{"id":1263,"date":"2009-12-18T21:16:20","date_gmt":"2009-12-18T23:16:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1263"},"modified":"2009-12-21T00:43:38","modified_gmt":"2009-12-21T02:43:38","slug":"a-compaixao-em-anselmo-duarte","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-compaixao-em-anselmo-duarte","title":{"rendered":"A COMPAIX\u00c3O EM ANSELMO DUARTE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A cena que vai levar Anselmo Duarte para o c\u00e9u do cinema \u00e9 a da prociss\u00e3o, em que h\u00e1 identifica\u00e7\u00e3o entre os rostos da imagem de Santa B\u00e1rbara\/Ians\u00e3 e do Z\u00e9 do Burro\/Leonardo Villar. O movimento nos degraus \u00e9 a cidadania desamparada que ascende pela espiritualidade, \u00fanica porta de acesso \u00e0 justi\u00e7a. Essa subida, feita ao sabor das ondas do andar, e que ajusta a sintonia entre as duas express\u00f5es, \u00e9 o momento supremo deste filme maior que \u00e9 <strong>O Pagador de Promessas<\/strong> (pai de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber, que em in\u00edcio de carreira foi assistir as filmagens feitas por Anselmo da \u00fanica obra brasileira que arrebatou a Palma de Ouro de Cannes). O rosto do personagem transcende o pedido, j\u00e1 \u00e9 uma confirma\u00e7\u00e3o da bondade que lhe assiste e que s\u00f3 existe fora da vida social, totalmente contaminada pela exclus\u00e3o e a viol\u00eancia. Os dois rostos se encontram na inoc\u00eancia que gera a compaix\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>VELUDO <\/strong>&#8211; O pedido de Z\u00e9, a cura do animal que o serve e faz parte da fam\u00edlia, \u00e9 o sintoma de uma vida terminal. O que Z\u00e9 quer (a salva\u00e7\u00e3o) precisa ser atendido, pela conting\u00eancia da mis\u00e9ria. Uma santa, sem poder temporal, vai em socorro da v\u00edtima e a salva. O homem agradecido \u00e9 impedido de entrar na Igreja porque cometeu um pecado: invocou a santidade intensificada por duas culturas diferentes, pois uma cultura isolada n\u00e3o forma uma na\u00e7\u00e3o, que \u00e9 feita de somas e inclus\u00f5es. N\u00e3o haveria necessidade da santa se houvesse pa\u00eds, ou seja, se o Brasil realmente cuidasse dos seus filhos. Mas n\u00e3o h\u00e1 pa\u00eds e a porta do templo est\u00e1 fechada para a compaix\u00e3o. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 a ruptura, o resgate da crucifica\u00e7\u00e3o. A express\u00e3o usada pelo diretor quando viu a c\u00f3pia do filme em Cannes, logo antes de entrar na disputa, serve para definir o filme: um veludo. \u00c9 desse veludo que se alimenta Anselmo Duarte, o diretor que veio do Brasil profundo.<\/p>\n<p><strong>ATITUDE<\/strong> &#8211; O rosto de Anselmo Duarte personifica a inoc\u00eancia do cinema brasileiro quando ele era apenas um ator (foi quando aprendeu a filmar). Sua estr\u00e9ia como diretor, o perfeito <strong>Absolutamente Certo<\/strong>, mostra como outro cidad\u00e3o desamparado, deste vez no universo urbano, tenta a ascens\u00e3o social pela via lot\u00e9rica, um concurso de r\u00e1dio que testa a memoriza\u00e7\u00e3o. Ele se insurge contra a manipula\u00e7\u00e3o do concurso, pois n\u00e3o quer explorar a boa f\u00e9 do povo, pois \u00e9 nisso que reside sua principal abordagem cinematogr\u00e1fica. Anselmo v\u00ea o pa\u00eds como um f\u00edgado \u00e0 merc\u00ea dos abutres num rochedo, e procura fazer a representa\u00e7\u00e3o da revolta por meio da tomada de decis\u00e3o, ou de uma palavra que virou moda, atitude. Z\u00e9 do Burro, assim como os personagens de <em>Vereda da salva\u00e7\u00e3o<\/em> e o <em>Crime do Z\u00e9 Bigorna<\/em>, s\u00e3o v\u00edtimas da pr\u00f3pria determina\u00e7\u00e3o. S\u00e3o manipulados pela esperteza nacional, massacrados pelo sistema de opress\u00e3o, assassinados por gosto ou op\u00e7\u00e3o. \u00c9 um Brasil que veio do sonho feliz da urbanidade de cara limpa (as com\u00e9dias da Atl\u00e2ntida), que tentou ser s\u00e9rio como o cinema da Europa (os filmes da Vera Cruz) e que des\u00e1gua na obra de Anselmo Duarte como den\u00fancia e como afirma\u00e7\u00e3o da nacionalidade. Ele mostra a compaix\u00e3o necess\u00e1ria para que ainda exista pa\u00eds, e ao mesmo tempo abre as v\u00edsceras desse sentimento perdedor, que sucumbe diante da crueldade e da indiferen\u00e7a bem nutrida.<\/p>\n<p><strong>BALAN\u00c7O<\/strong> &#8211; O ressentimento de Anselmo Duarte tem raz\u00f5es de sobra para existir. Ele realizou um sonho: venceu todos os grandes diretores no festival de Cannes, levantou a Palma de Ouro como os capit\u00e3es Bellini e Mauro ergueram acima das cabe\u00e7as (sinal de auto-supera\u00e7\u00e3o do pa\u00eds) a ta\u00e7a Jules Rimet nas copas do mundo de 58 e 62 (gesto midi\u00e1tico que ele fez de prop\u00f3sito, como refer\u00eancia) e foi alvo da mais pura inveja. Mas, por ser exatamente esse grande cineasta reconhecido internacionalmente, deveria enfim perdoar. Se a inveja n\u00e3o d\u00e1 tr\u00e9gua, o problema \u00e9 da inveja. D\u00f3i v\u00ea-lo ranzinza nos seus depoimentos. Mas sempre nos deslumbra com sua estampa impec\u00e1vel, sua cara de Brasil bem resolvido, e ouvir suas hist\u00f3rias maravilhosas. Sorte que terei acesso ao trabalho que o jornalista Wendel Martins fez para a UFSC sobre Anselmo. \u00c9 sempre gratificante entrar em contato com tamanha personalidade, que nos deu pelo menos uma obra-prima e que merece o respeito da na\u00e7\u00e3o que ele tanto honra em sua longa e proveitosa vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cena que vai levar Anselmo Duarte para o c\u00e9u do cinema \u00e9 a da prociss\u00e3o, em que h\u00e1 identifica\u00e7\u00e3o entre os rostos da imagem de Santa B\u00e1rbara\/Ians\u00e3 e do Z\u00e9 do Burro\/Leonardo Villar. O movimento nos degraus \u00e9 a cidadania desamparada que ascende pela espiritualidade, \u00fanica porta de acesso \u00e0 justi\u00e7a. Essa subida, feita ao sabor das o\u00adndas do andar, e que ajusta a sintonia entre as duas express\u00f5es, \u00e9 o momento supremo deste filme maior que \u00e9 O Pagador de Promessas.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[119,113,114,115,117,118,116],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1263"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1263"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1263\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1515,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1263\/revisions\/1515"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1263"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1263"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1263"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}