pesam e o vento Sul se manifesta, pensamos que estamos perdidos. Mas surge a manh\u00e3 com sua neblina e tudo se resolve com a mesa familiar o\u00adnde h\u00e1 amor, n\u00facleo resistente deste pa\u00eds aos peda\u00e7os, quando nos unimos diante do futuro, esse sonho que n\u00e3o nos deixa, esse estranho que, de tanto insistir, torna-se nosso amigo.<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Inverno voltou e me trouxe o in\u00edcio de um resgate: o h\u00e1bito de conviver com o frio que chega com vento, o gelo que acumula casacos nas paradas de \u00f4nibus, as m\u00e3os que se esfregam, os rostos vermelhos, as frestas escondidas, as manh\u00e3s e noites geladas. Ainda \u00e9 s\u00f3 o come\u00e7o, mas agrade\u00e7o que desta vez ele tenha chegado na hora datada, pois no ano passado o frio deu as caras em maio e s\u00f3 saiu l\u00e1 por dezembro. (Cr\u00f4nica publicada dia 17\/julho\/2005 no caderno Donna, do Di\u00e1rio Catarinense).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1251"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1251"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1251\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1608,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1251\/revisions\/1608"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1251"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1251"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1251"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}