{"id":1261,"date":"2009-12-18T21:15:14","date_gmt":"2009-12-18T23:15:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1261"},"modified":"2009-12-21T20:07:34","modified_gmt":"2009-12-21T22:07:34","slug":"os-ombros-em-denis-hopper","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/os-ombros-em-denis-hopper","title":{"rendered":"OS OMBROS EM DENIS HOPPER"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Denis Hopper \u00e9 um transgressor que n\u00e3o mexe os ombros. Ele vive com os bra\u00e7os colados ao corpo, imobilizados por h\u00e1bito, charme, mania, doen\u00e7a cong\u00eanita ou simplesmente cordas. Com os ombros duros e bra\u00e7os ca\u00eddos, Hopper assume a fala que brota de um rosto de pedra. O assustador <em>Veludo Azul<\/em> nos d\u00e1 o modelo: aquela caratonha facinorosa do traficante torturador \u00e9 mais do que uma interpreta\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma voca\u00e7\u00e3o, que envolve Hopper mesmo \u00e0 sua revelia.<\/p>\n<p>DI\u00c1LOGO &#8211; Sem movimento a n\u00e3o ser o das pernas que levam um tronco e um pesco\u00e7o r\u00edgidos, Hopper adora fazer sua cena favorita, a da situa\u00e7\u00e3o terminal, quando n\u00e3o h\u00e1 outra sa\u00edda sen\u00e3o o desenlace. Diante de um algoz, seus personagens podem perder a vida mas n\u00e3o a piada. \u00c9 c\u00e9lebre a cena em que o mafioso que precisa arrancar uma informa\u00e7\u00e3o do policial Hopper tenta estabelecer um fingido di\u00e1logo amistoso, enquanto as armas dos capangas rondam por todos os lados. Nosso her\u00f3i pergunta:\u00a0<em>Voc\u00ea \u00e9 siciliano?<\/em> Diante do sim do bandido, ataca:\u00a0<em>Pois saiba que estudei hist\u00f3ria e os sicilianos s\u00e3o todos descendentes de negros. Isso quer dizer que sua tatarav\u00f3 abriu as pernas para um nigger<\/em>.A resposta do assassino \u00e9 \u00f3bvia:\u00a0<em>Eu adoro esse cara<\/em>. E descarrega nele o rev\u00f3lver. \u00c9 a \u00fanica rea\u00e7\u00e3o poss\u00edvel quando se enfrenta algu\u00e9m que n\u00e3o tem nada a perder.<\/p>\n<p><strong>PASSOS<\/strong> &#8211; Enquanto os outros atores desenvolveram um ou v\u00e1rios andares em cena, todos voltados para a conquista amorosa ou a imposi\u00e7\u00e3o da vontade, Hopper optou pelo n\u00e3o-andar. Quem pode apostar alguma coisa no sujeito que nem sabe caminhar em cena? Pois basta ele dar alguns passos curtos como se estivesse sentindo a c\u00e2mara, carregando penosamente aqueles ombros um pouco levantados, como se sofresse pelo encargo de sustentar o pesco\u00e7o e a cabe\u00e7a, para o espectador saber de quem se trata. \u00c9 o design de um gesto reconhec\u00edvel em qualquer fotograma. Pacificada pelo registro, toda a aten\u00e7\u00e3o volta-se ent\u00e3o para sua voz e sua express\u00e3o. A fala \u00e9 rouca, sussurrada, o olhar \u00e9 pura impiedade, as linhas da face, quando se contorcem, avisam que ele vai matar.<\/p>\n<p><strong>BRANDO <\/strong>&#8211; Quando tomou todos os \u00e1cidos em Apocalipse Now, seu histrionismo de in\u00edcio de carreira (quando ainda n\u00e3o tinha definido seu estilo da idade madura) irritou profundamente Marlon Brando, que estava fazendo exatamente o contr\u00e1rio. Talvez a performance magistral de Brando, que mostrou apenas a cara (e precisava mais?) enquanto arrastava algumas palavras roucas, tenha sido a inspira\u00e7\u00e3o de Hopper para compor personagens inesquec\u00edveis, de extrema vilania e crueldade. Talvez seus ombros fixos sonhem em n\u00e3o ser filmados. Talvez seja ilus\u00e3o do ator de que ningu\u00e9m vai ou deve reparar nos ombros. Ele simplesmente anula essa por\u00e7\u00e3o do corpo e concentra tudo no rosto, como Brando com Coppola. O resultado \u00e9 completamente diferente. Hopper n\u00e3o nos convence que est\u00e1 fazendo algo inesquec\u00edvel. Parece que quer apenas exercer seu of\u00edcio, levantar uma grana e cair fora.<\/p>\n<p><strong>SINAL<\/strong> &#8211; Mas talvez seja esse seu principal disfarce. Quando dirigiu Easy Rider ou fez o t\u00edmido filho de Rock Hudson em Giant, Hopper talhou-se para ser um criador que deixa sua marca. Poderia ter feito apenas mais alguns filmes, mas trabalhou sem parar. Por isso \u00e9 sempre um acontecimento quando o vemos em cena. Quando faz o gigol\u00f4 que tem uma boneca infl\u00e1vel no porta-malas do carro, ou o xerife que enfrenta o matador em fuga pelo trem de carga, ou participa de alguma outra cena, saberemos que estamos diante de uma arte pouco identificada, que o cinema nos revela por meio de alguns protagonistas especiais. Eles s\u00e3o o sal da ind\u00fastria que perdeu seu rumo e que com eles faz um colar de contas. Em espiral, esse objeto estranho e irresist\u00edvel nos atinge como um raio. Trata-se de um risco de luz na tarde pacificada pelo sol, que parece o reflexo de algum espelho perdido. Mas \u00e9 outra coisa e precisamos ter cuidado. \u00c9 o sinal de que precisamos levantar imediatamente da cadeira para ver melhor o que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Denis Hopper \u00e9 um transgressor que n\u00e3o mexe os ombros. Ele vive com os bra\u00e7os colados ao corpo, imobilizados por h\u00e1bito, charme, mania, doen\u00e7a cong\u00eanita ou simplesmente cordas. Com os ombros duros e bra\u00e7os ca\u00eddos, Hopper assume a fala que brota de um rosto de pedra. 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