{"id":1259,"date":"2009-12-18T21:14:32","date_gmt":"2009-12-18T23:14:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1259"},"modified":"2009-12-20T23:45:57","modified_gmt":"2009-12-21T01:45:57","slug":"inventario-do-brasil-profundo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/inventario-do-brasil-profundo","title":{"rendered":"INVENT\u00c1RIO DO BRASIL PROFUNDO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><em> <\/em><\/p>\n<p>O mapa do Brasil profundo inclui Livramento e Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, e Bela Vista do Para\u00edso, no Paran\u00e1. Nestas cidades, tr\u00eas crian\u00e7as que cresceram sob a sombra da ditadura tornaram-se escritores bem-sucedidos, com significativa obra publicada e, na maioria das vezes, premiada. No momento em que eles colocam na pra\u00e7a seus mais recentes lan\u00e7amentos, o conte\u00fado poderia sugerir festa e celebra\u00e7\u00e3o, pois se trata de poesia brasileira bem resolvida, pertencente a uma linhagem s\u00f3lida da cultura do pa\u00eds. Mas a forma\u00e7\u00e3o fala mais fundo e imp\u00f5e-se a tr\u00e1gica sobriedade do que \u00e9 escrito com absoluta transpar\u00eancia. Os livros do paranaense Miguel Sanches Neto (autor de Venho de um pa\u00eds obscuro) e dos dois ga\u00fachos, o fronteirista Paulo Bentancur (Bodas de osso) e o caxiense Fabr\u00edcio Carpinejar (Como no c\u00e9u e Livro de visitas), todos da Bertrand Brasil, foram esculpidos com a mat\u00e9ria bruta da na\u00e7\u00e3o que voltou as costas para si mesma.<\/p>\n<p>Mesmo sendo t\u00e3o expl\u00edcita essa sintonia entre a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e a poesia, os tr\u00eas autores jamais deixam de lado as li\u00e7\u00f5es aprendidas nas \u00faltimas d\u00e9cadas, especialmente a de Drummond, em que a penetra\u00e7\u00e3o surda no reino das palavras \u00e9 decisiva num of\u00edcio tentado pelos temas da vida escassa. Eles encarnam esse duro aprendizado diferenciando-se do poema confinado numa pris\u00e3o de aus\u00eancias. Existem leis que pro\u00edbem o poema ser de vanguarda, ou ideol\u00f3gico, ou confessional, pois tudo isso pertenceria ao passado. O que \u00e9 moda, hoje, \u00e9 o verso desvinculado de qualquer realidade, para assim assumir seu \u00fanico papel ainda tolerado, o de redesenhar o perfil de cada palavra, vir\u00e1-la pelo avesso e combin\u00e1-la de todas as formas.<\/p>\n<p>Mas esse \u00e9 um destino que, paradoxalmente, pertence ao territ\u00f3rio negado (o da pol\u00edtica), pois uma literatura que reivindica uma exist\u00eancia aut\u00f3ctone, sem nenhuma rela\u00e7\u00e3o com a vida social e \u00e9 considerada a \u00fanica poss\u00edvel, pertence a um pa\u00eds que entregou sua soberania. Qualquer movimento contra essa medida provis\u00f3ria corre o risco de ser ignorada. O sil\u00eancio, que monta guarda em torno da poesia que n\u00e3o participa dessa casca flex\u00edvel de apar\u00eancias, \u00e9 a mesma sentinela que define os pap\u00e9is sociais no Brasil, onde n\u00e3o h\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de renda porque &#8220;n\u00e3o d\u00e1 tempo&#8221;, como notou esses dias um passageiro de \u00f4nibus.<\/p>\n<p>Longe da falsa contradi\u00e7\u00e3o entre poesia e prosa (t\u00e3o insistentemente lembrada quando se trata de poesia n\u00e3o enquadrada nas firulas te\u00f3ricas sobre o verso), os tr\u00eas poetas trabalham fora dos projetos prontos para a poesia, que, em tese, deveria pular qualquer muro, a come\u00e7ar pelo mais importante, o do sentido (a compreens\u00e3o compartilhada). Aqui ocorre o contr\u00e1rio. N\u00e3o h\u00e1 pudor em se falar com todas as letras, como em Miguel Sanches Neto: &#8220;Venho de um pa\u00eds obscuro\/ de uma inf\u00e2ncia s\u00f3 muros,\/ meu pai foi leve lembran\u00e7a,\/ que me marcou pela aus\u00eancia,\/ e enquanto caminhava pelas ruas do tempo mais triste da ditadura\/ ia perdendo meu pa\u00eds como quem deixa uma moeda cair&#8221;.<\/p>\n<p>O poeta perdeu o pa\u00eds como quem perde o pai. Foi formado num territ\u00f3rio de mis\u00e9ria, autoritarismo, marginalidade (a na\u00e7\u00e3o sem moeda). O dinheiro que falta na fam\u00edlia sobra no bordel (a festa dos recursos confiscados da popula\u00e7\u00e3o) e de l\u00e1 pinga na mesa onde o poeta cresce: a m\u00e3e costurava para as putas, a av\u00f3 lavava roupa para fora, o padrasto vendia para os pobres e todos eram analfabetos. Ao herdar uma cultura \u00e1grafa, feita de restos, o poeta recolhe o que \u00e9 jogado no lixo. Nas suas palavras, a escola era &#8220;um lugar de castigo, onde s\u00f3 o sil\u00eancio era exigido&#8221;. Prisioneiro dessas decis\u00f5es postas como definitivas, ele confronta sua heran\u00e7a: o nome que veio de uma ancestralidade aos peda\u00e7os, jornais velhos com not\u00edcias datadas, a casa que se perdeu para sempre e jamais foi substitu\u00edda. Gerado pelo Brasil da ditadura (pois esse \u00e9 o nome do pa\u00eds obscuro), o poeta curva-se diante da sua heran\u00e7a e nela enxerga uma r\u00e9stia de luz na varanda, um hotel em ru\u00ednas, uma av\u00f3 que serve caf\u00e9 depois de sair por alguns momentos do retrato da sala.<\/p>\n<p>Ele desistiu de achar, mas n\u00e3o da procura. As rela\u00e7\u00f5es humanas nesse mundo sombrio (o casamento, a fraternidade, a descend\u00eancia, a filia\u00e7\u00e3o) est\u00e3o contaminadas de impossibilidades. Nada pode a mem\u00f3ria na sua luta contra a morte. Mas, descobre o poeta, nada poder\u00e1 a morte quando a mem\u00f3ria for plena. Por isso ele insiste, sem fazer barulho. Seu objetivo \u00e9 transformar-se em raiz, longe do inferno das superficialidades, e entregar-se sem resist\u00eancia ao esquartejamento de si. Para definir sua miss\u00e3o, que aparentemente n\u00e3o existe, ele procura desvestir o que a ditadura fez com outro passado, o de Aleijadinho. Numa s\u00e9rie de poemas finais, revela o que um criador, num pa\u00eds obscuro, \u00e9 capaz de fazer, mesmo que sua arte seja soterrada pela mesmice burocr\u00e1tica e pela pompa das apar\u00eancias. Ele v\u00ea nas esculturas de Aleijadinho o mesmo material da pr\u00f3pria maldi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O pa\u00eds que assombra Miguel Sanches Neto \u00e9 o mesmo deserto de Paulo Bentancur, onde o poema \u00e9 o \u00faltimo reduto de uma fuga. Quando a na\u00e7\u00e3o se rende e se esvai, e no lugar dela \u00e9 colocada uma representa\u00e7\u00e3o criminosa, reiterada pela imagem vendida no mercado, a palavra que um dia fundou a nacionalidade perde o sentido. Fica \u00e0 deriva e \u00e9 dada como morta. Possui apenas a mem\u00f3ria de algo que n\u00e3o lhe pertence, mas que ele resgata como tesouro pessoal. O poeta encarna essa perdi\u00e7\u00e3o numa encruzilhada: a esperan\u00e7a de \u00e1gua sob &#8220;um c\u00e9u que jamais ilude&#8221;, os olhos desprotegidos diante da tempestade, o dia na prateleira. Nesse sufoco, n\u00e3o h\u00e1 lugar para nada: &#8220;Isto n\u00e3o \u00e9 um poema, n\u00e3o \u00e9 mesmo uma confiss\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 sequer o olhar turvo de um esp\u00edrito sem a luz de quem, ao l\u00ea-lo, poder\u00e1 ver mais que um poema. Ou menos&#8221;.<\/p>\n<p>Dividido em tr\u00eas partes, o livro de Paulo Bentancur aborda primeiro a inf\u00e2ncia, depois o pr\u00f3prio of\u00edcio, e em seguida a perman\u00eancia (ou a falta dela) no casamento l\u00edmpido entre o desaparecimento e a transpar\u00eancia. A aparente submiss\u00e3o ao que a vida imp\u00f5e \u00e9 uma insurrei\u00e7\u00e3o que o poema joga como lava na borda de um monturo. A poesia, ent\u00e3o, \u00e9 o reflexo da m\u00e3o sobre o papel, do gesto sobre a palavra, da vida sobre que precisa ser dito. Paulo enxerga as min\u00facias de um pa\u00eds sem limites, e entende pelo detalhe o que nos confunde pelo conjunto. \u00c9 complicado definir uma identidade num lugar que aposta na dispers\u00e3o e onde a realidade econ\u00f4mica e pol\u00edtica jogou uma sombra pesada sobre o significado das palavras.<\/p>\n<p>Nessa arena, o poeta ou sucum-be \u00e0 armadura dos significados ou pula no abismo.<\/p>\n<p>Fabr\u00edcio Carpinejar escolhe um momento posterior \u00e0 queda. Ele cuida que o esp\u00f3lio do s\u00f3t\u00e3o seja a arqueologia que reinventa os c\u00f4modos ainda vivos. Sua poesia n\u00e3o busca a pra\u00e7a usada pela conviv\u00eancia em conflito, mas a cruza de uma s\u00f3 vez para lamentar a travessia sem sentido. A biografia dessas ru\u00ednas veste como um terno em dia de missa, mas suja os sapatos polidos para participar da briga no quintal barrento da igreja. A inf\u00e2ncia que desponta \u00e9 uma crueldade, e a vida conjugal \u00e9 um cruzamento de merendas jogadas como arsenais de uma batalha perdida. A precis\u00e3o com que demole cada momento da vida vista pela normalidade (essa evolu\u00e7\u00e3o temporal de biologias datadas) serve de modelo para um brinquedo cruel: o de desarmar o rel\u00f3gio precioso da fam\u00edlia para expor-lhe as v\u00edsceras e assim denunciar a inexist\u00eancia de mecanismos.<\/p>\n<p>\u00c9 arriscado esse jogo porque as palavras parecem dan\u00e7ar ao sabor de cada verso, como se nada tivessem com o poeta, que sopra na rua ainda vazia, mas potencialmente sedutora para a alma crian\u00e7a dos leitores. \u00c9 apenas um jogo, dir\u00e3o as autoridades, e se ocupar\u00e3o de outras coisas, deixando que as sobras da fam\u00edlia, os loucos, os agregados, as velhas tias, as crian\u00e7as esfoladas se re\u00fanam para seguir a pista do som que vem de fora do c\u00edrculo onde todos foram encarcerados.<\/p>\n<p>H\u00e1 ent\u00e3o uma anticelebra\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que o poeta \u00e9 o primeiro a apontar, em si mesmo, a inapet\u00eancia para explicar a sedu\u00e7\u00e3o da melodia. Ele atrai para si a gargalhada geral para que n\u00e3o ou\u00e7am seu verdadeiro intento: o de jogar todo mundo nas \u00e1guas do rio, para que nela afoguem os detritos das suas linguagens. \u00c9 quando o leitor se revolta contra as regras impostas do jogo. N\u00e3o era o circo que estava passando? N\u00e3o eram as celebridades que acenavam? N\u00e3o era a fama que exibia sua fortuna? Ao nosso redor, escombros de coisas n\u00e3o nomeadas nos rondam com seu ranger de dentes. Fomos enganados e o poeta fecha a porta na nossa cara, como quem faz uma visita. Boa-noite, diz ele, e o sol sobe no horizonte como um cachorro pula do ch\u00e3o para a janela, quando busca comida no lugar onde havia apenas papel sujo (a pilha de significados acumulada pelo uso).<\/p>\n<p>Sorte de quem est\u00e1 na rua, que v\u00ea em plena liberdade as folhas soltas que tinham nascido para serem grampeadas. \u00c9 o momento, ent\u00e3o, de cada passante ser reconduzido ao primeiro ato de cria\u00e7\u00e3o, o de dar nome ao que \u00e9 de novo revelado. O pa\u00eds ganha a chance de um reencontro, mas isso depende de outras lutas. \u00c0s vezes, o destino da na\u00e7\u00e3o, que tanto pode ser a l\u00edngua, como a inf\u00e2ncia, ou a fam\u00edlia, descobre o quanto deve \u00e0 poesia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Longe da falsa contradi\u00e7\u00e3o entre poesia e prosa (t\u00e3o insistentemente lembrada quando se trata de poesia n\u00e3o enquadrada nas firulas te\u00f3ricas sobre o verso), os poetas Miguel Sanches Neto, Paulo Bentancur e Fabricio Carpinejar trabalham fora dos projetos prontos para a poesia, que, em tese, deveria pular qualquer muro, a come\u00e7ar pelo mais importante, o do sentido (a compreens\u00e3o compartilhada). Aqui ocorre o contr\u00e1rio. N\u00e3o h\u00e1 pudor em se falar com todas as letras, como em Miguel Sanches Neto: &#8220;Venho de um pa\u00eds obscuro\/ de uma inf\u00e2ncia s\u00f3 muros,\/ meu pai foi leve lembran\u00e7a,\/ que me marcou pela aus\u00eancia,\/ e enquanto caminhava pelas ruas do tempo mais triste da ditadura\/ ia perdendo meu pa\u00eds como quem deixa uma moeda cair&#8221;. Resenha publicada dia 9 de julho de 2005 no caderno de Cultura, do Di\u00e1rio Catarinense.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1259"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1259"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1259\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1488,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1259\/revisions\/1488"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1259"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1259"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1259"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}