{"id":1269,"date":"2009-12-18T21:19:03","date_gmt":"2009-12-18T23:19:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1269"},"modified":"2009-12-20T22:46:02","modified_gmt":"2009-12-21T00:46:02","slug":"o-sopro-sem-nome","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-sopro-sem-nome","title":{"rendered":"O SOPRO SEM NOME"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Dar nome \u00e0s coisas \u00e9 esconder a identidade original do que \u00e9 nomeado, a que existia antes do batismo. Essa face reconhec\u00edvel se transforma em mist\u00e9rio pela dist\u00e2ncia que tomamos da cria\u00e7\u00e3o, pelo tempo transcorrido desde o primeiro v\u00ednculo. N\u00e3o temos como reencontr\u00e1-la, pois a perdemos ao troc\u00e1-la pelo seu nome. No fundo, substitu\u00edmos o que quer\u00edamos decifrar pelo uso c\u00f4modo de uma palavra, que acaba apagando a mem\u00f3ria da origem.<\/p>\n<p>A palavra vira uma criatura \u00e0 parte, n\u00e3o s\u00f3 pelo esquecimento do que a gerou, mas porque provou o gosto de ser fonte de si mesma, fora daquilo que foi nomeado pela primeira vez. Tornar-se matriz \u00e9 a tenta\u00e7\u00e3o da palavra que jamais revela o que \u00e9 realmente, pois estar\u00e1 sempre se referindo a algo que, em tese, est\u00e1 fora de si (o que nos transmite a ilus\u00e3o de compreendermos o objeto que aponta). Feita de camadas superpostas como pap\u00e9is esquecidos no parapeito da janela, a palavra espera o sopro da poesia para poder decifrar-se. Em v\u00e3o. O poema \u00e9 emiss\u00e1rio de um criador e n\u00e3o basta que se desfa\u00e7a o monturo onde se escondem as tra\u00e7as da revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O embaralhamento \u00e9 outra composi\u00e7\u00e3o dessas peles que se empilham, e tamb\u00e9m ele torna-se um ser de consist\u00eancia diversa. Sinal de que a palavra perde a batalha de nomear o que a poesia insufla em suas flautas de ossatura e m\u00e1rmore. Nessa arena, o poeta ou sucumbe \u00e0 armadura dos significados ou pula no abismo. Se pular, sua poesia ser\u00e1 o grito antes da queda. Esse grito \u00e9 o fio em que \u00e9 poss\u00edvel tecer uma rede (o livro), uma voz (composta pela entona\u00e7\u00e3o l\u00facida da pr\u00f3pria escassez) e uma presen\u00e7a (o estilo esculpido no espa\u00e7o de uma vida).<\/p>\n<p>Fabricio Carpinejar escolhe um momento posterior \u00e0 queda em seu livro dois-em-um, <strong>Como no C\u00e9u e Livro de Visitas<\/strong>, lan\u00e7ado pela Bertrand Brasil. N\u00e3o percorre mais o trajeto de buscar o avesso das coisas retransmitidas no espelho da palavra. Ele cuida do que \u00e9 jogado fora, para que o esp\u00f3lio do s\u00f3t\u00e3o seja a arqueologia que reinventa os c\u00f4modos ainda vivos. Sua poesia n\u00e3o busca a pra\u00e7a usada pela conviv\u00eancia em conflito, mas a cruza de uma s\u00f3 vez para lamentar a travessia sem sentido.<\/p>\n<p>A biografia dessas ru\u00ednas veste como um terno em dia de missa, mas suja os sapatos polidos para participar da briga no quintal barrento da igreja. A inf\u00e2ncia que desponta disso \u00e9 uma crueldade, e a vida conjugal \u00e9 um cruzamento de merendas jogadas como arsenais de uma batalha perdida. A precis\u00e3o com que demole cada momento da vida vista pela normalidade (essa evolu\u00e7\u00e3o temporal de biologias datadas) serve de modelo para um brinquedo cruel: o de desarmar o rel\u00f3gio precioso da fam\u00edlia para expor-lhe as v\u00edsceras e assim denunciar a inexist\u00eancia de mecanismos.<\/p>\n<p>\u00c9 arriscado esse jogo porque as palavras parecem dan\u00e7ar ao sabor de cada verso, como se nada tivessem com o poeta que sopra nessa rua ainda vazia, mas potencialmente sedutora para a alma crian\u00e7a dos leitores. \u00c9 apenas um jogo, dir\u00e3o as autoridades, e se ocupar\u00e3o de outras coisas, deixando que as sobras da fam\u00edlia, os loucos, os agregados, as velhas tias, as crian\u00e7as esfoladas se re\u00fanam para seguir a pista do som que vem de fora do c\u00edrculo onde todos foram encarcerados.<\/p>\n<p>H\u00e1 ent\u00e3o uma anti-celebra\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que o poeta \u00e9 o primeiro a apontar em si mesmo a inapet\u00eancia para explicar a sedu\u00e7\u00e3o da melodia. Ele atrai para si a gargalhada geral para que n\u00e3o ou\u00e7am seu verdadeiro intento: o de jogar todo mundo nas \u00e1guas do rio, para que nela afoguem os detritos das suas linguagens. A algaravia, acendida pelo mago que surge de uma outra cidade, aos poucos vai cedendo como a turba que encontra enfim o alimento que procura. Mas o pote est\u00e1 vazio e a casca do dia quebra como um vaso de flores jogado da sacada.<\/p>\n<p>\u00c9 quando o leitor se revolta contra as regras impostas do jogo. N\u00e3o era o circo que estava passando? N\u00e3o eram as celebridades que acenavam? N\u00e3o era a fama que exibia sua fortuna? Ou era s\u00f3 um velho que rangia os ossos, um marido que mudava de resid\u00eancia, uma luz no corredor para driblar o escuro? N\u00e3o era o exibicionismo de uma arte? Ou era apenas uma borboleta que guardava dentro de si uma abelha, o vento que fisgava uma figura torta, a roupa do varal que batia na cara de um menino? Ent\u00e3o era isso o sonoro passeio do flautista que prometia o encantamento?Por que fomos atr\u00e1s do cortejo, agora que a noite chega e estamos ainda no meio do rio?<\/p>\n<p>Ao nosso redor, escombros de coisas n\u00e3o nomeadas nos rondam com seu ranger de dentes. Fomos enganados e o poeta fecha a porta na nossa cara como quem faz uma visita. Boa noite, diz ele, e o sol sobe no horizonte como um cachorro pula do ch\u00e3o para a janela, quando busca comida no lugar o\u00adnde havia apenas papel sujo.<\/p>\n<p>Sorte de quem est\u00e1 na rua, que v\u00ea em plena liberdade as folhas soltas que tinham nascido para serem grampeadas. \u00c9 o momento ent\u00e3o de cada passante ser reconduzido ao primeiro ato de cria\u00e7\u00e3o, o de dar nome ao que \u00e9 de novo revelado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao nosso redor, escombros de coisas n\u00e3o nomeadas nos rondam com seu ranger de dentes. Fomos enganados e o poeta fecha a porta na nossa cara como quem faz uma visita. Boa noite, diz ele, e o sol sobe no horizonte como um cachorro pula do ch\u00e3o para a janela, quando busca comida no lugar onde havia apenas papel sujo. (Resenha sobre Como no C\u00e9u e Livro de Visitas, de Fabricio Carpinejar, lan\u00e7ado pela Bertrand Brasil).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1269"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1269"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1269\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1446,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1269\/revisions\/1446"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1269"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1269"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1269"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}