{"id":1267,"date":"2009-12-18T21:18:09","date_gmt":"2009-12-18T23:18:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1267"},"modified":"2009-12-20T20:52:42","modified_gmt":"2009-12-20T22:52:42","slug":"a-etica-da-solidao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-etica-da-solidao","title":{"rendered":"A \u00c9TICA DA SOLID\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: medium;\"> A \u00c9TICA<br \/>\nDA SOLID\u00c3O<\/span><span style=\"font-family: CoURIER NEW;\"><strong><span style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;\"><br \/>\n<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: CoURIER NEW;\"><strong><span style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;\"><br \/>\n<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: CoURIER NEW;\"><strong><span style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;\">Nei Ducl\u00f3s <\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\"><span style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\"><strong><em><span style=\"color: #660000;\">Pref\u00e1cio do Livro &#8220;Cartas a um Jovem Poeta&#8221; de Rainer Maria Rilke.<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o de Paulo R\u00f3nai<\/span><\/em><\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\"><span style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\"><br \/>\n<span style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><br \/>\n<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\"><span style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\"><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/rilke.jpg\" alt=\"\" align=\"left\" \/><span style=\"font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: x-small;\">Ao buscar o humano desprovido de disfarces, Rainer Maria Rilke encontrou a grandeza. Em &#8220;Cartas a um jovem poeta&#8221; ele relata essa dolorosa passagem em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 ess\u00eancia, que implica arrancar a fantasia cotidiana grudada \u00e0 carne. O sangue decorrente dessa decis\u00e3o n\u00e3o significa apenas recolher-se \u00e0 solid\u00e3o seminal da cria\u00e7\u00e3o. Mas de abrir m\u00e3o da moeda mais cobi\u00e7ada, o reconhecimento, de cruzar o pior dos umbrais &#8211; a indiferen\u00e7a &#8211; e encontrar o mais amedrontador dos mundos, aquele o\u00adnde habita a necessidade absoluta e a perman\u00eancia.<\/p>\n<p>Ao tratar com sobriedade e transpar\u00eancia o missivista Franz Xaver Kappus, que lhe pediu socorro num momento decisivo da voca\u00e7\u00e3o, Rilke aproveita para expor as bases do seu processo criativo. \u00c9 de sua pr\u00f3pria literatura que est\u00e1 falando, passaporte para o car\u00e1ter universal de uma obra considerada dif\u00edcil. Mas n\u00e3o se trata de uma introdu\u00e7\u00e3o ao que parece intrincado nos seus outros livros. \u00c9, antes, uma conviv\u00eancia com eles, uma irmandade &#8211; talvez mais feliz na clareza, mas igualmente soberba na claridade. &#8220;Carta a um jovem poeta&#8221; \u00e9 a antologia de uma correspond\u00eancia, que n\u00e3o inclui o que foi escrito pelo iniciante ao mestre. Essa oclus\u00e3o de um dos interlocutores poupa-nos das d\u00favidas e ang\u00fastias de uma vida, que procura encontrar o caminho certo da literatura, e nos concentra num conte\u00fado de permanente atualidade.<\/p>\n<p>Isso acontece gra\u00e7as a uma dupla generosidade. Primeiro, a do escritor consagrado que dedica parte do seu tempo a orientar um autor iniciante. Segundo, a do destinat\u00e1rio que omite sua participa\u00e7\u00e3o na correspond\u00eancia, como forma de agradecer ao mestre e reconhecer nele uma espiritualidade superior. Esta \u00e9 uma das li\u00e7\u00f5es deste pequeno livro. Pois n\u00e3o basta talento ou determina\u00e7\u00e3o: o desprendimento \u00e9 essencial para a perman\u00eancia da arte. A \u00e9tica de compartilhar com o outro os segredos mais \u00edntimos, e reconhecer no semelhante a possibilidade do g\u00eanio, gera o ambiente necess\u00e1rio para a literatura que confere dignidade ao presente e desafia a voragem do tempo.<\/p>\n<p>O insumo para esse desafio \u00e9 a solid\u00e3o, somada \u00e0 coragem, \u00e0 persist\u00eancia e \u00e0 paci\u00eancia. Ao aconselhar a solid\u00e3o contra a brilhareco da vida liter\u00e1ria, Rilke reconhece nela a verdadeira face da natureza humana, a fonte da arte que n\u00e3o pode ser apartada de uma vida carregada de significado.<\/p>\n<p>Seu libelo contra a irracionalidade da cr\u00edtica &#8211; territ\u00f3rio minado do pseudo pensamento cientifico &#8211; privilegia a lucidez da espiritualidade. \u00c9 com se fosse uma esgrima contundente contra a obscurantismo, uma forma de contrapor a seriedade do trabalho po\u00e9tico contra a superficialidade das an\u00e1lises. Esse aspecto pol\u00eamico reveste as Cartas de um alcance mais profundo do que o simples conselho, e mais amplo do que o trato do trabalho liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>A receita amarga da sinceridade como resposta \u00e0 admira\u00e7\u00e3o do escritor estreante \u00e9 a li\u00e7\u00e3o mais dura deste feixe de palavras que cruza um s\u00e9culo sem perder o fio do seu corte. Cem anos depois, as Cartas funcionam como um alerta para os v\u00edcios da nossa \u00e9poca, submetida, mais do que qualquer outra, \u00e0 sordidez da superficialidade, justificada como insumo democratizador. \u00c9 como se Rilke nos esperasse no futuro, com seus princ\u00edpios intactos, n\u00e3o para cobrar a conta, mas com sua ilumina\u00e7\u00e3o eternamente dispon\u00edvel para uma vida mais completa.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o de Paulo R\u00f3nai, intelectual e multilinguista h\u00fangaro naturalizado brasileiro, as Cartas chegam at\u00e9 n\u00f3s com o vi\u00e7o da linguagem bem resolvida. \u00c9 quando os talentos de l\u00ednguas diversas se sintonizam para privilegiar a leitura, e por meio dela, o conhecimento e a emo\u00e7\u00e3o. A companhia de Rilke com Paulo R\u00f3nai e Cec\u00edlia Meirelles &#8211; que verteu para nossa l\u00edngua &#8220;A Can\u00e7\u00e3o de Amor e Morte do Porta-Estandarte Crist\u00f3v\u00e3o Rilke&#8221;, publicada na sequ\u00eancia das Cartas &#8211; \u00e9 mais uma li\u00e7\u00e3o deste relan\u00e7amento. Pois para disseminar a excel\u00eancia da cria\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso que as editoras procurem e achem as pessoas certas, para que a literatura se universalize em suas qualidades e n\u00e3o em seus defeitos.<\/p>\n<p>O trabalho de Cec\u00edlia Meirelles na tradu\u00e7\u00e3o da saga do ancestral morto na batalha, pin\u00e7ado pelo poeta na hist\u00f3ria familiar, abre as portas para uma viagem liter\u00e1ria de in\u00fameras revela\u00e7\u00f5es. A principal delas \u00e9 que o mito pode ser encontrado &#8211; ou criado &#8211; a partir dos detalhes da mem\u00f3ria pessoal e da saga comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Para Rilke, o trabalho demi\u00fargico do escritor n\u00e3o est\u00e1 acima ou fora do humano. Talvez o preceda &#8211; e esse \u00e9 o aspecto mitico e ancestral da sua poesia. Ou apenas o revele na sua verdadeira grandeza &#8211; e esse deve ser o segredo da sua for\u00e7a e perman\u00eancia.<\/p>\n<p><\/span><\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao buscar o humano desprovido de disfarces, Rainer Maria Rilke encontrou a grandeza. Em \u201cCartas a um jovem poeta&#8221; ele relata essa dolorosa passagem em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 ess\u00eancia, que implica arrancar a fantasia cotidiana grudada \u00e0 carne. O sangue decorrente dessa decis\u00e3o n\u00e3o significa apenas recolher-se \u00e0 solid\u00e3o seminal da cria\u00e7\u00e3o. Mas de abrir m\u00e3o da moeda mais cobi\u00e7ada, o reconhecimento, de cruzar o pior dos umbrais-a indiferen\u00e7a-e encontrar o mais amedrontador dos mundos, aquele o\u00adnde habita a necessidade absoluta e a perman\u00eancia.Pref\u00e1cio do Livro &#8220;Cartas a um Jovem Poeta&#8221; de Rainer Maria Rilke(Editora Globo, 2001).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1267"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1267"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1267\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1404,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1267\/revisions\/1404"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1267"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1267"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1267"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}