{"id":1253,"date":"2009-12-18T21:09:55","date_gmt":"2009-12-18T23:09:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1253"},"modified":"2009-12-20T23:54:49","modified_gmt":"2009-12-21T01:54:49","slug":"sam-peckimpah-a-america-sem-escrupulos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/sam-peckimpah-a-america-sem-escrupulos","title":{"rendered":"SAM PECKIMPAH, A AM\u00c9RICA SEM ESCR\u00daPULOS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nSam Peckimpah revelou o imagin\u00e1rio da Am\u00e9rica: a viol\u00eancia sem limites, necess\u00e1ria para um pa\u00eds que se transformou num imp\u00e9rio e que hoje, na maior cara de pau, tem certeza que \u00e9 dono do mundo. Antes de Sam, n\u00e3o havia sangue no faroeste. Nem havia tiro, apenas alguns estampidos que sempre ricocheteavam nas pedras, fazendo um barulho agudo que imit\u00e1vamos em nossas brincadeiras na inf\u00e2ncia. N\u00e3o existem her\u00f3is morais em seus filmes, apenas pistoleiros sanguin\u00e1rios, que fundam uma outra \u00e9tica: a dos guerreiros que lutam o tempo todo para aniquilar o que estiver na frente. A solidariedade masculina que surge dessa op\u00e7\u00e3o \u00e9 o machismo carism\u00e1tico do poder das armas e da investida suicida. Para deixar expl\u00edcito o seu recado, Sam filma a mortandade em c\u00e2mara lenta. O sangue sai das feridas abertas para inundar a tela. A humanidade, na sua \u00f3tica, \u00e9 um projeto perdido. No in\u00edcio de seu filme maior, <strong>Wild Bunch<\/strong>, crian\u00e7as atiram escorpi\u00f5es no formigueiro, numa representa\u00e7\u00e3o do \u00f3dio de ber\u00e7o, o que faz a diferen\u00e7a num territ\u00f3rio sem lei, a na\u00e7\u00e3o que anexa territ\u00f3rios pela viol\u00eancia.<\/p>\n<p>MALFEITORES &#8211; Sam Peckimpach \u00e9 um cineasta que aproveitou at\u00e9 o limite a tecnologia cinematogr\u00e1fica desenvolvida em d\u00e9cadas de ind\u00fastria subsidiada pelo governo. Quando a \u00e9tica era necess\u00e1ria, t\u00ednhamos her\u00f3is solit\u00e1rios como Gary Cooper em <em>High Noon<\/em>, ou mesmo anti-her\u00f3is que caem em si como John Wayne em <em>The Searchers<\/em>. Com Sam, tanto faz William Holden ou Robert Ryan: ambos s\u00e3o malfeitores, um a servi\u00e7o do bando selvagem, outro a servi\u00e7o da ferrovia. N\u00e3o importa a natureza dos protagonistas. O objetivo \u00e9 desmascarar o inimigo, os mexicanos bandidos, usurpadores de uma terra que pertence ao destino manifesto do imperialismo armado. Os guerreiros privatizados fazem parte dessa cidadania perversa que se imp\u00f5e pela for\u00e7a e faz uma guerra total ao poder que se interp\u00f5e ao massacre, seja ele legal ou n\u00e3o. Esse cinema, que gerou clones bastardos como o Quentin Tarantino dos <em>Reservoir Dogs<\/em> e o Scorcese de <em>Taxi Driver,<\/em> \u00e9 fruto tamb\u00e9m da crueza inventada pelo cinema de arte, que confrontou a babaquice dos filmes bem comportados e acabou destruindo os limites \u00e9ticos da s\u00e9tima arte. Sergio Leone, com <em>Era uma vez a Am\u00e9rica<\/em>, \u00e9 seu co-irm\u00e3o de sangue. Todos aproveitam a euforia americana de prepot\u00eancia para brincar de vilania. Os bandidos de capa at\u00e9 os p\u00e9s de Leone s\u00e3o resultado de Antonio das Mortes de Glauber. A cara facinorosa de Corisco inspira Sam nos momentos decisivos da morte sem quartel. De tudo isso resultam Mel Gibson e suas m\u00e1quinas mort\u00edferas, desvinculados da \u00e9tica denuncista dos cineastas radicais, incluindo a\u00ed Nickolas Ray e Arthur Penn. Estes, mostraram como se faz um diagn\u00f3stico do horror. Sam n\u00e3o tem escr\u00fapulos e celebra a for\u00e7a bruta como est\u00e9tica vitoriosa.<\/p>\n<p>TORTURA &#8211; Mas o pr\u00f3prio diretor pune a pr\u00f3pria escolha ao destruir todo o cen\u00e1rio num banho de sangue no final de <em>Wild Bunch<\/em>. Os anti-her\u00f3is sem limites destroem-se na coragem que escolheram. O rescaldo de seus filmes ainda pode ser encarado como uma \u00e9tica, mas o que fica s\u00e3o as imagens poderosas e a gl\u00f3ria de morrer em cena para o del\u00edrio das fantasias demolidoras dos espectadores. A falta de compromisso fez do faroeste italiano um sucesso de bilheteria. No fundo, tudo foi cevado naqueles filmecos em preto e branco que esses cineastas citados viram quando crian\u00e7a. As brincadeiras infantis davam a receita: como era poss\u00edvel matar sem ser punido, morrer para reviver na aventura seguinte, ent\u00e3o para qu\u00ea a lei e a ordem, se tudo se resumia a um tiroteio sem fim? S\u00f3 que os adultos infantilizados forneceram a desculpa para que o imp\u00e9rio fabricasse sua f\u00e1brica de massacres. Ou ent\u00e3o o cinema \u00e9 resultado dessa pol\u00edtica: h\u00e1 sintonia impl\u00edcita entre o Vietn\u00e3 visto na TV e os filmes de Sam, h\u00e1 sintonia expl\u00edcita entre Rambo e a vers\u00e3o da vit\u00f3ria no sudeste asi\u00e1tico. Tudo podia desde o momento em que os filmes americanos transformaram a participa\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica na segunda guerra como o \u00e1libi perfeito para invadir o mundo. Tudo ficou permitido e Sam \u00e9 o pioneiro desse cinema que despejou a carne retalhada dos escravos no olhar horrorizado (e fascinado) dos espectadores em todo o mundo, dominado pelo sistema de distribui\u00e7\u00e3o da ditadura imperial. Podemos gostar do cinema inventado por Sam, mas estaremos caindo na armadilha. Que importa, se seus ep\u00edgonos acabaram fazendo coisa muito pior, e sem a consci\u00eancia do Mal que o torturava?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sam Peckimpah revelou o imagin\u00e1rio da Am\u00e9rica: a viol\u00eancia sem limites, necess\u00e1ria para um pa\u00eds que se transformou num imp\u00e9rio e que hoje, na maior cara de pau, tem certeza que \u00e9 dono do mundo. Antes de Sam, n\u00e3o havia sangue no faroeste. Nem havia tiro, apenas alguns estampidos que sempre ricocheteavam nas pedras, fazendo um barulho agudo que imit\u00e1vamos em nossas brincadeiras na inf\u00e2ncia. N\u00e3o existem her\u00f3is morais em seus filmes, apenas pistoleiros sanguin\u00e1rios, que fundam uma outra \u00e9tica: a dos guerreiros que lutam o tempo todo para aniquilar o que estiver na frente. A solidariedade masculina que surge dessa op\u00e7\u00e3o \u00e9 o machismo carism\u00e1tico do poder das armas e da investida suicida. 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