{"id":1265,"date":"2009-12-18T21:17:19","date_gmt":"2009-12-18T23:17:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1265"},"modified":"2009-12-21T00:51:06","modified_gmt":"2009-12-21T02:51:06","slug":"borges-elogio-da-sombra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/borges-elogio-da-sombra","title":{"rendered":"BORGES &#8211; ELOGIO DA SOMBRA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Iluminado pelas leituras de toda uma vida, Jorge Luis Borges descobre o essencial quando finalmente \u00e9 empurrado para a sombra. A cegueira, dura presen\u00e7a aos 70 anos de idade, o deixa s\u00f3 diante da fonte que alimenta os cl\u00e1ssicos &#8211; sua paix\u00e3o expl\u00edcita, uma rede tecida desde Virg\u00edlio a Kipling.<\/p>\n<p>Nesse ambiente onde as palavras s\u00e3o desmascaradas &#8211; porque revelam-se desnecess\u00e1rias &#8211; o escritor transforma-se no oculto veio que pacientemente garimpou nas bibliotecas, e que faiscava nos olhos de uma leitura privilegiada &#8211; \u00e1rvore generosa de onde brotaram seus in\u00fameros livros.<\/p>\n<p>Mem\u00f3ria, ent\u00e3o torna-se esquecimento, a literatura transmuta-se em vida e a poesia \u00e9 a alta g\u00e1vea que anuncia a descoberta. Neste Elogio da Sombra, n\u00e3o \u00e9 a treva que ofusca a obra, mas um outro sol, imagin\u00e1rio antes, real agora, quando tudo vira linguagem. Inclusive o que n\u00e3o pode ser alcan\u00e7ado pelo poema, apenas sugerido, como os volumes submersos para sempre no alto das prateleiras.<\/p>\n<p>Ao desistir de tudo, o escritor emerge como personagem, abandonando os leitores \u00e0 pr\u00f3pria sorte. N\u00e3o foge, se encontra. N\u00e3o trava, desanda. N\u00e3o morre, eterniza-se. Aproveita para fazer um invent\u00e1rio, que passa por Her\u00e1clito, Zeus, Buenos Aires, Joyce, Israel, o pampa &#8211; todos cen\u00e1rios que somem na neblina depois da \u00faltima linha.<\/p>\n<p>Mas fingir-se de morto n\u00e3o era seu objetivo. Sua inten\u00e7\u00e3o de identificar-se com a mat\u00e9ria-prima que o envolveu o tempo todo, \u00e9 sincera. Retira-se da casa onde habitou para um lugar mais profundo, menos vis\u00edvel, mas indestrut\u00edvel: \u00e9 de l\u00e1 que fluem os materiais forjados pelo g\u00eanio. A humildade diante do absoluto pode ser encarada como mais um jogo de sua predile\u00e7\u00e3o, mas o que salta \u00e0 vista \u00e9 a sobriedade inspirada pela presen\u00e7a da morte.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o seu destino: vazar o corpo fechado da raz\u00e3o para nele transparecer a loucura. N\u00e3o o desatino dos doidos, mas a ardente lucidez da sabedoria.<\/p>\n<p>Borges aproximou-me demais da luz e, aparentemente, recusou-se a toc\u00e1-la. Virou os olhos para o Outro Lado e nesse movimento, conquistou o definitivo espa\u00e7o dos mestres. Ele nos conduz pela m\u00e3o e, na beira do abismo, desaparece.<\/p>\n<p>Ficamos, ent\u00e3o, reduzidos ao p\u00f3 de suas palavras, que ressoam como um sussurro, a ecoar a suprema ironia dos deuses. O livro n\u00e3o passa de uma armadilha. O que temos na m\u00e3o \u00e9 pura paisagem, rede que abra\u00e7a a pedra na praia, e nos enreda, sugerindo afogamento. Quem, de s\u00e3 consci\u00eancia, teimar\u00e1 em escapar desse la\u00e7o?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Iluminado pelas leituras de toda uma vida, Jorge Luis Borges descobre o essencial quando finalmente \u00e9 empurrado para a sombra. A cegueira, dura presen\u00e7a aos 70 anos de idade, o deixa s\u00f3 diante da fonte que alimenta os cl\u00e1ssicos &#8211; sua paix\u00e3o expl\u00edcita, uma rede tecida desde Virg\u00edlio a Kipling. Texto de Apresenta\u00e7\u00e3o do livro Elogio da Sombra (Editora Globo, 2001). <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1265"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1265"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1265\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1531,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1265\/revisions\/1531"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1265"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1265"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1265"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}